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A queda de cabelo continua a ser uma das maiores preocupações estéticas de homens e mulheres, mas também uma questão profundamente ligada à autoestima, identidade e bem-estar emocional. Nos últimos anos, o transplante capilar deixou de ser um tema rodeado de tabu, para se tornar um procedimento cada vez mais procurado, impulsionado pela evolução das técnicas, pelos resultados mais naturais e pela crescente exposição nas redes sociais. Mas será que sabemos realmente como funciona um transplante capilar? Quem pode ou não fazer este procedimento? E quais os riscos, limitações e cuidados que muitas vezes não são explicados? Neste episódio de "Carecas de Saber", e com o apoio da ISDIN, vamos esclarecer mitos, desmontar expectativas irreais e abordar tudo o que precisa de saber sobre diagnóstico, recuperação, complicações, turismo capilar e resultados a longo prazo. Para nos guiar nesta partilha, tenho comigo, mais uma vez, dr. António Massa, presidente do Grupo Português de Tricologia e Onicologia, e dr. Rui Oliveira Soares, dermatologista e refundador deste grupo. Bem-vindos. Muito obrigada por estarem aqui. Temos aqui um tema que dá pano para mangas, como se costuma dizer. E começo consigo, dr. Rui Oliveira Soares. O que é afinal um transplante capilar? Como é que podemos explicar de forma simples as técnicas FOE e DHI?
Um transplante capilar consiste em retirar a fábrica que nos produz o cabelo, que é o folículo, e colocá-lo na nossa pele numa localização diferente. No fundo, o transplante capilar é isso. Há duas formas principais de fazer isso. Podemos tirar uma tira longa de pele, é o chamado transplante FUT, em que vamos buscar uma fila longa de folículos todos alinhados na mesma tira de pele e ao microscópio dividi-los e depois implantá-los, ou podemos retirar logo os folículos individualizados, e é a outra técnica que se chama FUI. Depois, há várias variantes do FUI, este buscar o fio individualizado, ele pode ser logo colocado na pele, que é o DHI, ou pode estar algum tempo na mesa operatória, num meio próprio, e ser colocado uns minutos depois. No fundo, são variantes do FUI, mas as duas técnicas principais serão o FUT, em que retiramos a tira de pele, e o FUI, em que tiramos cada folículo individualizado.
Por que na sua opinião, este tema é tão importante ser esclarecido?
Este tema é muito importante ser esclarecido porque existe muita confusão relativamente, primeiro, a quem pode fazer um transplante capilar. As pessoas dirigem-se a clínicas em que têm uma primeira observação por comerciais e depois um segundo tempo, que é o ato cirúrgico, que é realizado por não médicos. Isto é altamente errado, porque estamos a falar de um procedimento médico-cirúrgico que tem que ser realizado por médicos. Portanto, sempre que ouvimos que é oferecida uma consulta, quando ouvimos que nos querem fazer imediatamente um desconto de não sei quantos mil euros, é porque nos querem vender alguma coisa, obviamente. Ou seja, normalmente quem está dentro destas coisas teve que estar há muitos anos, portanto não oferece uma consulta, porque uma consulta é um ato que tem um custo importante e sempre que ouvimos estas coisas, devemos desconfiar um pouquinho. O transplante de cabelo é uma operação, é uma operação como outra qualquer, é uma operação na nossa pele e que só pode ser efetuado por um médico que esteja habilitado a isso, que basicamente são os dermatologistas e os cirurgiões plásticos.
Dr. António, quando é que devemos considerar um transplante capilar? Em que situações?
