Sporting x Alverca. "Zalazar precisa de se soltar"

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Rádio Observador, Relatório de Jogo, o espaço em que analisamos os encontros que aqui acompanhamos na Rádio Observador. Hoje foi noite de Sporting-Alverca, vitória leonina em casa, à terceira jornada, frente aos ribatejanos, por três bolas a uma, num jogo em que o Sporting talvez tenha melhorado um pouco defensivamente, ainda que tenha sofrido um gol no final, numa primeira parte que foi um pouco pobre do ponto de vista das oportunidades e onde, Filipe Coelho, valeu a eficácia do capitão Maxi Pereira. O Sporting começou, aliás, Maxi Araújo, assim é que é. O Sporting começou também com uma revolução na defesa.

Sim, essa é uma das principais notas deste jogo do Sporting. O sinal que Rui Borges acabou por dar para o balneário, mexendo a sério na linha defensiva, nomeadamente nos centrais, retirando o Gonçalo Inácio e o Eduardo Quaresma, que não são apenas dois centrais, mas também são os principais capitães de equipe do Sporting nesta fase. Portanto, nessa perspectiva, creio que foi mesmo um sinal para o próprio balneário, atribuindo a braçadeira ao Maxi Araújo e o uruguaio assumiu perfeitamente esse papel de capitão com aquele gol logo no primeiro, segundo minuto desta partida. O Maxi até num espaço diferente daquele que lhe é habitual, numa zona central, muito combativo e depois a ter um remate a meia distância imparável e permitiu ao Sporting adiantar-se rapidamente na partida. Boa notícia para Alvalade, que vivendo um sentimento de alguma desconfiança, poderia também entrar aqui com certa intranquilidade na partida. Depois, como disseste, e bem, o Sporting acabou por avançar para 30 minutos, basicamente, em que não criou nenhuma oportunidade. O Sporting procurou atrair o Alverca para depois ganhar espaço no meio-campo ofensivo e a equipe do Sérgio Ferreira, por norma, é uma equipe que gosta de pressionar o adversário, mete o bloco numa zona mais subida no terreno. E, portanto, o Sporting tentou também explorar essa circunstância, nomeadamente com os passes do Debast, que foi uma das novidades no tal eixo defensivo, fez dupla com o Ubah. O Debast sempre com alguma tranquilidade para meter a bola, seja uma bola mais na diagonal, seja à procura do Catamo na profundidade. Enquanto Ubah foi muito importante a nível de confronto físico, nomeadamente com o Vivaldo Semedo, um jogador importante também nos duelos, mas com bola sentiu-se alguma intranquilidade. Foi um jogador que perdeu alguns passes, que nem sempre teve também os ângulos de passe ideais e aí resulta da circunstância de jogar sobre a esquerda. E, portanto, isso acabou por encravar um pouco o jogo do Sporting, aliado ao fato do Doumbia mantendo-se como segundo médio. É um jogador que ainda revela dificuldades para este tipo de função, não tem de todo as características de uma orita que se sentia muito confortável com a pressão, que sabia gerir os ritmos da partida. E finalmente, a ausência de oportunidades do Sporting está também ligada à irregularidade na tomada de decisão do Zalazar e do Catamo. Foram jogadores que perderam alguns passes, que nem sempre souberam associar. E, portanto, daí que o Sporting tenha revelado alguma, alguma não, muita falta de continuidade ofensiva, de fluidez, mesmo com a tal troca que o Rui Borges idealizou para esta partida entre o Flávio Gonçalves e o Zalazar. Foi o Flávio que começou na zona central no apoio ao Suárez e o Zalazar na esquerda, mas nem isso trouxe grande benefício ao jogo ofensivo do Sporting, sendo que ao intervalo era claramente melhor o resultado do que na exibição.

E Filipe, engraçado que estejas a falar de Zalazar, porque nós estamos falando ao longo da emissão e também até com o acordo do João Castro, que não estava a ser um jogo maravilhoso do jogador uruguaio, contratado pelo Sporting ao Braga, a contratação mais cara de sempre do Sporting. O que é certo é que se olharmos para os vários sites de rating aos jogadores, não há uma pontuação assim tão má atribuída a Zalazar, incluindo o Zero Zero, respeitável redação do nosso futebol, acabou por atribuir o prêmio de melhor jogador em campo. O prêmio da redação do Zero Zero foi para Rodrigo Zalazar. Entende-se? Tem participação no jogo ofensivo do Sporting.

