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O El Niño que está se formando no Oceano Pacífico pode se tornar o mais forte da história recente, segundo o Met Office, o serviço meteorológico nacional do Reino Unido, que acompanha e produz previsões sobre o comportamento do clima em escala global.
O órgão britânico afirma que o sinal do fenômeno em seus modelos é de uma intensidade que seus especialistas nunca haviam observado.
Se as projeções se confirmarem, o episódio poderá superar os eventos registrados desde o início das séries modernas de observação e se aproximar dos mais intensos já ocorridos nos últimos séculos.
O fenômeno também deve contribuir para uma nova elevação das temperaturas globais. Para o Met Office, é muito provável que 2027 seja o ano mais quente já registrado, superando o recorde estabelecido em 2024.
“Eu nunca vi um sinal de El Niño tão intenso em nossas previsões”, afirmou Adam Scaife, chefe de previsão de longo prazo do Met Office.
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Um El Niño fora do padrão
O El Niño é um fenômeno natural que ocorre, em geral, a cada dois a sete anos e costuma durar aproximadamente um ano. Ele acontece quando os ventos alísios que normalmente sopram de leste para oeste sobre o Pacífico enfraquecem ou até mudam de direção.
Com isso, águas quentes se deslocam para o leste do Pacífico. O calor acumulado no oceano é transferido para a atmosfera, alterando os padrões de vento e chuva em diferentes partes do mundo.
Os sinais atuais chamam atenção pela intensidade. As temperaturas da superfície do Pacífico em uma das principais áreas utilizadas pelos meteorologistas para acompanhar o fenômeno já estão mais de 2°C acima da média.
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As projeções do Met Office indicam que esse aquecimento pode superar 3°C quando o El Niño atingir seu pico, no fim deste ano.
Se isso acontecer, seria um nível sem precedentes nos registros modernos, que remontam a 1950, e provavelmente o episódio mais forte desde o século XIX.
Uma das razões para a preocupação está nas águas profundas do Pacífico. Em algumas áreas, o oceano apresenta temperaturas cerca de 8°C acima do normal a 100 metros de profundidade.
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Esse enorme estoque de água quente funciona como uma reserva de energia capaz de alimentar o fenômeno à medida que ele se desenvolve.
“Temos muitos meses pela frente enquanto esse evento continua se desenvolvendo”, afirmou Zeke Hausfather, cientista climático da Berkeley Earth. Segundo ele, isso aumenta a confiança na possibilidade de que o episódio estabeleça um recorde.
Alguns outros grupos de pesquisa projetam um aquecimento ainda maior, que poderia chegar a 4°C acima da média.
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Nesse cenário, Hausfather considera que não seria impossível que o episódio fosse o El Niño mais forte dos últimos 500 ou até 1.000 anos.
Efeito sobre o clima mundial
O El Niño não produz o mesmo efeito em todas as regiões do planeta. Ao alterar a distribuição do calor no oceano e modificar os ventos na atmosfera, o fenômeno pode aumentar a probabilidade de chuva em algumas áreas e de seca em outras.
Já existem sinais de que o padrão climático global começou a responder ao fenômeno.
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Na Índia, por exemplo, as chuvas da monção estão abaixo da média em 2026. O El Niño costuma reduzir a precipitação durante a monção no sudoeste do país.
Em regiões próximas ao Pacífico tropical, os efeitos podem ser ainda mais intensos, com aumento do risco de seca e incêndios.
O fenômeno também pode produzir efeitos opostos em outras partes do mundo. Peru, Equador e o sul dos Estados Unidos, por exemplo, costumam apresentar maior probabilidade de chuvas e inundações durante episódios de El Niño.
As alterações climáticas também podem afetar a agricultura. Episódios anteriores estiveram associados a perdas nas colheitas de produtos como café, arroz e cacau, contribuindo para aumentos de preços e interrupções nas cadeias globais de abastecimento.
Segundo a FAO, braço das Nações Unidas para alimentação e agricultura, o fenômeno atual pode ameaçar dezenas de milhões de pessoas em países vulneráveis com níveis de insegurança alimentar classificados como críticos.
Menos furacões no Atlântico
Um dos efeitos aparentemente contraditórios do El Niño aparece no Atlântico.
As mudanças na circulação dos ventos sobre o Caribe e o Atlântico tropical podem reduzir a atividade de furacões.
Até agora, a temporada de 2026 registrou apenas três tempestades nomeadas, segundo o acompanhamento citado pelo Met Office.
O fenômeno, portanto, não significa simplesmente uma intensificação de todos os tipos de eventos extremos. Seus efeitos dependem da região e do sistema climático envolvido.
O impacto do El Niño no Reino Unido costuma ser bem menor do que nas regiões tropicais. O fenômeno, por exemplo, não é considerado responsável pelas ondas de calor recordes que atingiram o país durante o verão.
Mas os meteorologistas britânicos esperam que sua influência fique mais evidente no outono e no início do inverno.
O El Niño pode aumentar a probabilidade de um período de tempo chuvoso e tempestuoso no noroeste da Europa, incluindo o Reino Unido.
Mais adiante, o fenômeno também pode aumentar, embora de maneira menos consistente, a probabilidade de episódios de frio no fim do inverno.
O aquecimento global está tornando o El Niño pior?
Essa é uma questão ainda em aberto.
O El Niño é um fenômeno natural, e a Organização Meteorológica Mundial afirma que não há evidências de que a mudança climática esteja aumentando sua frequência ou intensidade.
O tema continua sendo objeto de pesquisa científica. Um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, apontou que a intensidade dos episódios de El Niño parece ter aumentado desde 1950 quando comparada com períodos mais longos da história climática, mas ressalvou que os eventos também apresentaram grandes oscilações ao longo de milhares de anos.
Há, porém, um ponto que não está em disputa: o El Niño atual acontece em um planeta muito mais quente.
A temperatura média global já subiu cerca de 1,4°C desde o fim do século XIX, principalmente em consequência da atividade humana e da queima de combustíveis fósseis.
Quando ocorre um El Niño, o oceano libera uma quantidade adicional de calor para a atmosfera. Isso provoca um aumento temporário da temperatura média global.
O efeito é particularmente forte no ano seguinte ao pico do fenômeno.
É por isso que o Met Office considera muito provável que 2027 substitua 2024 como o ano mais quente da história dos registros modernos.
O cenário projetado pelo serviço meteorológico britânico combina, portanto, dois fatores: um dos mais fortes fenômenos naturais de aquecimento do Pacífico já observados e um planeta que já está mais quente por causa das mudanças climáticas.
O resultado será um período de maior risco de alterações climáticas extremas em diferentes partes do mundo — ainda que os efeitos específicos variem significativamente de uma região para outra.
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