Devemos considerar um transplante capilar quando o tratamento médico já foi otimizado e há indicação para se fazer um transplante. Um transplante capilar é um tratamento complementar e o que nós vemos normalmente é uma publicidade em que o transplante capilar é o tratamento. Não. O transplante capilar tem indicações próprias para certo tipo de faltas de cabelo. Aquela que é mais abrangente, mais popular e frequente é a alopecia androgenética, a dita calvície, mas só deve ser equacionada quando antes foi realizado o tratamento médico. Muitas vezes cruzamo-nos com amigos, com pessoas que conhecemos, em que não estão a fazer tratamento e eu às vezes pergunto: "Então não vamos ver este cabelo?" E dizem: "Nós depois de um dia só precisamos de um transplante". E isto é errado. Nós, quando fazemos um transplante, como estava o Rui a referir, e bem, nós estamos a colocar algo que é limitado, ou seja, como eu pegar, eu tenho um relvado e o número de tufinhos de relva que tenho são limitados. Por isso eu tenho que tentar fazer crescer aqueles que tenho, preservar o que tenho, e só quando já estou limitado nesse fator, aí sim, ponderar um transplante. E depois, tenho que ter um bom diagnóstico, ou seja, como o Rui referiu e bem, isto é um diagnóstico médico, porque se eu fizer um transplante numa indicação que não é a adequada, eu posso ter um agravamento da patologia prévia e posso também não ter o resultado que quero. Um transplante, vemos por vezes efeitos que não são simpáticos, efeitos de destruição do cabelo ou indicações em que não houve controle prévio da patologia com utilização de uma terapêutica complementar que não era adequada.
Somos todos bons candidatos para transplante capilar ou não é por isso?
Não, não somos todos bons candidatos. Um transplante capilar implica várias coisas. Primeiro, que tenhamos falta de cabelo Segundo, que nos importemos com essa falta de cabelo que temos. Terceiro, que tenhamos uma zona doadora que permitir buscar os tais folículos. E quarto, que não tenhamos uma doença impeditiva de fazer o transplante, que pode ser uma doença do próprio couro cabeludo. Doenças inflamatórias que estiverem ativas vão destruir o pelo transplantado, mas também doenças gerais, como uma insuficiência cardíaca, uma insuficiência renal, uma insuficiência hepática, um déficit de coagulação, ou seja, há várias situações clínicas que contraindicam o transplante de cabelo. Portanto, resumindo, não somos todos um bom candidato. Uma coisa que exclui também pacientes é ter uma expectativa exagerada relativamente ao que se pode obter. Eu digo sempre aos meus pacientes que um transplante de cabelo não faz um cabeludo. Como estava a dizer, o meu colega, e muito bem, nós temos, na parte de cima da cabeça, cerca de 70 mil, 80 mil fios. Um transplante grande são 3 mil. Portanto, um transplante nunca vai fazer um cabeludo. O que vai fazer é que a pessoa fazendo as coisas certas, vamos minorar muito do ponto de vista estético e vamos fazer com que uma pessoa não pareça careca, o que não é ter, obviamente, uma densidade de cabelo normal, porque isso é impossível.
Qual é que é a importância aqui do diagnóstico e também da gestão da expectativa emocional? Por exemplo, em consulta, o doutor Rui falava agora do que transmite aos seus pacientes. Esta gestão de expectativa é muito importante também, não é, doutor António?
É importante porque é um complemento ao tratamento, como estamos a referir. Nem sempre é necessário. É importante sabermos isto. É que muitas vezes um doente tem falta de cabelo e pode ser tratado com terapêutica médica eficaz e não precisar do transplante. E é importante ter a noção de que, quando realizado, realmente pode melhorar o aspecto e aquilo que o doente pretende, mas, como o Rui disse e bem, com expectativa. Ou seja, tem que se ter uma noção qual é a área dadora e qual é a área onde vai ser realizado o transplante. E a nível de expectativa, algo que realmente aqui é importante, nós estamos a falar um pouco mais de homens, mas também quando são as senhoras as candidatas. E isto abre aqui um leque grande, que não nos podemos esquecer, e que também elas são candidatas e os resultados também podem variar, porque tem algumas particularidades.
Quais são as maiores diferenças aqui entre ser um homem ou uma mulher?
