SNS precisa de mais 600 anestesiologistas, estima Ordem dos Médicos

"As estimativas disponíveis apontam para um défice superior a 600 anestesiologistas no setor público, num contexto em que aumentaram significativamente as alternativas profissionais fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS)", salientou a ordem em comunicado.

A posição da OM foi manifestada um dia depois de nove chefes de equipa da urgência pediátrica do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, terem apresentado a demissão dos cargos, alegando constrangimentos com a anestesiologia, confirmou a Unidade Local de Saúde (ULS) São José.

No final de agosto, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, já tinha admitido a falta de médicos dessa especialidade na ULS de São José, mas também em outros locais do país, reconhecendo que as situações mais críticas acontecem durante o verão.

"É um bocadinho por todo o país, mas tudo se reflete mais na região de Lisboa e Vale do Tejo", assumiu Ana Paula Martins, em declarações aos jornalistas na ocasião, na sequência da denúncia do Sindicato dos Médicos da Zona Sul sobre a "grave escassez" de anestesiologistas na Unidade Local de Saúde de São José.

No comunicado hoje divulgado, a OM salientou que Portugal tem atualmente 2.520 anestesiologistas inscritos na ordem, mais 500 do que há três anos, o faz com que o rácio global atinja os 22,1 especialistas por 100 mil habitantes.

"Portugal está a formar anestesiologistas, mas o SNS tem de conseguir atrai-los e criar condições para que queiram permanecer", defendeu a ordem, que, perante a falta de médicos da área, considerou que o "problema exige uma resposta estrutural célere".

"Não basta formar médicos. Temos de garantir que o SNS é suficientemente atrativo para que os especialistas que formamos queiram nele trabalhar, construir uma carreira e permanecer", afirmou o bastonário Carlos Cortes, citado no comunicado.

A ordem salientou ainda que a anestesiologia tem um "efeito multiplicador decisivo na atividade hospitalar", alegando ser uma especialidade essencial às cirurgias programadas e urgentes, à medicina perioperatória, à recuperação pós anestésica, à analgesia do parto e cesarianas, ao tratamento da dor, à emergência e aos cuidados críticos.

Considerou que a falta de um médico anestesiologista não significa apenas menos um profissional de saúde numa escala de serviço, podendo representar, na prática, uma sala operatória que não funciona, uma cirurgia adiada, um procedimento que não se realiza, menor capacidade de resposta hospitalar e mais tempo de espera para os doentes.

No comunicado, a OM avisou também para a "desadequação da rede de referenciação" que encaminha doentes para hospitais centrais "sem considerar a distribuição real dos recursos humanos de anestesiologia".

"Esta desarticulação agrava a pressão sobre os hospitais centrais de elevada diferenciação e compromete a capacidade de resposta assistencial", realçou a ordem.

Perante isso, defendeu ser necessário desenvolver uma estratégia nacional para a atração e retenção de anestesiologistas no SNS, integrada numa política mais ampla de valorização da carreira médica.

"É necessário identificar as necessidades reais em cada região, antecipar aposentações, contratar atempadamente os novos especialistas, criar incentivos para zonas de maior carência, melhorar as condições de trabalho e proporcionar perspetivas de diferenciação e progressão profissional", preconizou a ordem, que garantiu que essas medidas têm sido apresentadas formalmente ao Ministério da Saúde.

Leia Também: Quadro de referência do SNS inviabiliza contratação de novos enfermeiros