A guerra contra o Irão já consumiu milhares de mísseis norte-americanos, obrigou o Pentágono a deslocar meios que estavam na Europa e na Ásia e está a atrasar entregas de armamento a aliados. A Casa Branca garante que os Estados Unidos continuam a ter poder de fogo suficiente para qualquer operação. Dentro da administração e das Forças Armadas, porém, cresce outra preocupação: algumas das armas mais difíceis de substituir estão a ser gastas muito mais depressa do que a indústria consegue fabricá-las
Volodymyr Zelensky pediu mais mísseis de defesa aérea e Donald Trump respondeu com quatro palavras que explicam uma parte do problema: "Nós também queremos mísseis".
A frase surgiu na quinta-feira, na Sala Oval, depois de o Presidente ucraniano ter revelado que a quantidade de intercetores fornecidos à Ucrânia pelos aliados ocidentais caiu para um terço do que recebia em 2025. Um dia antes, a Rússia tinha lançado 28 mísseis contra território ucraniano e nenhum fora intercetado.
Pelo menos 17 pessoas morreram. "Mais intercetores poderiam ter salvado a vida daqueles que morreram hoje", lamentou Zelensky.
A escassez que já se sente em Kiev começa, porém, muitos quilómetros a sul: desde que os Estados Unidos atacaram o Irão ao lado de Israel, a 28 de fevereiro, Washington tem usado no Médio Oriente parte das munições que antes estavam destinadas à defesa da Europa e da Ásia. O problema é particularmente grave nos mísseis intercetores do sistema Patriot, utilizados para abater ameaças aéreas, incluindo mísseis balísticos. Segundo o New York Times, os Estados Unidos já gastaram mais de 1.500 intercetores Patriot na guerra com o Irão e terão atualmente menos de 1.700 em inventário.
Mesmo com o aumento da produção pedido pela administração Trump aos fabricantes de armamento, seriam necessários mais de dois anos apenas para repor os mísseis que já foram disparados neste conflito.
Não se trata de armas que possam simplesmente sair em maior quantidade de uma fábrica no mês seguinte: contêm componentes de precisão produzidos por uma rede internacional de fornecedores, custam vários milhões de euros cada e alguns demoram anos a fabricar.
A campanha contra o Irão consumiu também grande parte das reservas norte-americanas de alguns mísseis de longo alcance, incluindo os ATACMS, mísseis balísticos táticos usados para atingir alvos a centenas de quilómetros, e os Precision Strike Missiles, uma geração mais recente de mísseis concebida para ataques de precisão a grande distância. É precisamente o tipo de armamento que teria particular importância num confronto com uma potência dotada de defesas aéreas sofisticadas, como a Rússia ou a China.
Trump sabia que existia esse risco antes de a guerra começar. Nas reuniões que antecederam os ataques de fevereiro, o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas norte-americanas, alertou o Presidente para as consequências de continuar a retirar munições de reservas que já estavam pressionadas, revelaram ao New York Times dois responsáveis com conhecimento dessas conversas.
Trump decidiu avançar, ainda assim, porque acreditava que o conflito terminaria rapidamente — e, nas primeiras semanas, prometeu repetidamente uma vitória em pouco tempo. Passaram mais de cinco meses e o Irão não capitulou.
A escassez de munições terá sido, ainda segundo o jornal norte-americano, um dos fatores que levaram o Presidente a afastar no final de julho uma nova grande campanha de bombardeamentos. A preocupação já não é apenas saber quanto custa continuar a guerra, mas quanto armamento ficará disponível se entretanto surgir outra crise.
É neste ponto que a contabilidade começa a transformar-se em estratégia.
À CNN Portugal, o major-general Agostinho Costa chamou a atenção para o peso que os mísseis balísticos iranianos ganharam nesta guerra. Para explicar a diferença, comparou o PAC-2, um dos mísseis intercetores utilizados pelo sistema Patriot, o SAMP/T, um sistema europeu de defesa aérea e antimíssil, e o NASAMS, sistema de defesa aérea desenvolvido pela Noruega e pelos Estados Unidos, com o PAC-3, uma versão mais moderna do intercetor Patriot particularmente importante contra ameaças balísticas.
"O que mudou é que, anteriormente, aquilo para que estávamos preparados era para enfrentar um adversário que utilizasse fundamentalmente mísseis de cruzeiro. Para os mísseis de cruzeiro funciona bem o PAC-2, funciona bem o SAMP/T, funciona bem o NASAMS. O que é que o Irão traz? Traz mísseis balísticos", explicou Agostinho Costa.
