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Com uma longa trajetória no universo do agronegócio, o produtor rural Eduardo Riedel foi diretor de várias entidades ligadas ao setor, desde a década de 1990 até entrar na política, em 2022, quando venceu a eleição para o governo de Mato Grosso do Sul. Depois de mais de duas décadas no PSDB, deixou o ninho tucano em 2025 para se filiar ao PP, sigla pela qual construiu uma frente com nove partidos para tentar um segundo mandato em outubro — amparado por uma aprovação de cerca de 70% a sua gestão, segundo as últimas pesquisas. Na plataforma da campanha estão temas como responsabilidade fiscal, expansão do agronegócio, investimentos em educação e endurecimento no combate ao crime organizado — o que inclui a redução da maioridade penal. Apesar de não se considerar antipetista, apoia a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Palácio do Planalto e diz que a “agenda econômica defendida pelo PT envelheceu”. Em entrevista, ele afirma ainda que a direita vai se unir naturalmente no segundo turno contra Lula, prega uma reforma política para reduzir o número de partidos e avalia que o Brasil foi capturado por narrativas políticas ideológicas. “A gente precisa voltar a discutir uma agenda de Estado” , defende.
O senhor lidera ampla coalizão em Mato Grosso do Sul. O que explica essa convergência estadual no momento em que a direita está dividida nacionalmente? A realidade do estado é diferente da nacional. Desde que assumi o governo, meu compromisso sempre foi o de construir um projeto para o estado, e não uma disputa de poder. Nós reunimos um secretariado técnico, buscamos apoio político amplo e concentramos esforços em entregar resultados. Os indicadores mostram isso. O estado cresceu acima da média nacional, reduziu a pobreza extrema, ampliou investimentos e manteve níveis muito baixos de desemprego. Quando se entregam resultados, as forças políticas tendem a convergir em torno do projeto. No cenário nacional há uma polarização muito mais intensa. A direita ainda busca um caminho comum. Isso faz parte do processo.
Por que optou por apoiar Flávio Bolsonaro (PL) para a Presidência em vez de outros nomes da direita, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema? Tenho o maior respeito pelos dois, meus colegas de governadoria. Mas, no momento das convenções, a convergência do nosso campo político no estado, que inclui PP, União Brasil, PL e Republicanos, foi pelo apoio a Flávio. Acredito que no segundo turno haverá uma reunião natural em torno de uma candidatura única desse campo.
“A agenda econômica defendida pelo PT envelheceu. O Brasil mudou, o mundo mudou, e continuamos discutindo temas que já não respondem aos desafios atuais”
As investigações envolvendo o Banco Master e figuras de seu campo político, como Flávio Bolsonaro e o presidente de seu partido, Ciro Nogueira, não arranham sua candidatura? As instituições e os partidos estão acima das pessoas. Houve relações do Banco Master com atores de diversos campos — direita, centro e esquerda — e precisamos separar o que é fato do que é narrativa de rede social. Ciro Nogueira certamente dará suas explicações no devido processo legal. Sou contra pré-julgamentos baseados em notícias veiculadas. Devemos aguardar as conclusões legais com respaldo para os órgãos de investigação.
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Na polarização nacional, o senhor se considera um antipetista? Não gosto dessa definição. Não sou do “anti”. O PT tem uma trajetória importante na política brasileira e governou o país durante muitos anos. A minha divergência é de visão de Estado. A agenda econômica defendida pelo PT envelheceu. O Brasil mudou, o mundo mudou, e continuamos discutindo temas que já não respondem aos desafios atuais. Sinto falta de agenda mais clara voltada para equilíbrio fiscal, competitividade, modernização administrativa e crescimento sustentado.
Lula deixou de construir um planejamento estratégico para o país? O que vejo é um governo muito concentrado nas discussões de curto prazo. Precisamos pensar menos em agendas de governo e mais em agendas de Estado. O Brasil precisa recuperar competitividade. Isso passa pelo equilíbrio das contas públicas, pela confiança dos investidores, por reformas estruturantes e por um ambiente econômico capaz de estimular investimentos de longo prazo. Sem isso, o país perde capacidade de crescer. Eu não digo isso apenas pensando no agronegócio. Essa é uma necessidade de toda a economia. O Brasil ficou muito capturado pelas narrativas políticas e ideológicas dos últimos anos. Eu sinto falta de uma discussão mais profunda sobre reformas estruturantes. Falamos pouco sobre reforma administrativa, sobre produtividade, sobre como tornar o país mais competitivo. Sem isso, seguiremos perdendo oportunidades.
Quais reformas deveriam ser prioridade? A reforma política é uma delas. O Brasil ainda convive com um sistema partidário excessivamente fragmentado. Não faz sentido imaginar que existam mais de trinta projetos ideológicos diferentes convivendo ao mesmo tempo. Defendo um sistema com menos siglas, o fim da reeleição ao Executivo, mandato único de cinco anos e a unificação das eleições municipais e nacionais. Hoje vivemos um processo eleitoral permanente. A cada dois anos, o país interrompe suas agendas para discutir eleições. Não considero isso saudável para a sociedade nem para a administração pública. O eleitor amadureceu. A democracia está consolidada o suficiente para permitir um modelo institucional mais racional e voltado a resultados.
