Um casamento, um acidente e uma acusação: como um jovem casal perdeu o futuro que tinha pela frente

Faltavam poucos meses para o casamento quando uma viatura policial embateu no carro onde seguiam. Agora, o agente do xerife envolvido no acidente foi acusado de homicídio por negligência grosseira

A vida de um jovem casal, que estava a poucas semanas do casamento, ficou destruída quando um agente de um gabinete do xerife da Califórnia, em serviço, atravessou um sinal vermelho a alta velocidade e embateu violentamente no carro em que seguiam, enquanto faziam recados, segundo uma ação judicial.

Nove meses depois, o agente envolvido no acidente ocorrido em setembro, em Beaumont, foi acusado no âmbito da colisão que matou Gavin Hinkley, de 21 anos, e deixou a noiva, Madeline Fox, de 20, com ferimentos graves e permanentes.

As acusações surgem depois de os investigadores terem concluído que o agente seguia para uma ocorrência por disparos de arma de fogo, apesar de, momentos antes da colisão, a central de comunicações já ter aparentemente confirmado que outros agentes se encontravam no local, que o veículo suspeito tinha abandonado a zona e que não havia qualquer ferido.

Glynn Wilburn, de 42 anos, agente do Gabinete do Xerife do Condado de Riverside, foi acusado de homicídio por negligência grosseira com veículo e de condução perigosa causadora de ferimentos graves, anunciou o Ministério Público do Condado de Riverside através de comunicado. Os procuradores pedem ainda o agravamento da pena devido à gravidade dos ferimentos sofridos pelas vítimas.

Wilburn foi temporariamente afastado do serviço, confirmou à CNN o Gabinete do Xerife do Condado de Riverside. Um porta-voz do Ministério Público do Condado de Riverside adiantou que foi emitido um mandado para a sua detenção.

A CNN contactou o agente e o seu advogado para obter uma reação, mas não recebeu qualquer resposta.

"Wilburn seguia com luzes de emergência e sirene ligadas entre Beaumont e Calimesa em resposta a relatos de disparos", refere o Ministério Público. "Enquanto circulava na Cherry Valley Boulevard a cerca de 160 km/h, entrou num cruzamento e colidiu com um veículo civil a aproximadamente 114 km/h."

"Momentos antes da colisão, a central de comunicações tinha confirmado que não havia feridos, que o veículo suspeito tinha abandonado o local e que agentes já tinham chegado ao cenário dos disparos", acrescenta.

Os procuradores alegam que Wilburn atuou com negligência grosseira, provocou a morte de uma pessoa e causou ferimentos graves noutra, lesões que "levaram a vítima a entrar em coma devido a uma lesão cerebral ou a sofrer paralisia permanente", segundo a acusação apresentada pelo Ministério Público.

Hinkley morreu e Fox sobreviveu com ferimentos graves, de acordo com um relatório da Patrulha Rodoviária da Califórnia (CHP).

Segundo esse relatório, elaborado com base na análise do local do acidente e dos veículos envolvidos, Wilburn circulava com as luzes de emergência e a sirene ligadas quando atravessou um sinal vermelho e embateu lateralmente no Tesla em que seguiam Fox e Hinkley. O agente não levava o cinto de segurança colocado e sofreu ferimentos que incluíram "escoriações no topo da cabeça, inchaço na base do pescoço e queixas de dores no braço esquerdo e no joelho esquerdo", segundo a declaração que Wilburn prestou à CHP.

Os investigadores concluíram que, nos segundos que antecederam o impacto, Wilburn tentou evitar a colisão, mas não conseguiu parar antes de entrar no cruzamento com o sinal vermelho. Os dados recolhidos do carro patrulha mostram que virou o volante para a direita, retirou o pé do acelerador e travou, reduzindo a velocidade de cerca de 158 km/h (98 mph) para aproximadamente 122 km/h (76 mph) imediatamente antes da colisão.

Os investigadores da Patrulha Rodoviária da Califórnia concluíram que Wilburn provocou o acidente ao circular para oeste na Cherry Valley Boulevard ao volante do seu Ford e ao não conseguir imobilizar o veículo antes de entrar no cruzamento com o sinal vermelho.

"A negligência do agente Wilburn foi a causa direta da morte do condutor Hinkley e dos ferimentos sofridos pela passageira Fox e pelo próprio", refere o relatório.