Esses mísseis sobem a grande altitude e regressam em direção ao alvo a velocidades muito elevadas, o que torna a interceção mais exigente e aumenta a importância do PAC-3, um intercetor Patriot concebido para destruir ameaças balísticas através de impacto direto. Os intercetores Patriot estão também entre as munições mais rapidamente consumidas nesta guerra.
Na avaliação de Agostinho Costa, o problema já não está apenas nos mísseis necessários para defender Israel e as bases norte-americanas dos ataques iranianos. Também começa a sentir-se nas armas que permitem aos Estados Unidos atacar a grande distância. "Para defesa e para ataque também", explicou. E deu como exemplo os ATACMS, mísseis balísticos táticos lançados a partir do solo e concebidos para atingir alvos a centenas de quilómetros de distância, os mesmos que Washington forneceu à Ucrânia para atacar posições russas longe da linha da frente.
"Os ATACMS são aqueles mísseis que os Estados Unidos deram à Ucrânia, com os quais a Ucrânia começou a atacar em profundidade", explicou o major-general. "Os americanos usaram 1.300 ATACMS no Irão. Neste momento estão a zeros."
A Casa Branca rejeita a ideia de que os Estados Unidos estejam militarmente condicionados. Karoline Leavitt, porta-voz de Trump, garante que o país tem "mais do que poder de fogo suficiente para realizar qualquer operação que o Presidente ordene, a qualquer momento e em qualquer lugar", e afirma que as empresas de defesa estão "a produzir mais munições do que nunca" enquanto aumentam a capacidade das fábricas. Sean Parnell, porta-voz do Pentágono, classificou como falsas as notícias sobre escassez de armamento e assegurou que os militares têm "tudo o que é necessário" para atacar onde e quando o Presidente decidir.
Donald Trump também culpa frequentemente Joe Biden, acusando a administração anterior de ter gastado demasiado armamento no apoio à Ucrânia.
Há alguma verdade numa parte desta discussão: os Estados Unidos continuam a possuir mais de 100 mil bombas guiadas — para lançamento por aviões.
O problema é que muitas obrigam as aeronaves a aproximarem-se dos alvos e a exporem-se às defesas inimigas. Os mísseis de cruzeiro e outras armas de longo alcance permitem atacar a centenas de quilómetros. E são precisamente alguns desses arsenais que estão mais pressionados.
E é aí que entram Moscovo e Pequim.
O Pentágono foi buscar ao Indo-Pacífico Tomahawks e outros mísseis de longo alcance que estavam reservados para um eventual conflito com a China, retirou centenas de intercetores de defesa aérea da Coreia do Sul e de outros pontos da Ásia e deslocou para o Médio Oriente um grupo de combate de porta-aviões e alguns dos seus mais avançados contratorpedeiros.
Na Europa, os aliados procuram alternativas à indústria norte-americana perante as filas de espera. Na Ásia, alguns responsáveis dos Estados Unidos receiam que Japão e Coreia do Sul comecem a duvidar da capacidade americana para os defender sem recurso a armas nucleares.
Rússia e China acompanham entretanto as reservas dos Estados Unidos através de orçamentos públicos, anúncios dos fabricantes, satélites e outros meios de informação.
Quanto mais a guerra iraniana durar, mais visível se torna aquilo a que Todd Harrison, analista do American Enterprise Institute, chama uma "janela de vulnerabilidade". Tom Karako, do Center for Strategic and International Studies, usa palavras ainda mais duras: fala numa "aniquilação geracional dos meios de dissuasão convencional" e avisa que serão necessários anos para recompor as reservas.
Dara Massicot, especialista nas Forças Armadas russas no Carnegie Endowment for International Peace, lembra que Moscovo já vinha a rever as suas contas durante os quatro anos de guerra na Ucrânia, ao perceber que os Estados Unidos e os restantes países ocidentais demoravam mais do que provavelmente esperava a aumentar a produção de armamento. "É o tipo errado de matemática para entrar no sistema russo", alertou. "Porque depois começam a mudar a percepção que têm do seu próprio poder em relação à NATO." E é daí, acrescentou, que podem retirar "conclusões que talvez não queiramos que retirem".
Agostinho Costa olha para o mesmo problema a partir do tempo que será necessário para reconstruir o que está agora a ser gasto. Na sua avaliação, os Estados Unidos podem precisar de uma "paragem estratégica": não necessariamente para acabar com o conflito, mas para repensar capacidades, recompor reservas e preparar aquilo que possa vir a seguir. "O que os analistas sugerem", afirmou à CNN Portugal, "é que os Estados Unidos vão ter uma década bastante sensível".
A guerra que Trump acreditava poder terminar em semanas deixou assim um problema que já não se limita ao Irão: os Estados Unidos estão a gastar hoje parte das armas de que poderão precisar já para amanhã.