Eu creio que o Zalazar, pelas características que oferece, será sempre um jogador que vai ter bons números, porque tem uma relação fácil com o gol, remata muito bem de meia distância. É um jogador que no último terço consegue romper e aparecer com perigo, identifica bem essas zonas. Agora, é um jogador que eu creio que ainda está, de fato, a tentar integrar-se no Sporting. Ele no Braga era uma das grandes referências, mas levou algum tempo e a verdade é que no ano passado conseguiu explodir a nível de gols e de assistências. Agora, hoje, não me parece que tenha feito, de fato, uma exibição destacável a esse ponto, embora talvez a melhor jogada coletiva do Sporting até tenha tido a interferência do Zalazar, uma jogada ali a meio da segunda parte, precisamente no movimento em que eu acho que o Zalazar é mais forte, que é romper do meio para a direita, aproveitando o espaço entre o central e o lateral, servido pelo Catamo, que tem boa capacidade de passe, consegue também identificar esse tipo de movimento, e depois o Zalazar aparece na área e faz o cruzamento atrasado para o Doumbia. Foi uma das melhores jogadas coletivas do Sporting. Agora, creio que, de fato, ainda precisa se soltar, precisa se integrar, precisa se relacionar melhor com o Suárez. Há ali muitas perdas de bola no meio-campo ofensivo, nem sempre consegue ligar também com o Flávio Gonçalves. Agora, é um jogador, até pelo seu próprio temperamento, que está sempre muito ligado ao jogo, não se esconde, vai à procura. Agora, é evidente que a comparação, por exemplo, com Francisco Trincão será sempre ingrata para Zalazar. Trincão era um jogador mais refinado, mais forte no um para um. Enfim, ligava muito bem com o Catamo e com o Pote, com o Suárez. Portanto, é esse crescimento coletivo que o Sporting tem de fazer e que vai também inevitavelmente acontecer, vai fazer com que o Zalazar também se sinta cada vez mais um peixe dentro desta água de Alvalade.

Na segunda parte, o Sporting entrou, diria que num registo semelhante, com um pouco de dificuldade em dobrar as primeiras linhas da equipe do Alverca, mas o jogo mudou de cariz depois de um lance de grande velocidade individual de Geny Catamo, que ao colocar uma bola no centro da área, acaba por ver o guarda-redes do Alverca fazer autogol. Esse 2 x 0 muda o cariz do jogo. O Sporting relaxa um bocadinho, porque pela primeira vez neste campeonato marca na segunda parte, mas depois lá no final, ainda voltou a tremer com o gol do Alverca.

Sim, diga-se que no geral não foi um jogo superentusiasmante de acompanhar, porque teve muitos erros técnicos. E esse início da segunda parte também foi repartido. O Sporting estava até com algumas dificuldades para prolongar os ataques, mas estava uma equipa mais agressiva em termos de recuperação após a perda de bola, nomeadamente com o Doumbia. Isso também impedia que o Alverca se soltasse para o ataque de forma perigosa. Mas é evidente que aqueles dois gols seguidos em cinco minutos, aos 55 e aos 60, marcam, de fato, uma fronteira na partida, nomeadamente esse dois a zero, que demonstra a valia do Catamo, no sentido em que é um jogador que por vezes tem dificuldade em aparecer, em ser consequente, mas traz sempre esta sensação de que pode acontecer qualquer coisa. A ameaça que ele tem no arremate, a forma como vai para cima do adversário em um para um e nesse lance em específico, também contou com a colaboração do Matheus Mendes. O guarda-redes do Alverca não ficou nada bem nesse lance, mas lá está, uma jogada típica do Catamo. E depois o três a zero, finalmente, conta outra vez com a contribuição do Catamo na assistência, na forma como larga para o Suárez. E aí há uma dupla nota a fazer. Primeiro, o timing perfeito da criação do gol. Primeiro o passe do Catamo e a forma como o Suárez trava a corrida para não ficarem fora de jogo e depois ter vantagem no confronto com o Matheus Mendes, o guarda-redes do Alverca. E também destacar o facto deste tipo de jogada não ter acontecido contra o Vitória. O Sporting não teve esta facilidade em soltar-se no contra-ataque, na transição ofensiva, não teve esse condão, foi uma equipa que ficou sempre muito atrás, ainda por cima defendeu mal. E contra o Alverca, pelo menos já mostrou essa facilidade em sair rapidamente e conseguir ferir em transição ofensiva. Isso acaba por ser nuclear também para garantir estes três pontos.