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O governo federal tem dado a atenção necessária ao agronegócio? Eu ampliaria essa discussão. Não vejo apenas um problema na relação com o agronegócio, mas com o ambiente macroeconômico como um todo. O empresário precisa confiar para investir. Isso depende de estabilidade, previsibilidade e equilíbrio fiscal. Quando o ambiente econômico se deteriora, todos os setores perdem competitividade, não apenas o agro. O governo Lula avançou em concessões e parcerias com a iniciativa privada, inclusive em projetos importantes para Mato Grosso do Sul. Isso é positivo. Mas existe uma contradição entre esse movimento e um discurso historicamente contrário às privatizações. O país precisa superar essa incoerência e criar um ambiente cada vez mais favorável ao investimento privado.
O Brasil conduziu corretamente a negociação do tarifaço com os Estados Unidos? Acho que houve excesso de narrativas e pouca objetividade. Bravatas funcionam em palanque, mas não resolvem problemas comerciais. O Brasil sempre teve tradição diplomática e capacidade de negociação. Precisamos recuperar essa característica. Nossa preocupação deveria ser fortalecer a política comercial brasileira e criar condições para que o país volte a competir em igualdade de condições. Isso exige estabilidade, previsibilidade e uma estratégia consistente para os próximos anos, não apenas para a próxima eleição.
A segurança pública é a principal preocupação do eleitor. Por fazer fronteira com Bolívia e Paraguai, Mato Grosso do Sul tornou-se uma das principais portas de entrada do tráfico internacional de drogas. O que essa realidade exige? Segurança pública depende de três pilares: investimento, inteligência e integração. Talvez a integração seja o maior desafio, porque exige que forças federais, estaduais e municipais trabalhem de maneira coordenada. Nós temos mais de 1 500 quilômetros de fronteira, parte dela completamente aberta. É uma realidade muito diferente daquela vivida pela maior parte dos estados.
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“Houve excesso de narrativas e pouca objetividade na negociação das tarifas com os EUA. Bravatas funcionam em palanques, mas não resolvem problemas comerciais”
O que o Estado tem feito? O nosso Departamento de Operações de Fronteira faz um trabalho extraordinário com a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal e estamos entre os estados que mais apreendem drogas no país. Mas essa atuação também gera um enorme impacto sobre o sistema prisional estadual. Temos a maior taxa de encarceramento do Brasil, com 700 presos para cada 100 000 habitantes, acima da média dos Estados Unidos (542 por 100 000) e muito acima da média brasileira (452). Boa parte desses presos nem sequer é do estado; são pessoas ligadas ao tráfico internacional. Isso demonstra que o combate às facções deixou de ser um problema regional. É um problema nacional e internacional, que exige investimentos permanentes da União nas forças que atuam na fronteira.
O crime organizado avançou mais rapidamente do que o Estado? Em muitos lugares, sim. Talvez o Brasil tenha demorado a compreender a dimensão dessa ameaça. As facções cresceram, ganharam capacidade financeira, se internacionalizaram e passaram a disputar espaços onde o Estado perdeu presença. Esse enfrentamento precisa ser firme. Não pode haver relativização. Quando uma organização criminosa substitui o Estado em determinado território, ela passa a impor regras próprias, controlar comunidades e interferir diretamente na vida das pessoas. Isso é extremamente grave.
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O senhor é favorável à redução da maioridade penal, um dos temas que têm mobilizado parte do Congresso? Essa é uma discussão difícil, mas necessária. Ao longo dos anos, nós reduzimos a idade para uma série de direitos e deveres, e entendo que isso precisa ser feito também na área penal. Mas essa medida sozinha não resolve o problema. O Estado precisa criar condições para que esses jovens tenham outra perspectiva de vida. Quando um adolescente deixa uma unidade socioeducativa, ele não pode simplesmente voltar para o mesmo ambiente que o levou ao crime. É preciso combinar educação, qualificação profissional, presença do Estado e oportunidades de trabalho. Se o Estado não ocupar esse espaço, alguém vai ocupar. E, muitas vezes, quem ocupa é o crime organizado.
De uma forma geral, qual é a perspectiva de longo prazo para Mato Grosso do Sul? O estado vive um momento de transformação. Nós queremos consolidá-lo como um polo logístico, industrial e de serviços, aproveitando a diversificação da economia e os investimentos que já estão chegando. A Rota Bioceânica (corredor rodoviário de 2 400 quilômetros que liga o Brasil ao Oceano Pacífico) é decisiva nesse processo. Ela aproxima o Brasil dos mercados asiáticos, reduz custos logísticos e transforma o estado em ponto estratégico para importação e exportação. Pela posição geográfica, fazendo fronteira com Bolívia e Paraguai e divisa com cinco estados brasileiros, Mato Grosso do Sul pode se tornar um grande centro de distribuição para o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul do país. Muitos investimentos privados chegaram justamente pela perspectiva de funcionamento da rota. Gostaria que fôssemos reconhecidos como um estado que cresceu sem abrir mão da responsabilidade fiscal, da inclusão social e da educação.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007
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