Em primeiro lugar, o déficit de cabelo é muito mais penalizado do ponto de vista social numa mulher do que num homem. Ou seja, do ponto de vista psíquico e social, vai ter um impacto muito maior. Segundo, a mulher não tem uma calvície total, normalmente, mantém a linha anterior. Portanto, se reforçarmos com um número relativamente baixo de folículos a zona da frente, conseguimos um resultado normalmente muito bom. Um homem que tenha uma calvície total, é preciso um número enorme de fios para que pareça deixar de ser calvo. Numa mulher, por vezes, com 800, 1000 fios, 1200 fios, é o suficiente para termos um transplante que põe a senhora satisfeita, se forem colocados no sítio certo. Portanto, menos fios. Por outro lado, a zona doadora também é um pouquinho diferente. Normalmente, está um pouquinho mais abaixo e também a zona segura, aquilo que nós chamamos a zona segura, em que temos que ir buscar os folículos, não é uma zona tão definida como no homem. E finalmente, a mulher normalmente quer uma densidade enorme. Ou seja, o homem que está calvo, mesmo com uma densidade baixa, tem aquela percepção: estou muito melhor, mas a mulher normalmente quer mesmo que não se veja o couro cabeludo. Ou seja, se uma mulher fizer um transplante de cabelo e nós, estando a vê-la de frente, estivermos a ver couro cabeludo, estamos a falhar. Portanto, normalmente há uma procura de uma densidade maior, pelo menos nessa zona, que expõe mais a pessoa ao público.
Agora imaginemos, tenho uma condição clínica que exige um transplante capilar e sou elegível para o mesmo. Que desafios é que vou enfrentar? Que tipo de desafios é que vou enfrentar aqui antes e depois, durante e pós-procedimento?
Aqui a primeira coisa muito importante é a conversa que se tem com a pessoa inicialmente. O tal gerir a expectativa, o tal explicar que há duas técnicas. Por exemplo, numa mulher, podemos fazer muito mais vezes o FUT, que é a tal técnica de ir buscar um microbocadinho de pele, porque tem duas vantagens numa mulher. Primeiro, não precisa de raspar a cabeça, que normalmente não é uma coisa simpática para uma senhora, mas em segundo lugar, como não preciso de um número de fios tão grande, essa tirinha normalmente tem o número de fios necessários para fazer o transplante. Num homem, na maioria dos casos, usaremos a outra técnica, o FUI, porque precisamos de um número maior de fios e o homem, na maior parte dos casos, não se importa tanto de reduzir um bocadinho a densidade na zona de lado e de trás, se for para ter mais densidade em cima. Portanto, temos que jogar com isso. Depois, é muito importante a conversa que temos também para prevenir o pós-operatório, ou seja, há uma série de coisas que são expectáveis e que nós temos que explicar às pessoas. Primeiro, que vai haver um defluvio, ou seja, que a maior parte dos fios transplantados nos primeiros três meses vão cair. Depois, que o reaparecer dos fios será lento, ali entre o terceiro e o sexto mês, os fios irão aparecendo, mas não têm logo aquele resultado que nós queremos, porque o fio depois tem que crescer. Portanto, temos que dar uma expectativa ao fim de um ano Haver um primeiro resultado do transplante, que depois pode ainda ir melhorando até o segundo ano, porque há sempre uns fiozinhos que vão eclodindo e, por outro lado, o próprio crescimento do cabelo permite pentear de forma a tapar melhor a área de calvície. Portanto, até dois anos pode haver melhoras em muitos pacientes, mas toda esta expectativa deve ser gerida antes do paciente fazer o transplante. Também o pós-transplante traz coisas que são muito inquietantes para as pessoas. Eu diria que a principal é o edema, as pessoas ficam normalmente com a testa muito inchada e com as pálpebras inchadas, e isso tem que ser explicado à pessoa. No caso das senhoras, quando há filhos pequenos, explicar que devem explicar aos filhos que vão ficar um pouquinho desfiguradas, para não ser um choque para a família, do ponto de vista da atividade laboral contarem pelo menos com uma semana pós-transplante, do ponto de vista de exposição. Portanto, todas essas coisas têm que ser conversadas previamente. No caso, por exemplo, do nosso centro, nós temos mesmo uma senhora enfermeira que vai ligar ao paciente uma semana antes e lembra todas estas coisas antes da pessoa fazer o transplante de cabelo. Tudo o que já lhe foi dito, vai ser lembrado para que esteja a contar com o que realmente vai acontecer, porque o maior medo que nós temos, normalmente, é daquilo que é inesperado. Se nós estivermos a contar exatamente o que vai acontecer em cada momento, tudo isso nos traz uma grande confiança sobre o tratamento.
