Sobre fazer batota num quiz e a saga da bricolage

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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio de "Terapia de Casal". Nesta manhã, espero que de segunda-feira, porque se não estão a ouvir isto à segunda-feira, será que podem considerar-se ouvintes do "Terapia de Casal"?

Também é essa. É um tema que é muito discutido em praça pública e que eu acho que merece vir mais vezes à liça.

Mas não é hoje.

Não é hoje, não vale a pena estar a picar hoje.

Hoje eu sou a Rita da Nova, estou com o meu marido Guilherme Fonseca, para quem eu tenho uma pergunta.

Manda vir.

Sabes a história da origem da palavra DJ? Não é uma palavra, porque é disc jockey, mas a sigla DJ, ou seja, daquilo que nós hoje consideramos um DJ?

Ok, a primeira coisa que me vem à cabeça é que o jockey é o senhor que está em cima do cavalo.

Ok.

Portanto, eu acho que disc jockey é quem cavalga músicas ao longo de uma sessão de dança. Ou seja, é o cara que vai ali cavalgar as músicas.

Foi assim que te sentiste no nosso DJ set de "Terapia de Casal".

Exatamente. Essa é a primeira coisa que me vem à cabeça por causa da palavra jockey.

Ok. A primeira vez que a expressão disc jockey foi usada, foi em 1935, numa rádio americana, em que um comentador de rádio se referiu a um senhor, que era apresentador, que vinha a seguir na emissão.

Ok.

Chamado Martin Block, que foi conhecido por ser o primeiro a passar músicas comerciais na rádio, em vez de ser rádio só de conversa.

Ok.

E então ele chamou-lhe disc jockey, porque ele usava os discos para passar a música, e jockey significa também operador, ou seja, um operador de qualquer coisa.

Então um jockey dos cavalos é só o operador do cavalo.

No fundo, sim.

Ok.

E então ele disse: "Vem o nosso disc jockey, acho eu, que é o nosso senhor que usa os discos."

Que opera os discos.

Opera os discos para pôr música.

Sim, senhora. E tu como disc jockey, porque nós pusemos música.

Como DJ.

No último episódio, nós terminamos antes de ter a nossa prestação no Mockfest e fizemos o nosso streaming da Vortan.

O episódio foi gravado antes do DJ set, mas foi publicado depois do DJ set.

Exatamente. E portanto eu quero saber a tua experiência como DJ, o que é que tu sentiste e se concordas comigo que agora este é o rumo que nós procuramos. Fazemos casamentos, batizados, funerais, fazemos tudo.

Este é de tal forma o rumo que nós procuramos, que a minha irmã, que vai casar para o ano, disse: "Vocês gostaram? É que eu tenho ali uma parte do casamento que estou a planear entre as 19h e as 20h, que precisava de alguém que pusesse música."

Então nós vamos ser DJs no casamento da tua irmã.

Pelos vistos. Olha, foi muito divertido. Foi muito mais divertido do que eu estava à espera.

Concordo 100%.

O nosso DJ set foi entre a 00h e a 1h. Da 00h à 00h30 vi o caso mal parado.

Tínhamos pouca gente, tínhamos ali oito, nove, 10 pessoas a dar atenção. Havia alguns conhecidos, havia lá alguns humoristas que já não estavam a trabalhar.

Também tinhas amigos lá.

Eu estou a acrescentar ao que tu disseste.

Disseste conhecidos.

Tu disseste: "Tínhamos amigos e eu conheci." E eu disse: "Também tínhamos conhecidos."

Estás a chamar conhecidos aos teus amigos.

Ok. Queres arranjar confusão já ou entras nesta energia?

Estava só a perguntar se era essa a distinção que usas.

Tínhamos amigos, concordo, é verdade. Estavam lá muitos amigos, muito amigos, amigos muito amigos. Tínhamos também conhecidos, tínhamos humoristas que já não estavam a atuar. Tínhamos ali uma fauna, mas era uma fauna muito mortiça, vou dizer assim.

Estavam no início da noite, não era difícil.

O que é que acontece? Nós com o poder da música, à 1h, quando largamos aquilo, tínhamos aí 50 pessoas à nossa frente, festa, tudo a dançar, tudo a cantar. Vou te dizer assim, a Avenida da Liberdade era nossa.

A Avenida da Liberdade nunca mais vai ser a mesma, eu acho. Agora as pessoas passam pela Avenida da Liberdade e é tipo: "Ah, o que é isto?"

Já não é a mesma coisa.

Pode ser considerada da liberdade? Sem a liberdade que a música dá?

Exatamente. No próximo 25 de abril, eu suspeito que as pessoas vão ver a descida da avenida, que normalmente é à volta de meio milhão, entre meio milhão e 1 milhão de pessoas. As pessoas vão ver o 25 de abril e vão dizer assim: "A última vez que eu vi isto assim, foi quando a Rita e o Guilherme puseram música aqui." É o que as pessoas vão estar a dizer quando virem a descida da Avenida da Liberdade no dia 25 de abril.

Foi muito divertido.

Foi, foi muito divertido.

Ali entre a 00h e a 1h foi quando as pessoas começaram a dançar, portanto foi muito divertido. Gostava de agradecer às pessoas que foram lá. Queria só que estabelecêssemos aqui uma coisa, porque nós quando começámos a pôr música explicámos lá ao microfone que íamos pôr uma música da Rita, uma música do Gui, na lógica de batalha, uma battle. E queria que tu admitisses aqui publicamente que a minha escolha musical foi melhor e que roubaste músicas minhas.

A tua escolha musical foi melhor no sentido em que tu escolheste mais coisas pop dançáveis. E eu tinha lá algumas coisas divertidas, tinha lá algumas coisas que tinham a ver com mock, comédia, música para dançar, não sei quê, mas eram músicas um bocadinho mais para baixo. E então o que é que eu fiz? Houve ali duas instâncias.

Duas ou três.

Duas instâncias, três talvez na pior das hipóteses, em que eu rapinei músicas que estavam do teu lado. Mas também por quê? Há outro motivo aqui.

Diz lá.

