"Sinto muitas dores porque o tiro fraturou-me a clavícula. No hospital, não conseguiram extrair a bala porque está perto da medula espinal. Ainda tenho a bala no corpo", relatou Perez por telefone na segunda-feira, a partir do centro de detenção para onde foi transferido, numa conferência de imprensa realizada pela sua advogada e por apoiantes políticos e de associações.
A sua advogada, Kate Lincoln-Goldfinch, esclareceu que Perez foi atingido "na nuca".
"Ele está atualmente detido em Pearsall (um centro do ICE no Texas, a duas horas a sul de Austin) para ser interrogado (...) Teve de dormir no chão", afirmou a advogada na rede social X.
No dia anterior, o Departamento de Segurança Interna (DHS) tinha informado que o seu estado era "estável" e que estava "sob custódia das autoridades federais a aguardar a sua deportação".
Garcés Pérez estava a fazer uma entrega através da plataforma DoorDash quando foi baleado durante uma operação policial de trânsito, segundo afirmou.
"Fiz o retorno e foi aí que começaram a perseguir-me, como se eu fosse fugir. Mas eu estava à procura de um local seguro para estacionar o meu carro. Foi então que bateram no meu carro duas vezes e dispararam", relatou hoje o jovem venezuelano.
"Estava praticamente inconsciente" quando a ambulância chegou, continuou, acrescentando que só recebeu um analgésico de madrugada, antes de ser transferido para o centro de detenção.
Organizações de venezuelanos no exílio apelaram hoje ao Governo norte-americano para evitar "perseguições à comunidade venezuelana", na sequência do caso de Perez.
A Associação Multicultural de Ativistas Voz e Expressão (Amavex) e a organização Venezuelanos Perseguidos Políticos no Exílio (Veppex), com sede na Florida, manifestaram "a sua mais veemente rejeição" ao incidente ocorrido no domingo.
"A aplicação das leis migratórias não concede licença para disparar, humilhar, manter incomunicável ou colocar em risco a vida de uma pessoa. Nem pode transformar-se numa perseguição dirigida à comunidade venezuelana ou a qualquer comunidade imigrante", afirmaram as organizações, em comunicado.
As organizações de exilados consideraram "insuficiente" a resposta do Departamento de Segurança Interna (DHS), que anunciou uma investigação conduzida pela sua unidade de Investigação de Segurança Interna, com o apoio da polícia federal norte-americana (FBI).
Os grupos pediram ao secretário de Estado, Marco Rubio, que intervenha publicamente "em defesa da vida, da dignidade e dos direitos fundamentais dos venezuelanos" e solicite esclarecimentos sobre a localização e as condições de detenção de Garcés Pérez.
O DHS afirmou que o venezuelano se encontrava ilegalmente nos Estados Unidos e tinha uma ordem definitiva de deportação, mas não esclareceu o que motivou o disparo.
A defesa contestou esta versão, afirmando que Garcés Pérez é requerente de asilo, entrou no país através de um programa de autorização de permanência temporária e não tem antecedentes criminais.
As organizações venezuelanas juntaram-se a congressistas que exigem uma investigação "independente, transparente e imparcial", bem como a preservação e divulgação, nos termos da lei, das gravações das câmaras corporais dos agentes, comunicações operacionais e outras provas.
O incidente ocorre num contexto de intensificação das operações de fiscalização migratória durante o segundo mandato de Donald Trump, com o ICE a registar mais de 50 mil detenções mensais em julho e agosto.
Pelo menos quatro pessoas morreram este ano na sequência de disparos efetuados por agentes federais durante operações de imigração, segundo os dados citados pelas organizações.
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