Uma maior segurança.
Certamente.
É um processo, de fato, longo. O cabelo transplantado pode voltar a cair, doutor António?
Esta é difícil, porque eu tenho que responder sim e não. Vou tentar explicar. Na maioria dos casos, quando o cabelo é colhido só na zona segura, que nós consideramos a zona segura, é um cabelo para a vida, na maior parte dos casos. O que é que acontece? Pode haver dois motivos para algum cabelo transplantado ao longo da vida se ir perdendo. Um é o médico entusiasmar-se um pouco e fazer a colheita também para fora um bocadinho da zona segura e vai já buscar alguns folículos que vão acabar mais tarde por ter a mesma evolução que os folículos que tínhamos em cima na cabeça e vão começar a miniaturização e vamos acabar por perder esse cabelo também. O segundo motivo é mais frequente em mulheres, por vezes, a distribuição dos recetores androgênicos não é exclusiva da parte de cima da cabeça. E nessas pessoas que têm uma distribuição mais difusa dos recetores, por vezes, mesmo o cabelo colhido da zona certa, pode ter, ao longo dos anos, o tal desgaste, ir ficando mais fininho e, portanto, de se poder perder em parte. Agora, podemos dizer, como regra geral, o cabelo colhido da zona certa perdura e de fato, é isso que faz com que possamos fazer o transplante.
Algo que é importante notarmos aqui é que muitas vezes quando temos uma alopécia androgenética, nós vamos colher este cabelo de zona segura, que vai ser implantado muitas vezes junto de cabelo que também está sob a influência dos androgênios com patologia. O que isso significa? Significa que com o transplante, é necessário, na maior parte dos casos, manter o tratamento. Isto é algo fundamental, porque muitas vezes vemos o doente em consulta, que vem, fez o transplante e não faz o tratamento. O que é que acontece? A sua alopécia androgenética vai progredindo e passado alguns anos voltamos a ter déficit, com a agravante de que agora a zona dadora está reduzida, ou seja, não é algo em que podemos multiplicar e retirar sem fim. Por isso é muito importante acautelar tanto o pré-transplante, ou seja, vamos melhorar as condições e otimizar o tratamento para termos um resultado ótimo e depois aí termos a necessidade ou não de fazer transplante e depois temos que acautelar o pós. E é assim que o doente que é depois acompanhado, tem uma possibilidade muito maior de ter um resultado muito mais interessante. Além disso, algo que é muito importante é o diagnóstico, porque o diagnóstico tem que estar bem feito, porque além das alopecias androgenéticas, que é uma maioria, nós temos alopecias de pendor, por exemplo, cicatricial, cujo padrão até pode ser semelhante, e nesse tipo de patologias, quando feito um transplante, pode aumentar a inflamação, pode aumentar o folículo e pode haver um efeito que poderá ser contraproducente e ao qual queremos fugir. Por isso o diagnóstico é muito importante e muitas vezes o que aparece nas redes sociais, na publicidade, não explica isto. E isso é algo importante e é por isso que, como o Rui referiu de início, diagnóstico médico, avaliação cuidada, avaliação clínica, tricoscopia e depois sim, encaminhamento, quando necessário, com quem de direito.