Que é: nós combinamos levar metade, metade das músicas. E a minha mulher, a certa altura, descobriu que eu arranjei um esquema cibernético, tecnológico.

A comprar as músicas.

Em que arranjei músicas com mais facilidade para levar. Então, de repente, pediu-me mais 40. Portanto, tu tinhas mais músicas disponíveis.

Eu levei opções.

Pois.

Eu levei opções, porque isso é uma coisa que ninguém te diz.

Opções para quem? Para mim também. Estão lá opções. Pronto.

Isso é uma coisa que ninguém te diz sobre ser DJ, é que não interessa O que é que tu pensaste? Leva muitas opções e depois vai sentindo as pessoas.

Desculpa estar a bocejar.

Estás a aborrecer?

As pessoas não dizem que aquilo é para navegar como se fosse o mar. Uma pessoa tem que preparar. Olha, está um bocado mais de turbulência agora. Olha, a onda está conosco, vamos surfar esta onda, vai nesta onda. E metes quatro músicas seguidas em que não largas a onda. É assim.

É assim.

Nós, DJ's profissionais, temos que sentir o público e às vezes sentir o público é mudar um bocadinho os planos que nós tínhamos de música que íamos pôr a seguir, para seguir um bocado na energia das pessoas que temos à nossa frente.

E isso significa roubar a música da nossa mulher, não é?

Se a nossa mulher tomou a decisão de não carregar em nenhum botão e de levar o dobro das músicas do marido quando era suposto ter metade das músicas.

Não carregou em nenhum botão, carregou lá no botão para selecionar a música.

Estava em grande botão. E também para abrir as portas do carro para sair embora depois. São dois botões que tu carregaste.

Por acaso não carreguei, que o nosso é daqueles que metes a mão e ele abre sozinho. Mas queria só dizer aqui foi muito divertido. Talvez esteja aqui o futuro.

É verdade. Se quiserem um casal de DJ's, nós estamos aqui.

Se tudo falhar. Se como algumas pessoas dizem, tu achas que és comediante, eu acho que sou escritora e não temos graça nenhuma.

Exatamente.

E eu não tenho talento nenhum. Pode ser que o nosso talento esteja a ser desperdiçado e estamos aqui em busca de um futuro como DJ's.

Exatamente. Zé Diogo Quintela teve, há muitos anos, um projeto com um amigo em que iam pôr música a festivais e a discotecas chamado Dois DJ's do Caralho.

Olha.

Eu não sei se nós não devíamos ser o Um DJ do Caralho e a Mulher, que foi também com ele.

Agora vou mesmo fazer aqui uma pergunta honesta. Podes responder sem grande contexto e seguimos, que também é para não estarmos aqui a noite toda. Percebes? Noite.

Exatamente, porque é à noite que se mete música.

Tu achas, então, que o sucesso do nosso DJ set se deve exclusivamente a ti?

Não.

Então pronto, seguimos. Tens mais alguma coisa para contar à nossa gente antes de prosseguirmos?

Sobre o DJ set? Não, o DJ set para mim está fechado, está terminado.

Prossegue.

Tenho várias coisas para falar desta semana. Esta semana foi uma semana em que levei muito na boca e estou um bocadinho abatido por causa disso, porque fui jogar pôquer, perdi, fomos a um quiz, perdi, depois estivemos com amigos a jogar sueca, perdi. E eu sinto que é uma semana de levar muito na boca, mas eu queria me focar no quiz, porque nós fomos os dois a um quiz. Eu já tinha ido a um quiz em que ficámos em terceiro lugar e eu fui para uma equipa que estava a ganhar há quatro semanas seguidas e eu sinto que fui o causador de perderem aquele quiz. Ora, qual é o problema? É que eu acho que nós vivemos em 2026.

Vivemos.

E, portanto, é preciso fazer qualquer coisa em relação à merda da batota nos quizzes.

É verdade.

Porque nós apanhámos uma mesa ao lado da nossa a fazer batota. Eu tenho um vídeo que filmei diretamente do telefone daquelas pessoas.

Com a Wikipédia ou no AI do Google.

Foi no AI do Google. No vídeo, eu acho que é a AI do Google, mas a certa altura eles estavam a usar ChatGPT. E eu vou te dizer uma coisa: se vais para um quiz para perguntar ao ChatGPT.

Fica em casa.

Eu acho que devia haver penas maiores.

Desculpa.

O que aconteceu aqui? Foi com um delay enorme.

Desculpem.

Eu acho que tem que haver um controle maior de batotas em quizzes.

É tirar telemóveis.

Mas depois as pessoas vão se começar a coçar todas e a dizer que estão maldispostas e "o meu telefone, o meu telefone, o meu telefone".

É tirar telemóveis, é pôr telemóveis numa caixinha. No final da noite, cada pessoa tem o seu telemóvel.

Pois.

É tirar telemóveis.

É que ainda por cima, as pessoas que organizaram o quiz fizeram um intervalo a meio. Eram 50 perguntas, fizeram 25 perguntas, pausa a meio, toda a gente foi fumar um cigarro e beber uma cerveja lá fora.

Claro, estava toda a gente com os telemóveis.

Estava toda a gente a olhar. Eu nunca vi um clima, parecia que estávamos na Alemanha nazi e que havia judeus entre nós e nós estávamos todos a ver quem é que era. A olhar à volta.

E olhar para os telemóveis e o que esta pessoa está a fazer.

Claro, como se na Alemanha nazi só olhou para os telemóveis.

Exatamente.

Quer dizer, dados os resultados que tem havido da extrema-direita na Alemanha, eu não sei se a Alemanha nazi não está a parecer. Mas olhar para os lados, um clima de desconfiança enorme. Por quê? Porque as pessoas fazem batota.

Tirem os telemóveis.

Mas a questão é: as pessoas têm que se comportar ou tens que obrigar as pessoas a comportar-se? É a pergunta que eu deixo aqui da moralidade e da sociedade.

Tu sabes que eu, à partida, acredito na liberdade individual de cada pessoa, que é isso que significa individual.

Exatamente.

Mas acho que há situações em que tu tens de reforçar aqui de alguma forma.