O Tesla Model 3 de 2018 do casal após o acidente que matou Gavin Hinkley e deixou a noiva gravemente ferida.
O Tesla Model 3 de 2018 do casal após o acidente que matou Gavin Hinkley e deixou a noiva gravemente ferida. (Riverside County Sheriff’s Office)
O carro patrulha conduzido por Wilburn após a colisão.
O carro patrulha conduzido por Wilburn após a colisão. (Riverside County Sheriff’s Office)

Uma história de amor que "merecia durar uma vida inteira"

Hinkley e Fox conheceram-se em 2022 e rapidamente se tornaram melhores amigos, antes de se apaixonarem e iniciarem uma relação que surgiu de forma "natural", afirmam as duas famílias num comunicado enviado à CNN.

A relação tornou-se oficial no dia em que Fox fez 18 anos, quando Hinkley a surpreendeu com uma dúzia de rosas e lhe pediu para ser sua namorada.

"A partir desse momento, eram praticamente inseparáveis. Passavam os dias a andar a cavalo, de mota de todo-o-terreno, a fazer percursos fora de estrada, a ir até à praia ou ao rio e a criar memórias inesquecíveis com a família e os amigos", escrevem as famílias.

Segundo os familiares, a ligação entre os dois era evidente para todos os que os rodeavam e viviam uma história de amor que "merecia uma vida inteira".

"Gavin tinha sempre a capacidade de fazer Madeline sentir que era a única pessoa na sala e, juntos, faziam sobressair o melhor um do outro", acrescentam as famílias. "Eram aventureiros, leais, generosos e cheios de vida. Apoiavam-se mutuamente em todos os desafios e incentivavam os sonhos um do outro."

Antes de o acidente lhes roubar o futuro que tinham imaginado juntos durante anos, o casal preparava-se para casar a 25 de outubro de 2025.

Lauren e Cory Hinkley, pais de Gavin, consideram que as acusações representam "um passo importante para responsabilizar quem praticou os atos evitáveis e imprudentes que tiraram a vida" ao filho, segundo um comunicado divulgado pelos seus advogados.

"Gavin era muito mais do que uma vítima. Era o nosso filho, um irmão querido, noivo, neto, sobrinho, primo e amigo", escreveram.

"Era bondoso, trabalhador e profundamente amado por todos os que o conheciam. Tinha a vida toda pela frente - um futuro cheio de sonhos, planos e um casamento com a mulher que amava. Esse futuro foi-lhe roubado num instante. O Gavin devia continuar aqui."

Gavin Hinkley, de 21 anos, morreu no acidente. A noiva, Madeline Fox, sofreu uma grave lesão cerebral traumática.
Gavin Hinkley, de 21 anos, morreu no acidente. A noiva, Madeline Fox, sofreu uma grave lesão cerebral traumática. (Riverside County Sheriff’s Office)

Enquanto a família de Hinkley e a noiva lamentam a morte de um jovem que tinha toda a vida pela frente, os procuradores sublinham que os casos que envolvem agentes das forças de segurança em serviço exigem uma análise particularmente rigorosa.

"Quando um caso envolve um agente das forças de segurança em serviço, temos a responsabilidade de avaliar cuidadosamente as circunstâncias específicas dessa função, incluindo a natureza da ocorrência, a resposta do agente e as normas legais que regulam a condução de veículos de emergência", aponta o procurador do Condado de Riverside, Michael Hestrin, em declarações à CNN.

Se for condenado por todas as acusações, Wilburn poderá enfrentar uma pena de até 14 anos de prisão, disse um porta-voz do Ministério Público à CNN. A data da primeira audiência em tribunal ainda não foi marcada.

As famílias exigem responsabilidades

O processo-crime surge numa altura em que as famílias das vítimas prosseguem com uma ação cível, apresentada em dezembro e alterada em abril, na qual alegam que tanto o acidente como a resposta que se seguiu ficaram marcados por uma série de falhas evitáveis.

"O que aconteceu ao Gavin e à Madeline podia ter sido evitado. O agente Glynn Wilburn, do gabinete do xerife do condado de Riverside, tinha uma enorme responsabilidade e autoridade e conhecia bem as obrigações inerentes à condução de um veículo de emergência", afirmam os pais de Madeline, Melissa e Jason Fox, numa declaração divulgada pelos seus advogados.