Se me perguntassem qual é o erro mais frequente em quem faz transplante, provavelmente este é o maior de todos: é não fazer depois medicação para manter o cabelo que tinha na cabeça na altura que fez o transplante. Vamos imaginar a pessoa que ainda tinha 30 mil fios na parte de cima da cabeça. Se nós lhe vamos pôr 3 mil, mas ele perder esses 30 mil, é assim que eu explico aos pacientes, o negócio é muito mau. E portanto, temos sempre que manter a medicação, isso é absolutamente fundamental. Depois há outros erros relativamente comuns, que são querer pôr linhas muito anteriores. Nós devemos fugir sempre, nos homens, de idades muito precoces para fazer o transplante, porque é normal uma pessoa jovem vai querer ter uma linha anterior próxima da que tinha quando era adolescente. E se fizer isso, vai ficar um mau transplante. Quando a pessoa ficar mais velha, não vai haver cabelo todo para pôr na zona de cima, partindo de uma linha tão anterior. Por outro lado, essa própria linha, quando a pessoa tiver 60 ou 70 anos, fica ridícula. Portanto, isso é um erro relativamente frequente. Outro erro é a linha anterior estar mal feita, ou seja, a nossa linha anterior é uma linha irregular, os fios não estão todos alinhados como se fossem com uma régua. E portanto, se pusermos os fiozinhos todos alinhados à régua, também se vai notar que é um transplante. Um transplante bem feito é aquele transplante que não se nota que é um transplante.
Fica o mais natural possível.
Isso mesmo.
Deparam-se com muita desinformação no vosso dia a dia, quer em consulta, quer em redes sociais e agora assistimos a este fenômeno cada vez mais crescente e que falámos no início do turismo capilar. Quão perigoso é tudo isto? Esta desinformação e, por exemplo, este turismo capilar que cada vez cresce mais?
A desinformação é um perigo muito por isso, porque o doente, para já, perde o momento ótimo. Ou seja, nós estamos sempre a falar de uma quantidade que vai suprir um déficit, e eu estou a deixar aumentar o déficit, em vez de conter esse déficit, e depois, por mais quantidade que ponha, nunca vou ter o resultado que poderia ter ou não ter essa necessidade. A nível do turismo, perde-se muitas vezes com o problema de diagnóstico, já nos falou o Rui, e depois um problema de acompanhamento. O acompanhamento é muito importante. O Rui, que tem muita experiência no transplante, pode nos explicar quanto isto muitas vezes pode fazer a diferença. Normalmente, são procedimentos que correm bem, mas também têm complicações, são procedimentos cirúrgicos e aí o ser-se acompanhado por quem o fez, quem pode dar apoio a seguir, tem um impacto muito importante.
Eu costumo dizer aos pacientes: "Olhe, o senhor ia ser operado a um rim para um sítio que não sabe quem é o cirurgião que o vai operar, nem se é cirurgião, nem o que é que lhe vai fazer e que depois nunca mais vai voltar a ver essa pessoa." Ninguém se põe numa cirurgia dessa forma. Mas as pessoas, infelizmente, relativamente à parte dentária, à parte de próteses mamárias, à parte do transplante de cabelo, as pessoas fazem isso. Ou seja, é uma coisa temerária pôr o nosso corpo nas mãos de alguém para fazer uma operação num sítio a milhares de quilómetros de distância. Se houver complicações, vamos estar muito longe da pessoa que nos fez esse procedimento e depois vamos recorrer aos médicos dermatologistas do país de origem, que vão ter que resolver a coisa o melhor possível, que nem sempre se consegue resolver. Um erro também bastante frequente, além daqueles que eu referi, é pilharem demasiada zona doadora. Ou seja, não se pode tirar mais fios da zona doadora do que aqueles que ela pode dar, porque depois parece que andou um ratinho na parte de trás da cabeça a comer cabelo e fica com um aspeto muito mau. E, portanto, esse erro é frequente. E por que surge esse erro? Porque as pessoas querem transplantes muito grandes e estas clínicas oferecem transplantes muito grandes, o que é um erro muito grande. Se nós pensarmos que na vida vamos precisar, daqui a uns anos, quando a nossa alopécia evoluir, podemos precisar de um segundo transplante e vamos precisar dessa zona doadora boa para poder fazer um segundo. Portanto, ir buscar o cabelo todo logo nessa única sessão é um erro trágico e sem solução no futuro.
Acha que falta olhar para este procedimento mais como algo médico e não tanto estético?
