A tarifa indexada de eletricidade foi, durante boa parte do último ano, a opção mais barata disponível às famílias portuguesas. Deixou de ser. Segundo a Análise de Mercado de Energia do ComparaJá de setembro, uma família com dois filhos, consumo de 400 quilowatt-hora por mês e potência contratada de 6,9 kVA, paga hoje 104,14 euros mensais na tarifa indexada. A oferta fixa mais económica do mercado, para exatamente o mesmo consumo e a mesma potência, fica nos 74,14 euros.
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São trinta euros de diferença por mês. Ao fim de um ano, 360 euros pagos a mais por eletricidade rigorosamente igual, entregue pela mesma rede, na mesma casa e com os mesmos hábitos de consumo.
A causa está no mercado grossista. O preço médio da eletricidade fechou agosto nos 121 euros por megawatt-hora e setembro está a correr perto dos 154 euros, uma subida de mais de um quarto em poucas semanas. Quem tem tarifa indexada está contratualmente exposto a esse movimento, porque o preço que paga acompanha o mercado quase em tempo real. Quem tem tarifa fixa não sentiu nada.
O ponto que interessa a quem tem a fatura em casa é que a comparação já não é entre o indexado e o caro: é entre o indexado e o barato. Para a mesma família com dois filhos, o mercado regulado custa 77,14 euros mensais, portanto 27 euros abaixo do indexado. A tarifa mais cara do mercado fica nos 110,53 euros, apenas seis euros acima. O produto que era vendido como a escolha inteligente passou a estar colado ao topo da tabela.
Segundo André Nunes, Energy Team Leader do ComparaJá, o problema não é o produto em si, é o desencontro entre o que o consumidor julga ter contratado e o que contratou de facto. “Quem aderiu ao indexado aderiu a um preço que viu num dia. O que assinou foi uma exposição ao mercado grossista que muda todos os meses, e ninguém lhe explicou isso”, afirma. “Não é uma tarifa má, é uma tarifa que exige acompanhamento mensal, e praticamente ninguém faz esse acompanhamento.”
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A inércia é, aqui, mais cara do que qualquer escolha errada. Mudar de comercializadora de eletricidade em Portugal não tem custo, não implica interrupção de fornecimento, não exige obra nem visita técnica e não depende de aprovação de ninguém. O contrato anterior é rescindido pelo novo fornecedor e o contador é o mesmo. O único investimento é o tempo de comparar propostas, e o retorno desse tempo está documentado todos os meses na análise de mercado de energia do ComparaJá.
Há ainda uma camada de poupança que a comparação de preços base não capta. Vários fornecedores aplicam descontos adicionais por débito direto, fatura eletrónica ou campanhas pontuais, que em certos casos ultrapassam os 20% e raramente estão visíveis na primeira página dos sites. Para a família do exemplo, isso significa que os 360 euros anuais são um piso e não um teto.
O calendário também joga contra quem adia. O consumo doméstico de eletricidade sobe a partir de outubro, com o aquecimento e com menos horas de luz natural, e é sobre esse consumo maior que a diferença de tarifário se aplica. Uma família que resolva o assunto em setembro entra no inverno com o preço travado. A que deixar para janeiro vai decidir com a fatura já subida e com os preços de mercado já reajustados.
Fica a pergunta que quase nenhum agregado faz e que decide o resultado: há quanto tempo é que ninguém olha para o tarifário que está contratado. Na maior parte das casas portuguesas, a resposta é desde o dia em que a luz foi ligada.