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A pedagoga paulistana Flávia de Melo Belém, de 49 anos, estava acostumada à dificuldade de socialização do filho Luan, vítima de bullying desde pequeno. Em casa, ele era dócil e alegre — pelo menos até os 12 anos, quando tudo mudou. O menino ficou agressivo, distante e cada vez mais mergulhado nas redes sociais, a ponto de um dia avisar à mãe: “O Luan morreu. Só existe o Lucy”, apelido que havia adotado na web. Assustada, Flávia exigiu que ele desbloqueasse o celular para entender o que acontecia na tela. Luan reagiu mal, tentou atacá-la e entrou em surto psicótico. No hospital, depois de o filho ser medicado, ela descobriu cortes espalhados pelo corpo frágil do menino, entre eles uma suástica gravada com gilete.
Casos chocantes como esse são o maior pesadelo dos pais em tempos de multiplicação das telas digitais — e, infelizmente, estão longe de ser isolados. Cerca de 300 milhões de crianças e adolescentes no mundo sofrem exploração ou abuso sexual on-line a cada ano, segundo o Unicef (leia o quadro). Apesar dos conteúdos divertidos e educativos — sim, existem —, as redes sociais também funcionam como porta de entrada para aliciadores de menores. A estratégia, segundo a polícia, segue um padrão: os criminosos se aproximam virtualmente, manipulam a vítima e recorrem à chantagem e à violência psicológica para levá-la à humilhação pública e exploração sexual.
Foi assim que Luan caiu nas mãos de criminosos, que, além de induzi-lo à automutilação, promoveram repetidos estupros virtuais diante de plateias em chats fechados, com data e hora marcadas. As sessões costumam ser gravadas e vendidas mundo afora. Os responsáveis integram um ecossistema digital internacional pouco conhecido, formado por organizações criminosas como o grupo extremista 764, investigado por autoridades de diversos países atualmente.
A escolha da vítima em geral começa em jogos como Minecraft ou em comentários no Instagram, no YouTube e em outras redes populares. “O criminoso oferece amizade, faz elogios, cria um vínculo afetivo e conquista a confiança da vítima”, diz a delegada Lisandréa Colabuono, coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad). O passo seguinte é convidá-la para chats fechados em plataformas como o Discord, onde usuários conversam em tempo real e podem compartilhar a tela do computador. É nesse ambiente que o crime escala. “Basta uma foto, um nude, para começar a chantagem, peça-chave da manipulação”, diz ela.

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Foi o aumento dos crimes que levou Lisandréa a criar, em 2024, o primeiro e único centro de inteligência dedicado ao combate a crimes digitais contra crianças e adolescentes no país (leia a entrevista). O núcleo , atrelado à Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, monitora 1 800 pessoas em diferentes regiões do Brasil com histórico de acesso à violência extrema. A equipe passa madrugadas patrulhando a internet. Quando identifica um menor em risco, tenta convencer as plataformas a interromper as transmissões de tortura. Nem todas colaboram. O Discord, campeão de ocorrências, demora horas para agir — quando o faz, segundo o Noad. A demora acaba de levar o Ministério Público paulista a reabrir uma ação contra a rede.
Como a maioria dos casos ocorre à noite, a equipe costuma telefonar para pais que, muitas vezes, estão dormindo e custam a acreditar que o filho corre perigo no quarto ao lado. Nos casos mais graves, uma ambulância é acionada imediatamente. Ao mesmo tempo, a delegacia responsável pelo local onde o crime é praticado — em qualquer ponto do país ou até no exterior — é comunicada. Recentemente, o FBI, principal agência de investigação criminal dos Estados Unidos, alertou pais e responsáveis sobre o crescimento de redes extremistas que usam a internet para manipular crianças e adolescentes. O problema passou a ser tratado como ameaça à segurança nacional. Pais foram à rua em protesto, assustados.
Mesmo antes de os crimes explodirem, a preocupação já crescia, à medida que se acumulavam evidências dos prejuízos do uso excessivo das telas, como redução da atenção, da cognição e do desenvolvimento emocional. O cenário levou vários países a restringir o acesso de menores às redes. Recentemente, a França proibiu perfis de menores de 15 anos e determinou a exclusão das contas existentes nessa faixa etária em plataformas como TikTok, Instagram, Snapchat e Facebook. O Reino Unido seguiu a linha, com vetos aos menores de 16 anos, em passo dado também pela Austrália. Espanha e Dinamarca discutem medidas similares.