Certamente. Aqui o problema é que, apesar de ser um problema estético, a forma de o corrigir é médico-cirúrgica. Portanto, quem está habilitado a corrigir este problema, mesmo que seja estético, são médicos.
Muito bem. Doutor António, quer acrescentar alguma informação?
Nem sempre quantidade é qualidade. Isso é importante, porque às vezes nós pensamos: eu pago X, se eu vou comprar morangos, eu quero trazer mais morangos pelo mesmo dinheiro, mas às vezes a qualidade não é a mesma. E se eu faço um transplante, não é por fazer um transplante que tem muitas unidades de folículo, que vai ter o efeito, porque senão depois, como o Rui referiu bem, eu posso precisar de um momento mais tarde. E depois também tem a ver muito com o fato de que isto é um procedimento médico, mas a arte cirúrgica de o fazer impacta muito no resultado, como este desenhar da linha, o ponto em que vai ser a linha, a forma como é orientado o fio do cabelo, tudo isto tem muito impacto. Ou seja, não é só quantidade. Eu com mais ou menos quantidade, posso ter resultados diversos. A forma como é feito é muito importante e a forma como é feito um seguimento. Ou seja, eu se tenho um procedimento que é one shot, uma vez é uma vez. Se eu tenho algo que me vai acompanhar e que vai ver a minha evolução, muitas vezes vou ter aqui um cuidado um pouco diferente. E como o Rui disse bem, nós gostamos de saber quem vai cuidar de nós. Acho que é algo importante.
Eu se pudesse dar um conselho às pessoas que fazem o transplante.
Sim, era precisamente isso que eu queria perguntar.
O principal conselho que eu dava era assegurarem-se que o transplante vai ser comandado por um médico, por um dermatologista ou um cirurgião plástico. São os médicos que estão habilitados a comandar um transplante de cabelo. Pode haver ajudantes, obviamente, pode haver enfermeiros, como nas outras cirurgias há enfermeiros, mas tem que ser um médico a comandar o transplante de cabelo. E quando a consulta de observação for feita por um comercial, desconfiem, porque certamente o que essa pessoa quer é vender algo e quando nos estão a oferecer uma consulta é porque normalmente nos querem vender qualquer coisa a seguir.
Doutor António, uma mensagem final para quem nos ouve e para quem pensa fazer um transplante capilar.
Os transplantes são algo que fazem parte da tricologia e do tratamento da falta de cabelo, das alopécias, mas são algo realmente útil quando bem utilizados, quando necessários. E muitas vezes os doentes não são devidamente tratados e fazem-no quando não é necessário ou não é otimizado a sua função, ou seja, não é feito no momento certo ou no doente certo ou da forma certa. Isto é importante. Tem que se ver como um complemento a usar quando necessário. É ótimo, é espetacular. Há aqueles resultados que realmente não são bonitos, mas há resultados que são muito interessantes e realmente é um complemento muito importante, mas quando bem aplicados. E a mensagem que hei de deixar é que procurem o dermatologista, sejam tratados, sejam diagnosticados e sejam encaminhados. Não vamos procurar um tratamento, aquele tratamento. Não, nós vamos procurar o diagnóstico e quem nos vai tratar e é daqui que parte a orientação. Não somos nós que vamos diretamente buscar, somos nós que decidimos diretamente o tratamento. Se for necessário, se nos é indicado pelo dermatologista, assim fazê-lo. Isto é crucial, como é nesta patologia, como é noutras. Muito agradeço ao Rui, que deu-nos um contributo precioso e fica a sua mensagem final.
Muito obrigado.
Muito obrigada, doutor Rui. Muito obrigada, doutor António Maça. Acho que, de facto, é importante sermos criteriosos e estarmos informados. Um bom diagnóstico, um bom profissional de saúde, um bom médico, para termos aqui também um resultado final saudável, natural e duradouro, sem complicações, é o que todos queremos. Agradeço mais uma vez a vossa presença e também a quem nos ouve. Nós voltamos daqui a um mês. Muito obrigada.
Obrigado.