Suécia decide se extrema direita deve chegar ao governo - 12/09/2026 - Mundo - Folha

Uma semana após a extrema direita obter o melhor resultado na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial, quem enfrenta a questão neste fim de semana é a Suécia.

Em eleições parlamentares de caráter quase plebiscitário, eleitores decidem neste domingo (13) se o partido Democratas Suecos, originado de movimentos neonazistas, deve ou não participar do governo. Tudo isso porque o atual primeiro-ministro, Ulf Kristersson, aceitou admitir integrantes da legenda extremista em seu gabinete caso seja reconduzido ao cargo.

A composição, segundo o premiê, é necessária para manter a estabilidade de sua administração. Os Democratas Suecos têm apoiado o governo nas votações do Riksdag, o Parlamento do país, mas a verdade é que há quatro anos a sigla ostenta a maior bancada do bloco conservador —liderado pelos Moderados de Kristersson há décadas.

A guinada do mandatário no atual mandato foi notável. A imprensa sueca lembra que, há duas eleições, Kristersson havia prometido a um sobrevivente do Holocausto que nunca trabalharia com os Democratas Suecos. Agora, não só está trabalhando, como sua gestão absorveu boa parte do ideário anti-imigração do partido nacionalista.

A estrita legislação do país sobre o tema ganhou ares de anedota na Europa. No mês passado, um britânico de 74 anos com demência recebeu uma ordem judicial para deixar o país em dez dias. Ele vivia na Suécia há 25 anos.

Em um ritmo que lembra episódios protagonizados pelo ICE, a agência de imigração americana, crianças e bebês estão recebendo ordem de deportação, assim como trabalhadores qualificados que estão há anos no país. Não é um tema evitado por Kristersson, pelo contrário. Em entrevista à AFP, o primeiro-ministro declarou que quer "fazer a Suécia grande novamente", emulando o slogan de Donald Trump.

Nada que faça lembrar o Estado liberal e de amplo amparo social pelo qual o país ficou conhecido. Com promessas nesse sentido, o bloco de centro-esquerda liderado pela social-democrata Magdalena Andersson esteve à frente das pesquisas de opinião desde o começo do ano, indicando uma mudança de governo. Nos últimos levantamentos, no entanto, a vantagem se estreitou.

Os quatro partidos que apoiam a ex-primeira-ministra teriam de 49,3% a 50,8% dos votos, o equivalente a até 180 das 349 cadeiras do Riksdag, ou seja, uma maioria justa. O bloco de Kristersson teria de 47,6% a 49% das preferências, algo como 174 assentos na melhor hipótese. Segundo analistas, o pleito deve ser ainda mais apertado do que o de 2022.

Andersson afirma que as eleições decidirão qual Suécia deve prevalecer. "Uma Suécia que quer continuar a ser Suécia, onde as pessoas têm trabalho e possamos reforçar o Estado de bem-estar social" ou "algo completamente diferente, dominado por um partido de extrema direita fundado por neonazistas".

Líder dos Democratas Suecos, Jimmie Akesson pediu desculpas pelo polêmico passado do partido em 2025. Apresentou um dossiê detalhando a história da sigla, sua ligação com grupos fascistas e as posições xenófobas e antissemitas de alguns de seus integrantes.

A expiação pública lembra a estratégia de outras forças da ultradireita europeia, como Marine Le Pen, na França, que buscou tornar seu Reunião Nacional mais palatável ao eleitorado, moderando discursos e posições políticas. Filha de um negacionista do Holocausto, Le Pen concorre como uma das favoritas nas eleições de 2027.

Lá Fora

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Akesson, porém, ganhou um problema na reta final da eleição. Investigação da revista sueca Expo apontou que Gustav Gellerbrant, um dos principais ideólogos dos Democratas Suecos, teria ligações com os serviços de inteligência russos.

Um constrangimento para Kristersson, que conduziu a adesão da Suécia à Otan, concluída em 2024. Como em boa parte da Europa Ocidental, a Rússia é tratada como uma ameaça existencial no país. "Estamos no meio de uma guerra europeia", declarou o premiê à imprensa local, ao comentar o afastamento de Gellerbrant do partido.

Do outro lado, ainda que as pesquisas se confirmem e seu bloco alcance a maioria, Andersson terá dificuldades para montar uma coalizão de governo. A fragmentação do campo da esquerda é visível, com algumas siglas se recusando a trabalhar umas com as outras. Temas divisivos como a taxação de bilionários e novas usinas nucleares complicam o diálogo.

Há disputas também sobre qual seria a melhor forma de atender demandas populares, como o combate a criminalidade, instrumentalizado pelos conservadores.

"Ou unificamos o país... ou teremos um governo em que os Democratas Suecos usam sua plataforma para criar divisão", declarou a social-democrata.