E o Alverca foi tentando fazer o que podia para, de alguma forma, tentar ferir o Sporting. Do lado dos comandados de Sérgio Ferreira, diria que Figueiredo, talvez em destaque, na ausência de Chiquinho, mas também uma entrada de um dos jogadores desta equipa, Éssimi, que pelo menos parece ter um pé com capacidade para fazer magia.

Sim, o Alverca era uma equipa amputada à partida, com a ausência do Mapia, que para mim, na minha ótica, o melhor central, e do Chiquinho, que é o grande revolucionador do jogo ofensivo do Alverca, fez uma exibição espetacular no Estádio do Dragão há quinze dias. Depois, como dizia bem, a nota tem sempre que ir para o Figueiredo, por ser um jogador com um requinte técnico superior, por ser o principal armador de jogo ofensivo do Alverca, muito importante a temporizar, e é ele que está inclusivamente no gol do Alverca, ele que faz o gol dos ribatejanos. De facto, é um jogador muito importante para o Sérgio Ferreira, dentro de uma equipa que perdeu aqui algumas peças importantes, manteve a espinha dorsal, é certo, do ano passado, mas lá está, não contar com o Mapia e com o Chiquinho é tornar a vida muito complicada ao Alverca, embora, como dizia bem, quer o André Vidigal, quer o Éssimi, são jogadores que, pelo perfil próprio, são agitadores, portanto podem criar aqui alguma coisa, nomeadamente a partir dos corredores laterais, e foi isso que o Alverca tentou fazer na fase final, até quando o Sporting entregou um pouco mais a bola aos ribatejanos. Há que destacar também a entrada positiva do Vasco Moreira, um médio-centro que conseguiu chegar ao último terço, fez a assistência para o Figueiredo. Mas eu até diria que, avaliando globalmente, o Alverca tem, se calhar, mais potencial ofensivo do que propriamente grande disciplina defensiva. Creio que aí há evidentes debilidades, ainda para mais com a ausência do Mapia.

Do lado do Sporting, muito se falou nas primeiras duas jornadas de Flávio Gonçalves. Hoje, apesar de ter estado bem, foi um pouco menos impactante no jogo do Sporting, mas impacto na equipa do Sporting acabou por ter Maxi Cerugue, que foi, voltamos a lembrar, capitão de equipa e fez diferença esta braçadeira, porque Gonçalo Inácio foi o capitão nas duas primeiras jornadas e quando as coisas começaram a tremer, não me pareceu que a equipa estivesse propriamente unida em torno do capitão ou que o capitão transmitisse esta segurança. É também este o sinal que Borges quer deixar ao deixar Inácio no banco?

Sim, indiretamente deixa sempre. E esta reformulação do plantel do Sporting tem como consequência a ausência de referências dentro do campo, nomeadamente o Human, que era um caso claro de um líder dentro do campo, e também elementos capazes de oferecer alguma serenidade competitiva, como acontecia com o Morita, com o Pote, com o Trincão, enfim. Portanto, é esta reconstrução, no fundo, que o Sporting está a fazer. Agora, enfim, olhando de fora para dentro, é evidente que o Maxi é um capitão mais vivo, se quisermos, do que o Inácio. Terá uma liderança, se calhar, mais natural.

Mais natural pelo exemplo, na forma como se comporta em campo, na forma como reage. Há quem diga que é muito impulsivo, mas também não pode ser o extremo oposto.

Tem o reverso da medalha, é evidente. Mas lá está, essa competitividade que ele tem, essa vontade de mostrar pelo exemplo, valeu o um a zero ao Sporting. Andou numa zona que era até algo estranha, mas ganhou o duelo, levantou-se, atirou um remate potente e permitiu aos leões adiantarem-se no marcador. A questão da liderança do Sporting era algo com que a equipa já deveria contar para esta temporada, a partir do momento que deixou sair as grandes referências. Agora, parece-me que dentro do leque que o Sporting tem aqui, é evidente que o Maxi é uma das caras mais óbvias para transportar, de facto, uma liderança mais firme para dentro do campo.