Há situações em que o Estado tem que impor os limites da segurança.

Acho que sim.

Pronto, eu percebo.

Vota Chega.

Na verdade, não é voto Chega.

Não, estou a brincar. Estou obviamente a brincar.

Sim, mas eu acho que não sei se em condições de quiz, se eu não sou voto Chega, no sentido em que tem que haver uma vigilância apertadíssima do cidadão.

Exatamente. Repara uma coisa. Tu quando vais a um concerto ou a um espetáculo de stand-up que os humoristas não querem que saia para fora, que as pessoas filmem, que as pessoas gravem de alguma forma.

Dou-te um exemplo muito prático. Foi umas noites teste do Salvador e do Bruno, em que as pessoas punham o telefone todos numa caixa.

Pronto. Ou cada um na sua bolsinha, a bolsinha está fechada, cada pessoa fica com o seu telemóvel na mesma, que é para não pensar: "Onde é que está o meu telemóvel no final da noite, vão me roubar o telemóvel". Está cá o telemóvel, lembras-te dessa?

Dá-me o telemóvel já!

Está cá o telemóvel. Eu acho que é isto, ou seja, há umas bolsinhas, as pessoas metem as bolsinhas, as caixas, o que for, e no final da noite tens o teu telemóvel de volta, foi uma hora.

Mas é que foi uma batota inacreditável.

Se é para fazer batota, prefiro perder.

Não, eu prefiro perder contra alguém que está a fazer batota. Não é por aí. Agora, isto é uma coisa inacreditável, porque eu tenho aqui o vídeo que nós apanhámos Onde é que está? Está aqui. Olha aqui isto. Nós apanhámos um telefone em que as pessoas estavam a pesquisar quem é que ganhou mais corridas da Fórmula 1.

Grand Prix.

Está ali, com mais vitórias da Fórmula 1. Ela escreveu e estava o AI do Google a dizer. Eu não sei se este vídeo não devia ser a promoção do nosso empreendedor desta semana.

Achas que devia ser ou que devia ser as fotos da minha saga desta semana?

Isso acho que pode ser um complemento. Acho que esta semana podemos ter um complemento. Complemento, sim.

Complemento.

Porque eu vou te dizer isto, só te vou dizer isto uma vez. Eu sei que tu tens estado numa situação mais complicada e mais vulnerável da tua vida por causa do IKEA, mas tu estás numa relação tóxica com o IKEA e eu já não tenho capacidade de te ajudar. E eu já acho que é um ponto em que eu vou dar dois passos atrás e observar só, porque tu tomaste as rédeas da tua vida e no teu sofrimento tu estás a navegar e a aprofundar-te sozinha. É areias movediças o que está a acontecer contigo neste momento. E eu daqui só parto para uma intervenção, em que eu vou chamar as tuas amigas, chamo a Márcia, chamo a Inês, chamo a Pata, sento toda a gente aqui. Tu chegas a casa, se não estás à espera, abres a porta e eu digo-te assim: "Rita, isto é uma intervenção, nós precisamos de falar sobre a tua relação com o IKEA neste momento. Tu estás absolutamente descontrolada e eu temo que esteja a afetar a tua saúde mental."

Estás a falar disso por causa das coisas que eu estou a tentar prender na parede e não consigo.

Tudo o que se passou nas últimas semanas. Tu queres falar, tu podes falar, mas tudo o que se passou nas últimas semanas.

Não, tudo o que se passou na sexta-feira.

Vou dizer nos últimos quatro dias, com pico máximo do que se está a passar cá em casa. Fala com as pessoas.

Então como vocês sabem, eu comprei um móvel aqui para a entrada, que era cinzento, e eu queria pintá-lo de amarelo. Fui comprá-lo, não nesta sexta-feira que passou, na anterior. Segunda-feira seguinte, veio cá a minha amiga Márcia para casa para começarmos a lixar o móvel e a passar o primário. E durante a semana eu estive a pintar o móvel. E durante o processo de pintar o móvel, eu estive bastante tranquila.

Ias ok.

Estive tranquila.

Foi ok.

Pintei o móvel.

Foi ok.

Duas mãos.

Tiveste só um pico de energia quando fomos à loja das tintas e tu te apaixonaste pelo senhor que te vendeu as tintas.

Apaixonei, completamente. Um amor.

Mas não foi por ser bonito, atenção, é isso que nós estamos a dizer. É um senhor muito simpático e a Rita disse: "É dos meus velhinhos favoritos da vida."

Não é velhinho, é um senhor de meia-idade. Olha aí o idadismo. Já a semana passada tivemos problemas com o idadismo.

Os problemas das pessoas eu posso bem, ou bem eles com eles.

Tivemos problemas com o idadismo, não te esqueças que são as pessoas com 55 mais que nos pagam as contas, não percebi essa.

Eu também não percebi.

Já tenho o meu top três de senhores favoritos. Queres saber qual é?

Quero.

Em terceiro lugar está senhor Tiago das Tintas Sin de Telheiras. Vou dizer.

Estamos mesmo a dizer a loja e o nome.

Senhor Tiago das Tintas Sin de Telheiras. Um amor, apaixonadíssima por ele, de forma platônica, obviamente.

Muito simpático, porque te explica outras coisas sem ser paternalista ou patriarcal. Não é tipo: "Esta H não percebe nada disso".

Nada. Perguntou-me quais eram os meus planos de vida. Eu expliquei-lhe, ele ouviu, acrescentou. Adorei. Segundo lugar, senhor Luís dos Correios do Colombo. Já aqui falei dele. É um amor, apaixonadíssima. Primeiro lugar, obviamente destacado, continua senhor Orlando, carteiro.

O nosso carteiro.

Portanto, senhor Orlando, senhor Luís, senhor Tiago.

A menção honrosa dessa lista, ou o quarto lugar, é o teu próprio pai.

Não sei se é quarto lugar.

Quinto.

Vou ter de pensar.

Ok.

Pronto, mas estes três, destacadíssimos no meu coração.

Sim, senhora.

Melhores.