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O Brasil ainda não adotou política semelhante, mas também vem tentando aumentar a proteção. “O país encontrou uma solução mais interessante, dividindo responsabilidades entre governo, plataformas e sociedade”, diz Thiago Vizioli, gerente da Childhood Brasil, que atua na prevenção do abuso infantil. Ele se refere ao ECA Digital, lei sancionada em março que permite o acesso de menores às redes, desde que as contas estejam vinculadas às de um responsável, que passa a supervisionar o conteúdo. As plataformas são obrigadas a adotar mecanismos de verificação etária e podem receber multas de até 50 milhões de reais por omissão. Mas a implantação ainda tem entraves burocráticos e tecnológicos, como o reconhecimento facial da idade dos usuários.
Antes disso, o Brasil já havia restringido o uso de celulares nas escolas. O país é o segundo onde a população passa mais tempo diante das telas: são nove horas diárias, atrás apenas da África do Sul. Segundo o Ministério da Educação, entre 71% e 95% dos gestores e professores relataram melhora na concentração dos estudantes após a proibição. “A medida trouxe o barulho de volta à hora do recreio”, diz Valdenice Minatel, professora do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. Os alunos voltaram a brincar e a socializar. Mas dentro de casa o problema continua: em julho, período de férias, os crimes virtuais contra menores aumentaram 78%. Para orientar as famílias, escolas passaram a promover encontros com especialistas.
Os pais são orientados a observar mudanças bruscas de comportamento que podem indicar risco (leia o quadro). “Minha filha ficou arredia e vivia trancada no quarto”, diz uma fonoaudióloga paulistana que prefere não se identificar. O marido, médico, acreditava ser uma alteração normal da idade. Depois de acessar o e-mail da filha, ela descobriu que a menina participava de um grupo de automutilação — e não era a única do colégio.
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O tratamento das vítimas virou prioridade. O Ministério Público de São Paulo criou um núcleo de atendimento cujo primeiro grupo começa nesta semana. “Queremos dar aos jovens recursos para que não voltem a cair nisso”, diz o psicólogo Cristiano Nabuco, especialista em dependência digital e coordenador do serviço. Os pais também participam. Alguns tentam vigiar os filhos com espiões no celular. Outros põem filtro na rede de casa. Mas nada substitui a confiança familiar: a maior rede de proteção contra os abusos digitais é um adulto presente na vida de crianças e adolescentes.
A xerife das plataformas
Lisandréa Colabuono, delegada paulistana, falou a VEJA sobre sua experiência à frente do primeiro núcleo de combate aos crimes digitais contra crianças e adolescentes.
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Como surgiu a força especializada nesses crimes? Durante as investigações do ataque a duas escolas, percebemos que eram ações planejadas, incentivadas e até celebradas dentro do Discord. Entendemos então que precisávamos mudar a lógica de atuação. A polícia não pode esperar o crime acontecer para investigar. Hoje, nosso objetivo é interromper a violência antes que ela aconteça.
Esses grupos têm estrutura organizada? Sim. Os servidores recebem o nome de “panelas”, e os integrantes, de “paneleiros”. Existe uma hierarquia rígida, na qual quanto maior a crueldade e o sofrimento da vítima jovem, maior o status do agressor.
As plataformas colaboram para retirar do ar um provedor criminoso? Muito pouco. Já registramos situações em que o Discord levou dezessete horas para retirar do ar um servidor criminoso.
Por que algumas crianças são mais vulneráveis que outras? Porque são mais fragilizadas emocionalmente, mais carentes e, portanto, suscetíveis às novas conexões aparentemente acolhedoras.
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O que é preciso mudar? As famílias precisam assumir um papel mais ativo. É fundamental instalar controles parentais, retirar o acesso aos celulares na madrugada e conversar constantemente sobre os riscos da internet. Também precisamos de centros como o nosso em todos os estados.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007
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