Antes de irmos ao melhor ou pior esta noite, nota também para algumas estreias nesse campeonato por lado do Sporting. Nestory Irankunda, Rafael Nel que esteve em grande plano na pré-época, também somou os primeiros minutos, Luís Guilherme voltou a entrar e Pedro Lima também na estreia. Deu para ver alguma coisa dos reforços ou foi só mesmo ganhar alguma tração que Rui Pedro Borges os lançou no jogo?

Eu gostei do Iran Kunda. É verdade que não teve tanta continuidade, mas há ali um par de lances em que se percebe que é um jogador que ganha uma velocidade muito interessante, com muita facilidade, mas também mostrou alguma destreza cerebral, no sentido em que travou alguns lances, soube servir os companheiros em melhor posição. Portanto, não foi meramente um acelerador, foi um jogador que trouxe também consequência a nível de definição. É um perfil completamente distinto do Flávio Gonçalves, que tem sido o jogador mais utilizado naquela posição, mas pode trazer características mais próximas às do Catamo, no lado direito. Depois, a questão do Rafael Nelo, que eu creio que talvez tenha sido um dos jogadores mais injustiçados do Sporting neste início de temporada, porque depois da boa pré-época, talvez merecesse alguma continuidade, também em função da fraca resposta do Luís Soares e dos problemas do Johan Nunez. E finalmente o Pedro Lima, que entrou para o lugar do Zalazar, ou seja, no apoio ao ponta de lança. Até estava com alguma expectativa de perceber se entrava para mais próximo do Altay Mira e era o Doumbia quem avançava no terreno, porque creio que o Doumbia se sente mais confortável quanto mais próximo estiver do último terço. Mas parece-me que há aqui uma decisão de fundo tomada por Rui Borges. É que já teve diversos contextos, diversas oportunidades para fazer avançar Doumbia e parece muito agarrado àquela ideia do duplo pivô entre Altay Mira e Doumbia. E nesse sentido, o Pedro Lima foi lançado, sim, mas para uma linha mais avançada do meio-campo.

Resta saber o que é que foi para ti, na tua opinião, Filipe Coelho, o pior esta noite no Estádio de Alvalade, que é para depois fecharmos em nota positiva.

O pior, duas pequenas notas. Matheus Mendes, na baliza do Alverca, já tinha ficado com a ideia de outras partidas que não é um guarda-redes que transpareça muita confiança, que possa ser o seguro de vida do Alverca em determinadas partidas, sendo certo que o Alverca naturalmente vai lutar pela permanência. E depois o facto de o Sporting voltar a sofrer um golo e é aqui uma nota preocupante para Rui Borges, no sentido em que os rivais não precisam de ter muito volume para conseguir ferir o Sporting. Já é o quinto golo sofrido em três jornadas, sendo certo que hoje Rui Silva nem teve assim tanto trabalho, mas a verdade é que num dos raros remates enquadrados do Alverca, os ribatejanos conseguiram mesmo chegar a esse golo.

E para terminar, Filipe Coelho, o que é que foi o melhor nesta vitória do Sporting por três bolas a uma frente ao Alverca?

Não tendo sido uma exibição brilhante do Sporting, longe disso, há que realçar pelo menos a maior eficácia dos leões, pelo menos até ao minuto 70. O Sporting as oportunidades que teve, foi capaz de concretizá-las. E isso já é uma nota distinta das partidas anteriores, nomeadamente as primeiras partes contra Estrela e Vitória, que a equipa produziu o suficiente para ter uma margem dilatada ou mais dilatada, porque conseguiu criá-la ainda assim. Hoje, não tendo tantas oportunidades, foi mais eficaz, foi mais contundente e isso obviamente marca aqui um crescimento, pelo menos na eficácia, que certamente agradará a Rui Borges.

Sporting 3, marcaram Maxi Araujo, também Matheus Mendes, autogolo do guarda-redes do Alverca e Luís Soares ao minuto 60, que voltou aos golos e quiçá também ao perdão dos adeptos leoninos. E tivemos depois ao minuto 88, golo de Figueiredo a fechar este encontro, que apanhámos com os comentários e aqui terminamos também com o relatório de jogo do Filipe Coelho. Um grande abraço, Filipe, um bom descanso e até à próxima.

Um abraço, Vicente.