Foste, compraste a tinta, começaste a pintar o móvel, tiveste que lixar, lixaste, tudo bem. Tudo excelente. Vamos embora.

Sexta-feira de manhã, chegou a altura de montar o móvel. O móvel que eu pintei com o meu trabalho, com o meu suor.

Fogo. O orgulho dela olhar, ia vendo as peças e teve que secar. E ela estava ali. Tu estavas com um ar, tu tinhas lágrimas nos olhos.

Eu estava. Sexta-feira de manhã começo a montar o móvel, é um móvel que tem assim uma estrutura base, depois tem um gavetão e uma gaveta.

Ok.

Estou a montar a estrutura base, tudo ok. Chega a altura de montar a gaveta pequena. Quando vou montar a gaveta pequena, faltam duas peças. Faltam duas peças e eu começo a pensar: "O que eu vou fazer aqui à minha vida?" Monto o gavetão, só para saber se tinha as peças todas do gavetão. Gavetão, ok. Faltam então duas peças da gaveta. Vou para o site do IKEA tentar falar com o serviço ao cliente. Faltam duas peças da gaveta. O que é que eu posso fazer? Porque eu sei que é possível coisinhas pequeninas tu ires buscar lá gratuitamente. Falo com o apoio ao cliente, explico a minha situação e o rapaz diz: "Isto não é comigo, é com o meu colega do pós-vendas".

É o costume.

Passa para o pós-vendas, explica a situação outra vez e ele diz-me: "Temos as peças, temos disponíveis. Quer que mande pelo correio ou quer vir buscar?" Eu disse-lhe: "Olhe"-

"Eu vou já buscar".

"Eu vou já buscar e vim embora".

"Há nesta loja, eu vou a essa. Vamos embora".

"Vou já agora". E ele disse-me: "Tem preferência por loja?" Eu digo-lhe a loja, que é a loja de Loures, que é a que eu tenho preferência, é a preferência do meu coração. E ele diz-me: "Temos em Loures", com muitas exclamações do género. Aquele senhor estava a viver a falta das peças como eu. "Pode vir a partir das 16:00." E eu: "Posso ir a partir das 16:00, sim, senhor. Vou para Loures às 16:00." Pego no carro, vou para Loures. Chego a Loures e eu digo: "Eu venho aqui, tenho este número de processo", não sei o quê. A senhora diz-me: "Sim, senhora, vou buscar." E eu: "Bem, está a ser facílimo. A senhora vai buscar as pecinhas e eu vou para casa." Dá-me. Vejo a senhora a vir com um carro enorme e com um móvel novo, inteiro. E eu: "Minha senhora, eu não vou levar o móvel inteiro, só quero duas peças deste móvel." E ela diz-me: "Eu não estava a par disso. Vamos ali falar com uma colega." Vamos falar com a colega Não vou dizer o nome, porque não sei se ele quer ser identificado ou não, mas vou dar um grande beijinho ao senhor que me atendeu e que me ajudou com as peças do móvel.

E que disse que era fã deste podcast e do teu trabalho.

Que ouvia o podcast.

Pronto.

Mas quero mandar um beijinho.

Pronto. Eu já percebi isto tudo.

Quero mandar um beijinho.

É que as celebridades entram nas lojas, passam à frente e fazem-lhes as vontades.

Não passam nada à frente. Eu esperei pelo meu número e o senhor atendeu-me no meu número.

Pois.

O senhor sabe perfeitamente o que está a passar, já estava a inteirar-me do processo. Abro a caixa, "são estas as peças?", e eu: "São estas as peças, muito obrigada". Depois ainda fiquei na fila para trocar umas coisas, ainda fiquei por aí 45 minutos no IKEA. Saio do IKEA, venho para casa toda contente. Vou finalmente montar a minha gaveta.

Vou acabar o móvel que eu já lixei, que eu já pintei, que está no meu escritório.

Vou acabar o móvel que está há uma semana para ser montado. Chego a casa, pus as coisas, direta. Montar. Sento-me no chão para montar o resto da gaveta. As peças estavam erradas, não eram aquelas.

Pois claro, não eram aquelas duas.

Não eram aquelas. E eu penso: das duas, uma, ou deixo isto para depois, ou volto para o IKEA. E eu pensei: este móvel não passa de hoje. Este móvel hoje está montado aqui. Pego em mim, outra vez para o IKEA.

Vamos para o IKEA outra vez.

Outra vez meia hora à espera para ser atendida. Sou chamada por uma senhora e eu digo: "Olhe, eu cheguei aqui há bocado, vim aqui buscar isto", e de repente passa o senhor que me tinha atendido inicialmente atrás e diz, com um ar muito sério: "Não eram as peças certas". E eu: "Não, não eram as peças certas". Eu estava pronta para chorar.

Tu estavas para um fio.

Não eram as peças certas. E ele tomou as rédeas da situação, disse à colega: "É aquele móvel, vai ali buscar".

Vai buscar a caixa outra vez, vai buscar as outras peças.

Ajudou ali em dois segundos, trago as peças certas para casa. Até pedi à senhora, mostrei-lhe nas instruções quais eram as peças e confirmo lá: "É isto, não é?" E ela: "Parece-me que sim". E eu: "Ok". Pego no carro outra vez, venho para casa à hora de ponta, chego a casa.

Agora posso passar para mim?

Monta a gaveta. Gaveta montada, tudo certo, passo para ti.

Chega a casa, diretamente de SIC, e abre a porta da minha casa, e o móvel que a Rita está a montar, a pintar, a lixar e a, com muita dificuldade, acabar, é do nosso hall de entrada. Portanto, quando eu entro em casa, eu abro a porta e está a Rita de Nova sentada no chão do nosso hall de entrada, com o móvel à frente, com a gaveta nas mãos e estás com um ar desesperado, derrotado. Tu és Ulisses ao fim de 10 anos sem encontrar a sua própria casa.

Bem, completamente.

Estás sentada no chão e dizes assim: "A gaveta não entra, eu não sei o que se passa". E eu: "Pronto, deixa ver o que se passa". Fui olhar para o móvel e aquelas barrinhas.

As roldanas.

