O maior consolo para o seu desaparecimento é saber que além de uma vida longa, teve uma vida boa.
Não conheço maior triunfo que em retrospectiva se possa alcançar, nem tão raro, do que aquele que ele nos provou ser alcançável: o de ter sido amado, “adorado”, mesmo, como a sua querida filha Smitá que me conduziu pela primeira vez até ele, lhe sussurrou ao ouvido antes de ele partir.
Foi amado pelas filhas, pela sua mulher Teresa Costa Brandão Coissoró que o precedeu, pelos pais, tios, primos, netos, e toda a numerosa família goesa que lhe transmitiu um forte sentido de família, tradição e pertença.
Foi amado por muitos dos alunos que lhe enchiam a alma de gratidão quando, no início/ arranque do ano lectivo, ele “entrava no anfiteatro e via aquela fileira de cabeças e de gerações prontas a escutá-lo”.
Por vários colegas da academia e do parlamento, gente de todos os quadrantes, até do extremo oposto do hemiciclo.
E pelos amigos que já partiram e os muitos que entre hoje e amanhã se irão despedir dele.
Por mim também, que tive a sorte de em recta final de vida, o conhecer, entrevistar, registar memórias, e viajar ao encontro da sua família na sua amada Goa.
Grata e inevitavelmente triste por ver partir um homem da sua estatura e por não ter tido afinal a oportunidade de o termos connosco, como sonhei, no dia do lançamento da sua biografia e memórias. Ele sobreviverá através de todos os que tiveram a sorte de o conhecer.
“O carácter determina o destino”, diziam os gregos. O dele foi abençoado por uma excelente natureza, aguçado pelos exemplos de excelência que recebeu de vários familiares. Do pai, Ramashondra Sinai Coissoró, respeitado escrivão do Tribunal da Relação de Goa, do tio Vinayka Coissoró ínsigne político do Conselho do Governo, do tio Ghana Kantak respeitado médico “freedom fighter” e presidente da Câmara de Vasco (cidade de Goa), do tio Manguesh Fondu Surlakar fundador da prestigiada escola People’s a primeira a ministrar o ensino em inglês em Pangim e pelo exemplo da sua tia Onwal Surlakar que cedeu os terrenos para implantação da escola ao marido.
À nascença traçaram-lhe uma carta astral auspiciosa, na qual como hindu professo gostava de acreditar.
Escapou aos defeitos mais comuns. Não tinha rasto de vaidade, para além da que punha no vestir, nem era egocêntrico. Quando lhe falei na biografia, reagiu surpreendido: “Um livro sobre mim? Isso não vai dar mais do que três páginas com prefácio e posfácio”.
À pergunta como está, respondia-me sempre “muito bem”.
Não foi ganancioso, insatisfeito ou descontente. Não forçava a vontade dos outros, ponderava o custo de caprichos e exigências e invariavelmente decidia-se pelo bem comum, em detrimento do seu.
Preservar o bem-estar com os outros e dentro da família estava no topo da pirâmide.
Detestava dicotomias e fugia a carimbar o que quer que fosse, gostava de ser imprevisível e no seu desconcerto fazia-nos muitas vezes rir.
Teve de facto um quinhão de sorte e com o seu exigente trabalho acrescentou-o. Uma vida afectiva indissociável da profissional onde pôs os seus muitos talentos a render.
Conciliou vida académica e política, num tempo em que tal era praticado por alguns dos seus pares, nesse tempo em que a AR parecia ser um espaço de debate mais interessante e respeitado do que agora. E ainda se desdobrou na advocacia.
Teve a fortuna de viver mudanças históricas. A transição do nosso país para a democracia, a integração de Goa na Índia, o arrancar de um novo Portugal e de uma nova Índia.
Quando rebuscava as suas memórias, eram sempre de gratidão: “Gostei de Coimbra, gostei de ser professor, gostei da vida no parlamento, gostei muito”, assim recordava.
A sua vida, como eu viria a descobrir, teve inevitáveis discriminações, mas ele escolheu não os destacar, e até deles se esquecia, focado nos benefícios e na sua admirável integração em lugar da pontual exclusão, ou na gratidão em vez do ressentimento. Teve como todos nós várias pedras no caminho, embora me tenha dito que não se lembrava de ter passado por provas muito difíceis, o que diz muito sobre a sua preferência pela desdramatização e o não deixar que o sofrimento lhe estragasse o gosto e apetite anímicos.
Dizia que devia à tradição hindu de que era herdeiro a tolerância e foi de facto o oposto do impositivo, acomodatício e flexível, aceitava que o livre arbítrio dos seres amados os conduzissem a escolhas que o desgostassem.
Elegeu ser positivo e leve. “Estou muito bem, muito bem”, dizia no final, ou “vim para aqui (hospital) mas não tenho nada de sério”, talvez para aligeirar a família, a verdade é que nunca o vi prostrado, abatido, pesaroso.
Foi um esteta, adorava o belo, as cores, entregava-se à composição da sua imagem como a uma harmonia cromática em que a sua Índia é exímia.
Foi do convívio e da inter-relação, que até ao fim ele extraiu as gotas mais suculentas da vida. O seu gosto pela relação com os outros era imediatamente perceptível e despertava no outro a vontade de reciprocar e lhe entregarem o seu melhor.
Foi magnânimo, no sentido de que possuía nobreza e uma generosidade desinteressada, no sentido de não ser vingativo, no sentido de lhe ser fácil perdoar ofensas ao ponto de as esquecer, como fez com Salazar.
Tive a sorte de o conhecer na recta final e de o ouvir contar ainda as memórias da sua Goa adorada, onde sempre desejou voltar, mas não estando já em condições de o fazer coibiu-se do seu último desejo.
Foi um professor para lá dos anfiteatros. Um professor da difícil arte de viver e do saber conviver com a adversidade e com os outros.
Transcrevo as palavras de gratidão para com Portugal e os amigos deste nosso brâmane português.
“Encontrei em Portugal e neste país a minha pátria.
Portugal e os meus amigos deram-me tudo. Deram-me aquilo que dão aos seus filhos, à sua gente, aos seus queridos. Abriram-me todas as avenidas. E se não fui capaz de percorrer todas, é minha culpa, não é do país nem da sociedade portuguesa. O povo português olhado do lado do Oriente é um povo maravilhoso. Maravilhoso, porque traz consigo uma herança de muitas culturas e civilizações segmentadas que fazem hoje o Portugal que somos e essa portugalidade, natural ou adquirida, é uma das coisas maravilhosas do nosso mundo. Portugal é de facto o grande país, o grande agregador de várias culturas desde as culturas africanas, ameríndias, norte-americanas, sul-asiáticas, para mim é uma honra pertencer a este país. Agradeço a todos os que aqui estão reunidos e me mostram que alma portuguesa existe. Muito obrigada por me darem esta honra de mostrar como um goês serviu a cultura portuguesa e é um verdadeiro português”.
Nota: publicarei em breve “Um Brâmane Português. Narana Coissoró: filho da Índia e do fim do Império” com a editora Zigurate.