Há gestos que sobrevivem às épocas, às revoluções tecnológicas e às mudanças da própria civilização. Enquanto historiador, habituei-me a procurar continuidades onde a maioria apenas identifica rupturas. Talvez seja por isso que nunca consegui olhar para uma mota apenas como um meio de transporte. Sempre que passo a perna por cima dela tenho a estranha sensação de estar a repetir um gesto que acompanha a Humanidade há muitos séculos. Antes de existirem motores, homens e mulheres montavam cavalos para trabalhar, combater, transportar mensagens, partir em peregrinação ou simplesmente regressar a casa. Hoje fazemos praticamente o mesmo movimento. Mudaram os materiais, mudou a velocidade e mudou o combustível, mas o corpo continua a assumir quase a mesma postura de quem, durante centenas de anos, encontrou no cavalo a extensão natural da sua liberdade.
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