As roldanas de dentro do móvel que fazem a gaveta andar para a frente e para trás estavam postas ao contrário. Portanto, foi preciso tirar, voltar a pôr, enfiar a gaveta e, com muito esforço e muito sacrifício, finalmente largar aquela merda que está pronta.

Está pronto. Ainda não fica bonito.

Está lindo, mas para o trabalho que deu, Rita.

Mas eu agora olho para ele e penso: eu pari este móvel. Sabes? É a sensação que eu tenho. Eu tenho a sensação com este móvel que muitas pessoas têm com filhos. Eu pari este móvel.

Para o trabalho que tu me deste, agora é bom que funcione.

Não, agora é bom que vás para a faculdade e sejas médica.

Pois.

Percebes? É isso. É bom que me orgulhes enquanto mãe.

É que para mim, eu já estou cansado deste móvel, para mim já está na altura de trocar.

Paulo, Guilherme, não me digas nada. Não, agora este móvel vai ficar aqui para sempre.

Pois claro.

Este móvel, eu vou fazer-

Quando vendermos esta casa, vendemos vazia, só com o móvel ali.

Só com o móvel. E no contrato vai dizer que aquela pessoa nunca se pode desfazer deste móvel.

Ok, combinado.

Legalmente não se pode desfazer deste móvel.

É que agora estamos com outro estresse. É que tu foste comprar não sei o quê, mardinhas do IKEA para pôr vinis na parede. E agora aquilo não prende na parede. Então nós ontem estamos a tentar ver séries e televisão.

E caíam os vinis.

E caíam os vinis. Estão a chover vinis cá em casa.

Eu já mandei vir uma cola específica para metais.

Rita, quando é que acaba a bricolage cá em casa? Quando?

Guilherme, vou dar-te a mão enquanto digo isto. Acaba hoje.

É nunca, eu já sei.

Pronto, então.

Mas é que já chega.

Nos 10 segundos em que todos os vinis ficaram no chão.

Houve ali um alinhamento cósmico. Olha, é como o eclipse.

Cósmico.

Cósmico.

Disseste cósmico, o alinhamento cósmico.

Também é muito cómico. É como o eclipse. Foi o dia todo de preparação e de hype para depois ser em 36 segundos um estar à frente do outro. E eu vou dizer uma coisa: é que isto é preparação e hype, compras e colas e coisas na parede para depois pôr a peça que comprei no IKEA para pôr o vinil, para pousar e não sei o quê. E houve ali 36 segundos em que estiveram os quatro na parede.

E nos 36 segundos em que estiveram na parede, não ficou lindo?

Ficou muito bonito, mas depois caiu tudo, abalou tudo, veio tudo cá para baixo.

Eu agora tento olhar para aquilo, está a mandar uma comichão estar a ver aquilo vazio. Está a mandar uma comichão.

Eu bem sei, porque aquilo não está montado e está tudo mal.

Mas agora já mandei vir-

Chega de bricolage cá em casa, pelo amor da santa. Chega, está bom. As decisões que tu tomaste de redecorar esta casa estão maravilhosas, mas eu não posso estar a ver séries e levar com vinis. Há um limite que é preciso traçar em que não dá mais.

Mas repara uma coisa, assim que vier a cola, eu vou colar.

E qual vai ser o problema a seguir?

Depois eu logo arranjo problemas, não te preocupes.

Isto é inacreditável.

Queres dizer mais alguma coisa às pessoas esta semana?

Eu tenho mais um tema para trazer para aqui.

Antes de irmos aos e-mails. Se tivermos tempo.

Se tivermos tempo.

Agora falamos.

Se não tivermos tempo, as pessoas já sabem que podem mandar para [email protected].

Para nunca serem respondidos, não é?

Não, porque nós também tivemos um e-mail. O mês sem fazer-

As pessoas estão aqui, põem o seu coração e depois nós o que fazemos? Desiludimos.

Os vossos e-mails estão a ser colados na parede. Se forem caindo, não tem mal, nós para a semana pomos. O que é que se passa? Tu e a tua irmã tomaram uma decisão esta semana Que eu acho que vai afetar a nossa vida de uma maneira diferente, porque vocês decidiram, e atenção que eu não estou a julgar a decisão, eu estou só a analisar o efeito prático dessa decisão na minha vida.

Claro, porque o menino.

Posso?

O problema é sempre...

Eu não falei ainda, posso?

Eu sei que não falaste, mas isto vai ajudar a discutir uma coisa. Boa. Olha, ainda bem que trazeste este tema.

Que é o seguinte: vocês decidiram, e atenção, eu não tenho nada contra, eu vou já dizer isto porque eu já sei que depois vou ser chateado, mas vocês decidiram comprar uma cadeirinha de bebê pro nosso carro.

É pra tu te sentares.

Portanto, o nosso carro, o meu e teu, que somos um casal adulto, que gasta o seu dinheiro em viagens ao Japão e em bilhetes pra Taylor Swift e que decidiu não ter filhos. E bem. Agora tem um carrinho de bebê no carro.

Uma cadeirinha.

Uma cadeirinha de bebê no carro. Nós não temos filhos, Rita. Não há nada mais esquisito do que andarmos com uma cadeirinha de bebê no carro.

Eu vou escolher. Eu às vezes ando na rua e olho e penso: "Não, se calhar esta era giro".

Vai acontecer de nós sermos mandados parar com o nosso sobrinho no banco de trás. E dizerem: "Esta criança é sua." Não.

Não, é o meu sobrinho.

Não. É que ainda por cima, eu agora tenho uma cadeirinha de bebê no meu carro, pra de vez em quando andar com o meu sobrinho. É uma justificação que soa desculpa. Ninguém vai acreditar.

Achas que é o quê? É pedófilo?

Ya.

Se fores tu, sim.

Esta pessoa rapta pedófilos. Ainda por cima com esta barba que eu fiz agora.

Esta pessoa rapta pedófilos.

Por acaso, nunca ninguém contou essa história da criança que rapta pedófilos com o seu carrinho.

Para se vingar.

Sim.

