Não era nada mau sinal se todos os contornos do caso de Luís Neves fossem apenas mais um caso de alguém que, chegando a ministro, visse mediaticamente destapadas as suas falhas de homem médio que, à semelhança de todos os portugueses, tem de viver enquanto se tenta desenlear da tenebrosa rede de legislação, burocracia e imobilismo públicos. Infelizmente, não é bem disso que se trata. Luís Neves não é só ministro da Administração Interna, o homem forte da segurança do País, tutela das polícias. É também ex-director da Polícia Judiciária. E aquilo que nos foi dado a conhecer, em primeiro lugar pela imprensa, e depois pelo próprio, na derradeira conferência de imprensa em que reconheceu as suas falhas, mas que, enfim, elas foram feitas em prol de um bem maior, é, segundo o que me é permitido concluir, o fatal desmascaramento de como o próprio Estado faz as coisas: informalmente, ilegalmente, despudoradamente. A consequência evidente e final de tudo isto não pode ser outra: o ministro da Administração Interna, ex-director da Polícia Judiciária, e toda a trupe que o defendeu e defende neste caso que o envolve, o que estão a dizer ao País é isto: o Estado deixou de ter legitimidade moral para exigir o cumprimento da lei aos seus cidadãos, na medida em que é o próprio Estado que reconhece não cumprir a lei. Não é que isto não fosse sabido. É que nunca tinha sido tão frontalmente assumido como agora.
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