Na sexta-feira à noite, a um minuto da meia-noite, Mark Carney chamou os negociadores canadianos de volta a Otava. No sábado, um jornalista perguntou-lhe porque é que parecia que ia para a guerra. A resposta foi seca: fomos atacados, e está-se em guerra quando se é atacado.
A única coisa que ficou por esclarecer foi de que guerra estaria ele a falar.
O representante americano do Comércio, Jamieson Greer, contou a história toda em três minutos que ninguém quis escutar e que não passou em lado nenhum na Europa, tive de a ir buscar às profundezas da net. Resumidamente, faz mais de um ano que os canadianos proibiram a venda de vinhos e destilados americanos nas lojas dos monopólios estatais provinciais, as chamadas Crown corporations, que controlam o grosso do comércio do álcool no país (meu esclarecimento), limitaram a entrada de automóveis e já antes restringiam os laticínios. Durante um ano pediu-se que levantassem as medidas. Disseram que não. Só então vieram tarifas desenhadas à medida, incidindo sobre cerca de 5% do que o Canadá exporta para os Estados Unidos.
Foram os canadianos que pediram para negociar e na terça-feira havia acordo para o anunciar. Nas últimas horas, disse Greer, quiseram mais. Os americanos ofereceram-lhes o melhor acesso ao mercado concedido a qualquer país do mundo e ainda quiseram mais. Não fazia sentido económico nenhum, rematou.
A 3 de agosto escrevi que a Secção 338 do Tariff Act de 1930, ressuscitada por proclamação a 20 de julho, produziria tarifas a 19 de agosto. Produziu. E o motivo documentado: depois de todas as províncias canadianas terem varrido as bebidas americanas das prateleiras, as exportações americanas de bebidas para o Canadá caíram 81%, de 718 para 137 milhões de dólares, enquanto as do Chile, Japão, Argentina, Irlanda e Austrália subiam entre 13% e 26% e a União Europeia capturava mais de cem milhões ao vazio deixado pelos americanos. O mercado manteve-se mas evaporou-se para os americanos.
O absurdo está na aritmética canadiana do problema que Carney está a criar de propósito por motivos políticos. Setenta e dois por cento das exportações de bens do Canadá vão para os Estados Unidos. Sessenta por cento do abastecimento das refinarias do Quebeque vem do oeste canadiano por condutas que atravessam território americano. Os minerais críticos saem em bruto e regressam transformados. Greer ofereceu cortar substancialmente as tarifas de 50% sobre o aço e o alumínio e Carney disse não. Incompreensível por parte do único país, à parte da China comunista, que retaliou.
Greer disse que talvez fosse político e é o único móbil que sobra depois de a economia ter sido excluída. Só que o calendário político que interessa a Otava não é o canadiano: é o americano, com as intercalares em novembro.
O que está em jogo não é o preço do uísque nem o dos tacos de hóquei. É saber qual dos dois sistemas se manterá preponderante: a ordem globalista erguida depois de 1945, que vive de instituições multilaterais e de arbitragem regulatória, ou o regresso deliberado ao Sistema Americano de Alexander Hamilton, em que a riqueza assenta no que se produz e a tarifa é instrumento de soberania e de reciprocidade, não de protecionismo.
Entretanto Trump não conseguirá desmontar a bolha financeira da dimensão em que se encontra sem saber onde estão as ameaças e como as desarmar.
Uma delas chama-se yen carry trade. Depois do choque petrolífero de 1973 e da inflação galopante que se seguiu em todo o mundo, o Japão foi a única nação que teve a disciplina de passar a limitar a impressora. Embriagou-se na bolha de ativos dos anos 80 e paga desde 1990 a ressaca com dinheiro grátis: juro zero a partir de 1999, compra maciça de dívida própria a partir de 2001 e um banco central com um balanço acima de 100% do PIB, coisa que nem a Reserva Federal nem o BCE alguma vez ousaram.
Foi essa ressaca que os globalistas transformaram em máquina: duas décadas a pedir ienes emprestados a juro zero para os aplicar em ativos de maior rendimento. O iene está hoje no nível mais fraco em quase quarenta anos e o Japão foi acumulando dívida americana até deter 1,14 biliões de dólares, a maior carteira estrangeira do mundo. Se Tóquio vender para defender a moeda, as taxas americanas disparam, e com elas o crédito à habitação de milhões de famílias, precisamente no outono eleitoral. É o cenário com que os adversários contam para encostar Trump às cordas.
Eles não contaram foi com Scott Bessent, que fez carreira no fundo de George Soros e estava na sala em 1992, quando aquela mesa partiu o Banco de Inglaterra, e que sabe perfeitamente como cortar os fios sem que a bomba rebente. Foi precisamente por isso que Trump o contratou.
Em finais de julho ambos os países realizaram a primeira intervenção conjunta de compra de ienes desde 1998, em euros em vez de dólares, para não tocarem no mercado da dívida. Depois Tóquio anunciou que tenciona recorrer à FIMA, o mecanismo discreto da Reserva Federal de Kevin Warsh que permite a bancos centrais estrangeiros trocar temporariamente obrigações do Tesouro por dólares em vez de as despejarem no mercado aberto. Sessenta mil milhões por instituição, que parece muito dinheiro se não se olhar para a carteira japonesa.
Tudo isto sem avisar Frankfurt, cujos responsáveis, citados pelo Financial Times, classificaram a venda de euros como uma “violação sem precedentes das convenções de longa data”.
Dois Estados soberanos a resolver o problema diretamente um com o outro, sem instituição multilateral pelo meio. É exatamente o mundo que descrevi em julho a propósito dos 250 anos.
Carney aposta tudo em novembro, na esperança de que os americanos desistam antes de a viragem chegar. Está a apostar na emoção contra a razão. E, como então, está tudo à vista para quem quiser ver.
¡Viva la Libertad, Carajo!