Sim. Ou seja, isto tem um contexto maior que tu não estás a explicar às pessoas.

Porque não quero estar a entrar na vida privada das outras pessoas, mas o carro em que normalmente o nosso sobrinho anda não está em Lisboa e, portanto, a tua irmã tem que andar com a criança às costas no marsúpio.

E às vezes a minha irmã precisa.

De ajuda e nós temos que ter uma cadeirinha no carro pra dar conta do sobrinho.

Para irmos buscar o meu sobrinho ou para irmos, levarmos o Boléia.

Mas eu decidi não ter filhos. Eu, um homem de 39 anos, que decidiu não ter filhos, agora tenho um lugar do meu carro todo ocupado com cadeirinha de bebê.

Posso perguntar-te em que é que impacta a tua vida?

Impacta, porque às vezes eu quero dar boleia a três amigos.

Então metes a cadeirinha no porta-bagagens.

Mas montar e desmontar é muito chato.

Não é nada chato.

Quanto tempo é que nós tivemos ontem?

Tivemos a perceber como é que se fazia, mas não é nada chato. Ele prende com o cinto de segurança, não é nada chato, Guilherme.

A nossa casa já tem uma cadeirinha pra bebês comerem e já tem patinhos pra bebês tomarem banho na nossa casa de banho. Eu, de repente, não quero ter filhos e a minha vida não é muito diferente de quem tem.

Ei! Ah, não é? Bia, estou a falar pra minha irmã.

A tua irmã não ouve este podcast.

Marcos.

O Marcos também não tem ouvido.

Marcos, podes trazer o Duarte duas semanas cá pra casa e o Guilherme toma conta dele pra ele ver que é muito diferente-

Estou só a dizer

...ter uma cadeirinha a ter uma criança.

Sem dúvida nenhuma. Mas quem vê de fora a minha vida, qual é a diferença da minha vida pra do Marcos e da Bia, já que estamos a dizer nomes?

Qual é a diferença da tua vida? Tu queres mesmo ter esta conversa?

Eu também tenho uma cadeirinha aqui, nós temos ali babetes, temos ali colheres pras crianças comerem. Eu agora tenho uma cadeirinha de bebê no carro.

Achas que ter ou não ter a criança é indiferente? Os objetos é que mudam a tua vida.

Pra quem vê de fora, de aparências.

E o que te interessa as aparências?

Não, pronto. Mas é pra falarmos a sério. Então isso já não tem graça. Ok, está bem. Então as aparências não me interessam, porque eu sou um homem independente e eu não quero ser julgado pelo exterior. Não tem graça absolutamente nenhuma eu ter uma cadeirinha de bebê no meu carro, tendo decidido aos 20 e poucos anos não querer ter filhos. Não tem graça absolutamente nenhuma. Fim da comédia, fim do humor, acabou este podcast. Não há nada de engraçado nesta história. Acabou. Não acabou.

Isto é muito engraçado.

Pronto.

Tu irritado é muito engraçado. Mas eu percebo que te faça confusão, mas olha, pensa nas vantagens de teres uma cadeirinha no carro.

Diz-me três.

Estacionar em lugares de...

Não podes.

Podes.

Tens que ter a criança no carro.

"Ah, deixei a criança lá em cima, senhor guarda, desculpe."

Pois.

"Deixei a criança no smallando do IKEA."

Digo o quê? No parque do continente, digo isso? E saio a correr com os meus saquinhos de compras?

Sim.

Ok.

Vantagens: tu enquanto homem vais ser mais bem percepcionado, aliás, é assim que se diz, no trânsito. Se tu fizeres alguma coisa, depois as pessoas dirão: "Ah, não, tem uma cadeirinha".

É que nem se vê. Eu acho que não se vê a cadeirinha.

Queres pôr um...

Será que ajuda contra assaltos? As pessoas não assaltam um carro que tem uma cadeirinha de bebê.

Ou então levam a cadeirinha. A pessoa: "Olha, vender isto no..."

Pois. Aposto que este carro já é só tio.

Vender isto no OLX.

Não vai precisar disto.

Eu acho que é uma coisa que vai ajudar muito a nossa dinâmica. De irmos buscar o nosso sobrinho à escola, de ajudarmos com isso, etc.

Pronto, mas agora o meu carro é um carro de uma creche, anda pra frente e pra trás da creche. Bom, vamos então aos e-mails, porque a minha mulher quer e-mails.

Não, eu queria dizer uma coisa sobre isto.

Então força. Pensei que querias ir a e-mails.

Não, queria abordar aqui um assunto que, isto é só um pequeno exemplo de algumas vezes em que acontece e eu acho isto muito interessante, que é: por que tu és tão avesso à mudança?

Por que eu sou avesso à mudança? Eu não sou avesso à mudança.

À mínima coisa. Não é mudança grande, não é mudança de mudar de trabalho, etc. És avesso a estas ideias que vão melhorar a nossa vida, mas tu ficas tipo: "Ai, mas agora vou ter uma cadeirinha no carro. Ai, mas agora estamos a prender coisas na parede."

Isso é genuinamente pela graça, porque eu nunca me sentei no banco de trás do meu próprio carro. Era genuinamente pela graça.

Não, mas tu és avesso à mudança.

Eu não sou avesso à mudança. Se estás a falar, por exemplo, de os móveis e pintar e faltar a peça e pendurar na parede e cair em vinis. Esse tipo de coisinhas.

Tu és avesso ao processo.

É o processo da mudança. Se eu chegasse cá um dia e tivesse tudo montado Já estava tudo na parede, estava tudo pronto, os vinis estavam na parede. Eu adorava a mudança. A mudança é que nos chateia. O processo, a chatice de mudar as coisas. Não tenho nada contra a mudança, tenho contra a chatice que dá fazer a mudança.

Mas digo-te uma coisa: é mais difícil fazer a mudança com uma pessoa a regogar pela mudança.

Não, eu nunca regoguei, eu estou em silêncio, eu ajudo. Eu nunca virei as costas a ajudar a montar absolutamente nada nesta casa.

Tu nunca viraste as costas, mas viras as costas a suspirar.