"Embora os agentes das forças de segurança beneficiem de determinados privilégios previstos na lei, esses privilégios só existem quando são exercidos com a devida consideração pela segurança dos outros. Nenhum distintivo, cargo ou posição deve colocar alguém acima da responsabilização, sobretudo quando atos imprudentes têm consequências tão devastadoras."

A ação apresentada pelas famílias identifica como arguidos Wilburn, o condado de Riverside e as cidades de Beaumont e Calimesa, alegando que o cruzamento foi concebido e era mantido de forma perigosa, com visibilidade insuficiente devido à configuração da estrada, à vegetação e aos equipamentos de serviços públicos. Os autores da ação sustentam que os arguidos não corrigiram problemas de visibilidade já conhecidos que contribuíram para o acidente.

A 3 de junho, os advogados dos arguidos apresentaram uma moção a pedir ao juiz que rejeitasse parte da ação intentada pelas famílias, alegando que algumas das pretensões não têm fundamento jurídico. A moção não põe em causa as principais alegações de negligência e de morte por ato ilícito decorrentes do próprio acidente, mas pede que sejam rejeitadas as alegações relativas ao acionamento dos meios de emergência e as que acusam responsáveis do condado de Riverside de não terem protegido as vítimas após a colisão.

Os advogados dos arguidos defendem que a ação não apresenta factos suficientemente concretos para sustentar a alegação de que os operadores responsáveis pelo despacho dos meios de emergência atuaram com "negligência grosseira", um padrão jurídico mais exigente do que o aplicável a meros erros ou atrasos.

Os advogados das famílias ainda não responderam à moção. A audiência para apreciar o pedido está marcada para 3 de agosto.

A ação acusa ainda os meios de emergência e os operadores responsáveis pelo despacho dos meios de socorro de terem gerido de forma inadequada a resposta ao acidente, ao darem prioridade ao tratamento e transporte do agente em detrimento do casal, que tinha sofrido ferimentos mais graves, atrasando a prestação de cuidados médicos essenciais.

Os autores da ação alegam que esses atrasos agravaram os ferimentos de Fox e contribuíram para a morte de Hinkley. A ação pede uma indemnização pelos ferimentos sofridos por Fox, pela morte por ato ilícito e pelos prejuízos daí decorrentes.

Gavin Hinkley and Madeline Fox Panish|Shea|Ravipudi LLP
Gavin Hinkley e Madeline Fox (Panish|Shea|Ravipudi LLP)

Na resposta apresentada à ação, a cidade de Calimesa rejeita as alegações de que também é responsável pelo acidente, sustentando que os autores da ação não demonstraram que o cruzamento onde ocorreu o acidente constituía uma condição perigosa da via pública, de acordo com os documentos do processo. A cidade argumenta ainda que não tinha qualquer responsabilidade pelos operadores do centro de despacho dos meios de emergência nem pelos socorristas envolvidos no incidente, não exercia qualquer controlo sobre a sua atuação e, por isso, não pode ser responsabilizada por quaisquer alegados erros que tenham cometido.

"Embora nenhuma acusação criminal possa trazer o Gavin de volta ou apagar o impacto devastador que esta tragédia teve sobre a Madeline e as nossas duas famílias, este dia representa um passo importante rumo à justiça", afirmam Lauren e Cory Hinkley. "A vida do Gavin importava. A vida da Madeline importa. Continuaremos a honrar a memória do Gavin, a estar ao lado da Madeline e a lutar pela justiça que ambos merecem."

Os pais de Fox partilham da mesma posição e afirmam que este caso vai muito além de uma acusação criminal: trata-se de exigir responsabilização pelo futuro que, dizem, foi roubado ao jovem casal.

"No essencial, este caso é uma questão de justiça. O Gavin e a Madeline mereciam ter tido a oportunidade de construir a vida que tinham planeado juntos, e essa oportunidade foi-lhes roubada", afirmam Melissa e Jason Fox na declaração.

"À medida que este processo avança, rezamos para que o sistema judicial não falhe nem a eles nem às nossas famílias. Esperamos que este caso transmita uma mensagem clara: quem é incumbido de proteger o público também tem de ser responsabilizado quando as suas ações causam danos inimagináveis."

Apesar dos "ferimentos graves e potencialmente fatais sofridos por Madeline e Gavin", a ação alega que a empresa responsável pelo serviço de ambulâncias "prestou primeiro assistência a Wilburn, transportou-o primeiro e atrasou e/ou não prestou assistência em tempo útil às vítimas com ferimentos mais graves, Madeline e Gavin."