Após a subida “óbvia” dos juros, Lagarde alimenta os ‘falcões’ (e as ‘yields’)

No brainer“. A frase em inglês empregue pela francesa que dirige o Banco Central Europeu a (BCE) a partir da Alemanha não tem tradução direta em português, mas é fácil de interpretar: uma decisão tão óbvia que nem foi preciso usar muitos neurónios. A subida de 25 pontos base na taxas de juros da Zona Euro foi unânime na Conselho de Governadores, explicou esta quinta-feira Christine Lagarde em conferência, tal como era consensual entre analistas e investidores. A presidente do banco central tentou demonstrar cautela, dizendo que a enorme incerteza geopolítica impede o banco central de emitir sinais sobre os próximos passos, mas acabou por dar azo a um reforço nos mercados na aposta em mais uma subida no custo do euro até ao final do ano, – a terceira – e mais aperto monetário no próximo ano, impulsionando as yields soberanas no secundário.

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Os mercados monetários estão agora a prever um aperto monetário adicional de cerca de 85 pontos base até ao final de 2027, o que representa um aumento em relação aos pouco menos de 70 pontos base antes da reunião do BCE, com um aumento das taxas até dezembro já totalmente descontado, segundo a agência Reuters.

As expectativas do mercado antes da reunião eram bastante hawkish (ou seja em linha com os ‘falcões’ que preferem taxas de juro mais altas) e a comunicação do BCE pode ser interpretada como tendo também, no mínimo, uma inclinação nesse sentido, destacou Roman Ziruk, lead FX strategist na Ebury, uma fintech de sistemas de pagamento e gestão de risco cambial controlado pelo Banco Santander e pela gestora de fundos Centerbridge Partner.

“A presidente Lagarde repetiu o seu mantra de que as decisões serão tomadas reunião a reunião e dependem dos dados, mas no entanto não contrariou as expectativas hawkish do mercado” referiu. “Sinalizou que a inflação se está a revelar mais persistente do que o esperado, destacou a resiliência da economia da zona euro e minimizou a importância da ‘taxa neutra’ (o que, na nossa opinião, poderia manter o BCE cauteloso quanto a novos aumentos para além dos de hoje)”.

As projeções económicas do banco também deixam um travo ‘falcão’, segundo o analista. O staff do BCE manteve inalterada a projeção para a subida dos preços na Zona Euro para este ano, mas reviu em alta as dos dois anos seguintes, prevendo agora que a inflação fique nos 3% este ano, antes de abrandar para 2,5% em 2027 e 2,1% em 2028. As anteriores projeções, divulgadas em junho, apontavam para uma taxa de inflação, medida pelo Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), de 3% em 2026, 2,3% em 2027 e 2% em 2028.

O crescimento a médio prazo, em 2026 e 2027, deverá também ser mais forte do que o previsto anteriormente, sublinhou Ziruk. O BCE explicou em comunicado que a projeção de referência para o crescimento económico é de 0,9% para 2026, 1,4% para 2027 e 1,5% para 2028, revisões em alta tanto para 2026 como para 2027, “refletindo principalmente a resiliência superior ao esperado da economia da Zona Euro”.

“À luz deste tom mais restritivo, estamos a rever a nossa previsão para dezembro e esperamos agora mais um aumento das taxas de juro de 25 pontos base”, afirmou Jörg Krämer, economista do Commerzbank, citado pela Reuters.

Noutro banco alemão, o Deutsche, o economista-chefe para a Europa, Mark Wall, escreveu que “os riscos de inflação podem estar a aumentar e é mais provável que haja um novo aumento das taxas de juro em dezembro, mas o BCE continua a ter de agir com cautela”.

“A economia tem-se mostrado resiliente nos últimos seis meses, mas o rápido aumento dos preços do gás significa que se está a formar um choque negativo do lado da oferta. Isso acabará por prejudicar o crescimento, e a questão é saber em que medida e quando”, sublinhou.

A Presidente do BCE, Christine Lagarde, explica as decisões de política monetária do Conselho do BCE e responde às perguntas dos jornalistas na conferência de imprensa do Conselho realizada no dia 10 de setembro de 2026, às 14h45 (CET), em Wannsee, Berlim. A presidente está acompanhada em palco por Joachim Nagel, presidente do Deutsche Bundesbank e membro do Conselho do Banco Central Europeu; pelo Vice-Presidente Boris Vujčić; e pelo responsável de Comunicação do BCE, Wolfgang Proissl.© 2026 European Central Bank

Petróleo e gás pressionam nos dois lados do Atlântico

Num dia em que os preços do petróleo voltaram a subir – o do barril de Brent 5,8% para 107,08 dólares e o de WTI também quase 6% para o patamar dos três digitos pela primeira vez desde maio nos 101,62 dólares – a decisão do BCE acrescentou pressão a um mercado de dívida já abalado por dúvidas sobre o crescimento e o endividamento de vários países.

As obrigações francesas e italianas estiveram sob especial pressão, com o diferencial entre as taxas de rendibilidade das obrigações a 10 anos francesas e alemãs — um indicador do prémio de risco associado à dívida francesa — a atingir o seu nível mais elevado desde 2012, situando-se em mais de 90 pontos base.

Nos Estados Unidos, as yields dos títulos do Tesouro subiram, depois de os últimos dados sobre a inflação terem reforçado as expectativas de um aumento das taxas de juro por parte da Reserva Federal na próxima semana, ao mesmo tempo que a subida dos preços do petróleo também suscitou receios quanto à inflação. As taxas das Treasuries a 10 anos estavam a ser negociadas nos níveis mais elevados em quase três anos, enquanto as taxas de rendibilidade das da dívida a 30 anos atingiram os níveis mais elevados em mais de 19 anos e as taxas de rendibilidade das obrigações a dois anos atingiram os níveis mais elevados em mais de dois anos.

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