Pois viro. Pois suspiro, porque o ar tem que sair por algum lado e não pode sair por baixo, que nesta casa é uma ditadura fascista. Portanto, o ar sai por cima, sim, senhor. Eu bufo às vezes, porque eu estava prontinho para me sentar no meu sofá e dizem-me: "Não, agora temos que colar merdas na parede". Tudo bem. Eu faço a continência e eu monto as merdas na parede. Mas posso ou não bufar?

Podes bufar longe de mim. Porque tu bufares faz-me sentir mal de estar a querer pôr a nossa casa bem. E isso é gaslighting. Pronto, vamos então aos e-mails.

Todas as pessoas concordam comigo que mudar de casa é muito giro. As mudanças são uma chatice. É esta a base da-

Depende das pessoas. Eu gosto.

Tu gostas de empacotar coisas e ter os senhores a vir pegar nas caixas e a acarretar caixas. Está bem, pode ser que vão para o teu top de velhinhos.

Exatamente. Não são velhinhos.

Vamos ao e-mail da Sibyl. Por que a Sibyl?

Porque eu li um livro há pouco tempo que se chama "A Correspondente" ou "The Correspondent". Por acaso é um livro que ganhou o Women's Prize for Fiction, ficam a saber.

Porque as mulheres são muito boas a inventar, por isso é que as women's ganham prizes for fiction.

E tem uma protagonista que é uma senhora de 80 e poucos anos. O livro é toda a correspondência dela com várias pessoas.

Ok. Nem falei do comédia à la carte, festa dos cancelamentos, nenhuma opinião. Vou deixar para o private joke.

Se calhar deixas para uma ideia ou para o private joke.

No private joke eu vou falar disso. Então vamos ao pen pals and dating apps. Cinco palavras, quatro são em inglês, a frase é toda em português. Se isto não é fascinante, meus amigos, se este e-mail não merece também um Women's Prize for E-mail Fiction, eu não sei o que merece. A Sibyl escreve o seguinte: "Escrevo este e-mail na esperança de abrir uma conversa e perceber se o meu dilema é uma experiência única. Estou numa fase em que tenho vontade de conhecer pessoas, não necessariamente conhecer o homem da minha vida, mas tenho vontade de conhecer pessoas e voltar a divertir-me na minha dating life." Completamente justo, apoiamos tudo. "Fui para dating apps e deparei-me com um fenómeno muito estranho. Eu dou likes, faço match, não me importo de ser eu a dar o primeiro passo e iniciar conversa. No entanto, no momento em que sugiro marcar alguma coisa após dois, três dias de conversa fluida, porque não vou alimentar conversas com fotografias numa app durante semanas, parece que estou a sugerir uma coisa do outro mundo. Os homens com quem falo só querem mesmo fazer isso: falar em dating apps. Não espero uma solução para o meu problema, mas gostava de perceber se outras mulheres têm a mesma experiência em dating apps ou se é de facto uma experiência única e eu ando a escolhê-los muito mal. Muito curiosa para saber que alcunha vão escolher para mim. Adoro o vosso podcast, continuem com o bom trabalho. Beijinhos e inserir alcunha aqui." E depois a Sibyl completou com outro e-mail e diz assim: "E já agora, para completar o e-mail anterior, se houver homens em dating apps que fazem isto a ouvir o podcast, por favor acusem e expliquem-se."

Olha, este podcast também é o quê? É uma plataforma para as pessoas.

Para sociologia, para se fazer sociologia aqui.

Exatamente. Por acaso, isto é interessante. Será que a tão mencionada recentemente, com muitas aspas, "epidemia da solidão masculina", se está a refletir também na maneira como os homens se comportam nas aplicações?

Vou te explicar por que eu não concordo contigo. Não concordo contigo porque eu acho que não é uma coisa que tem a ver com a male loneliness epidemic, que é um conceito que eu acho que nós devíamos explorar aqui no episódio, porque eu não concordo com ela 100%.

Exatamente, mas...

Mas eu acho que há, de facto, um problema nessa área. Eu não concordo com o nome male loneliness epidemic. Acho que são coisas diferentes.

Por isso é que eu pus aspas.

Exatamente. Mas com os dedinhos, importante.

Mas eu disse com muitas aspas.

Mas acho que isso era um tema que nós até podíamos explorar aqui outro episódio. Se quiserem mandar uma pergunta ou falar desse tema.

Se houver algum psicólogo, alguém que...

[email protected], podem mandar para cá.

Por acaso não era uma boa forma de trazermos a Tania Graça de novo.

Por que não? O que eu quero falar? Eu quero falar sobre esta coisa de os homens em Portugal gostarem mais de falar nas aplicações do que depois marcar cafés. Porque eu vou te explicar uma coisa. Quando o Tinder começou a ser aplicado cá em Portugal, veio uma equipa do Tinder a Portugal, porque especificamente no nosso país, as pessoas falavam muito mais no chat da aplicação e demoravam imenso tempo a marcar encontros. Era um país em que a diferença para a média de bate-boca, marcar encontro, era muito maior. Cá os homens falavam muito mais na aplicação antes de marcar cafés, enquanto nos outros países, não sei se da Europa, se do mundo, eu tenho que investigar isso, mas estou a falar de cabeça, mas lembro-me perfeitamente do CEO do Tinder falar disso em relação a Portugal, os homens falavam muito mais, demoravam muito mais tempo. E conto-te outra história para pôr em cima desta, para provar que não é uma coisa de agora, é uma coisa que tem pelo menos 20 anos. Eu lembro-me há muito tempo, eu fazia stand up há quatro ou cinco anos, portanto, deve ter sido há 15, vou te dizer assim. Eu estou a fazer stand up num bar e há uma mesa de duas senhoras, até giras, que estavam na primeira fila, que não estavam a rir de nada. E eu quando fui a palco resolvi meter conversa e disse assim: "Vocês estão a adiar esta noite." E elas: "Sorry?" E eram duas inglesas que estavam, coitadas, sentadas numa noite de stand up em português e não estavam a perceber nada.

Sem saberem.

E eu perguntei-lhes: "Vocês estão há quanto tempo em Portugal? O que estão a achar de Portugal?" E as duas miúdas, relembro, giras, dizem o seguinte: "Portugal só tem um problema, é que tem homens bonitos, mas só querem tomar cafés e não partem para a ação."

Será que é uma coisa salazarista ainda que está no nosso ADN, de sermos mais comedidos nesse sentido da expressão física

Mas achas que é o quê? Uma questão de-

Conservadorismo

...conservadorismo e bons costumes de não querermos beijar na boca logo, porque meu Deus, meu Deus?

Sim, se calhar ainda é uma coisa. Não estou a dizer salazarista, mas no sentido de sabemos que estas coisas ficam no ADN. De um povo que historicamente é obrigado a comportar-se de uma certa forma, depois isso passa para as gerações a seguir e para a maneira como educamos as gerações a seguir.

Pois, talvez. Não sei se isso ainda teria-

Pressão hoje em dia.

Não sei. Acho que tem a ver com sermos um país pequeno e, portanto, sentimos sempre que as nossas ações e as nossas relações estão a ser monitorizadas.

Achas? Em Lisboa? No Porto.

Vou te explicar porquê. Porque uma coisa é na América tu seres do Tennessee e viver para Nova Iorque. Aí tu sentes que és um estranho e que ninguém sabe quem é que tu és.

Não, certo.

Cá, quando uma pessoa da Guarda vem para Lisboa, continua a sentir.

Acho que não.

"Eu conheço aqui gente, a minha tia."

Não acho.

Eu acho que continua a haver essa pressão.

Não acho. Acho que estás a subvalorizar a maneira como Lisboa está uma cidade grande. Eu não acho que seja verdade.

Eu acho que tem a ver com isso e acho que também tem a ver, concordando com o que tu disseste antes, não necessariamente com a origem, acho que também tem a ver com a maneira como nós somos. Nós somos um povo tímido, somos um povo retraído.

Mas é esquisito, porque não somos em outras coisas.

Em que nós não somos tímidos?

Num concerto, o público português é um público muito mais expansivo, que expressa muito mais estar a gostar. No futebol.

Mas não beija na boca. Nós se calhar festejamos muito uma música, mas não beijamos na boca.

Nós somos latinos, caramba. O que é que está a acontecer?

Mas não somos latinos como os italianos ou os espanhóis, que são mais pelo na venta, anda cá, pusto e dou-te um beijo e está a andar.

Se calhar é isso, se calhar temos que ser ibéricos. Estou sempre a dizer.

Temos que ser bruns?

Agreguem-nos. Espanha. É mais um pedido que eu estou a fazer, Pedro Sánchez, por favor, agreguem-nos.

Eu não sei de onde é que vem esta timidez. Não sei se há algum psicólogo ou alguém que tenha estudado isto ou que tenha uma teoria diferente. Podem sempre mandar para [email protected].

Mas era interessante falarmos sobre isto.

Esta coisa do Tinder, eu lembro-me perfeitamente de ler isto na altura, estas duas miúdas, eu nunca mais me esqueci do que elas dizem, que elas diziam: "Os homens portugueses só querem cafés. Cafés, cafés e nunca nos beijam. Não passam à ação." E portanto, para responder ao e-mail da Sílvia, eu percebo a 100%, porque parece que os homens são mais retraídos. Os homens portugueses são mais retraídos e não passam à ação tão depressa.

Pois, e depois também é interessante perceber como é que seria a adaptação de uma mulher portuguesa que fosse para o estrangeiro para o Tinder. Ia ficar tipo: "Oi, mas isto aqui é muito rápido."

Eia, então.

Então, já.

Este gajo já me quer beijar.

Ya.

Ya. Pois, olha, não te sei explicar.

Mas ia dizer que se calhar a perspectiva dos homens portugueses no Tinder ainda é uma lógica, estou a falar dos heterossexuais, porque eu sei que na comunidade queer a coisa é muito diferente, mas se calhar é uma lógica de "vou aqui encontrar a mulher da minha vida".

Achas?

Não sei, estou a pôr opções, estou a pôr possibilidades em cima da mesa. A ciência evolui com hipóteses e depois a gente testa as hipóteses e depois se as hipóteses não funcionarem, a gente mete outras hipóteses.

Eu acho que é garimpo. Acho que o homem português tem muito garimpo e eu faço e ando a falar com uma gaja, não sei o quê, então e cafés. Não, estou a falar.

Achas?

Mas vai ao café, por que não estás com ela? Beija essa gaja. Não, estamos a conversar ainda, estamos a ver.

Achas?

Acho que é.

Não sei.

Acho que é garimpo e depois na praticidade nós somos mais cagunfas do que queremos assumir.

Pois.

[email protected] é por onde vocês podem enviar as vossas teorias ou respostas científicas em relação a este tema.

Ou as vossas questões.

Ou enviar também os vossos problemas, como por exemplo a Sílvia. A Sílvia não tem um problema, tem um problema, mas tem mais uma questão.

Eu gostei.

Filosófica e de sociedade. E ela quer saber o que é que nós achamos e quer lançar este tema à equação. E lançou.

E nós também queremos saber o que é que vocês acham. No fundo, é isto. Vamos abrir a conversa.

Vamos abrir a conversa para não termos que continuar a pendurar coisas nas paredes.

Tu não tens noção. Eu estou a olhar para ti, mas tenho estado sempre com um dos meus olhos a olhar para os vinis. E é assim, quando chegar a cola de Natal, adeus.

Pois, o gajo já se comprou uma cola. Vocês não percebem nada.

Adeus.

Adeus, eu vou-me embora, eu vou fechar isto. Adeus. Sabem com quem é que eu moro? Sabem aquele anúncio do Max e da Matt, do anúncio da Max Matt, que é um casalinho? Imaginem que o Max, acho que é a Matt, não é?

Não sei.

Ou é a Max e o Matt. Deve ser isso. O Matt está farto de bricolage. O próprio Matt está farto de bricolage porque a Max está maluca e o Matt quer o divórcio. Pronto, fica aqui a ideia para o próximo anúncio da Max Matt.