Como Wall Street e Nova Iorque mudaram desde os ataques de 11 de setembro

Há uma leitura de que havia um mundo contemporâneo até ao 11 de setembro de 2001 e outro desde então. À distância de 25 anos, olhamos para uma realidade muito diferente, tanto nos Estados Unidos como em Portugal.

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Por cá, a TVI estava a ganhar a liderança televisiva à SIC, à custa de blockbusters como o Big Brother, que se havia estreado um ano antes, e da novela “Olhos de Água”. O Boavista, que hoje em dia praticamente desapareceu, era o campeão de futebol, a primeira e única vez na sua história em que o conseguiu. E, no Governo liderado por António Guterres, constavam várias caras que viriam a marcar a história nacional nas décadas seguintes: entre os ministros estavam António Costa (Justiça), Augusto Santos Silva (Cultura) ou José Sócrates (Equipamento Social e Ambiente e Ordenamento do Território. Com a pasta de ministro-adjunto do Primeiro-ministro figurava o atual Presidente da República, António José Seguro.

À frente dos EUA estava então George W. Bush, ainda no primeiro de oito anos enquanto presidente, depois de ter vencido no final de 2000 umas polémicas eleições contra o democrata Al Gore, apesar de ter perdido o voto popular, algo que não acontecia desde 1888.

A internet já era bastante utilizada mas completamente subdesenvolvida. Já existiam redes sociais relativamente rudimentares, mas o Facebook só nasceria três anos mais tarde, um ano antes do Youtube.

Se 25 anos mudariam muita coisa em qualquer altura, o quarto de século que se seguiu ao maior atentado terrorista de sempre nos EUA – e o primeiro a ser testemunhado em direto pela televisão por milhões de pessoas em todo o mundo, – ainda mais.

E a bolsa norte-americana e a própria cidade de Nova Iorque são dois focos de observação privilegiados para ver essa mudança.

A 11 de setembro de 2001, cerca de meia hora antes do toque do sino que marca rotineiramente a abertura da bolsa de Nova Iorque, já os dois aviões haviam atingido as Torres Gémeas, que ainda estavam de pé. No meio do caos, a decisão foi tomada rapidamente, de que não havia condições para o mercado abrir. Receios de segurança, falhas de energia, transportes parados, tudo contribuiu para tal. Além disso, várias empresas do setor financeiro, nomeadamente corretoras e bancos de investimento, tinham instalações nas torres do World Trade Center.

A bolsa só viria a reabrir seis dias depois, na segunda-feira seguinte (o ataque ocorreu numa terça). Mas esta não foi, nem de perto, a paragem mais longa. No final de julho de 1914, com o início da I Guerra Mundial, a bolsa fechou e só veio a abrir quatro meses depois, em novembro.

Quando o sino se voltou a escutar em setembro de 2001, as quedas foram inevitáveis. Na primeira semana corrida de negociação, a desvalorização dos ativos ascendeu a perto de 1,4 biliões de dólares. Em traços mais gerais, esta queda surgiu ainda durante a grande correção da bolha dotcom do ano 2000, acrescentando ainda mais receio e volatilidade.

Nem todos os setores sofreram da mesma maneira e houve mesmo alguns a beneficiar, servindo de refúgio aos investidores: os fabricantes de armamento começaram a colher as expectativas de uma longa guerra ao terror, da mesma forma que empresas ligadas a segurança e a telecomunicações de ponta também subiram

Se as perdas iniciais foram relativamente generalizadas, nem todos os setores sofreram da mesma maneira e houve mesmo alguns a beneficiar, servindo de refúgio aos investidores: os fabricantes de armamento começaram a colher as expectativas de uma longa guerra ao terror, da mesma forma que empresas ligadas a segurança e a telecomunicações de ponta também subiram. No sentido inverso, sem surpresa, estavam as companhias aéreas e as seguradoras, entre outras.

Mais do que os ataques, a fotografia da composição da bolsa americana então e agora reflete sobretudo a mudança sísmica na economia e, acima de tudo, nas empresas que são vistas como um motor de desenvolvimento e de crescimento futuro. Se, em setembro de 2001, os investidores premiavam empresas estáveis, com modelos de negócio estabelecidos e provados, 25 anos depois todo o mercado está mais futurista, com avaliações elevadas de companhias que prometem ser as vencedoras do novo modelo de economia, assente nas tecnologias e, acima de tudo, na nova fronteira da inteligência artificial.

Há 25 anos, a fotografia das empresas mais valiosas da bolsa nova-iorquina pintavam um panorama muito mais diversificado do que até aqui. Olhando para o top 10, a mais valiosa era a General Electric, um gigante conglomerado industrial (entretanto dividido em várias partes), seguido pela Microsoft (que é a única sobrevivente, em 2026, na lista das 10 maiores). Havia petróleo (ExxonMobil), farmacêuticas (Pfizer, Johnson & Johnson), retalho (Walmart) ou finanças (AIG, Citigroup). Agora, todo o top 10 é composto por tecnológicas ou empresas com forte pendor tecnológico, numa lista liderada pela Nvidia, pela Apple e pela Alphabet. Outra curiosidade: a SpaceX tem lugar neste top 10, sendo que em 2001 ainda nem existia (seria fundada no ano seguinte).

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Se o impacto nas cotações foi duro, a recuperação levou algum tempo mas foi sistemática, num processo que, de forma alargada, se mantém até hoje, com os principais índices acionistas americanos a negociarem perto de máximos históricos, mesmo apesar de toda a turbulência mundial e na Casa Branca.

Tomando como referência o índice S&P 500, este demorou apenas um mês a voltar onde estava antes dos ataques, o que aconteceu a 11 de outubro de 2001. Ainda assim, seguiram-se tempos muito turbulentos e a recuperação, de forma mais sustentada, só se solidificou mais de dois anos depois, perto do final de 2003. A tendência de apreciação durou até rebentar a crise financeira, com novas desvalorizações severas em períodos de 2008 e 2009. Desde então, os índices arrancaram em força num movimento que os deixa a negociar perto de máximos históricos. Novamente tomando como referência o S&P 500, este está hoje mais de 500% acima dos valores de setembro de 2001. Mas o índice Nasdaq, por exemplo, cresceu muito acima disso.

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A nova Nova Iorque

A zona onde ficava o World Trade Center era, na altura, dominada por escritórios, centros de empresas de serviços e das finanças em sentido lato. Era uma zona onde se ia trabalhar de manhã e que se abandonava ao final do dia. Hoje, as coisas estão muito diferentes, e o ataque às Torres Gémeas acabou por ser o gatilho para uma verdadeira revolução socioeconómica da área conhecida como Lower Manhattan.

Um exaustivo relatório divulgado há dias pela Câmara de Nova Iorque procurou exatamente perceber como a zona mudou e de que forma isso se deveu, em parte, aos estragos provocados.

Em termos históricos, e após a demorada remoção de todos os detritos, Nova Iorque decidiu levar a cabo uma extensa reformulação de toda a zona. Sob o comando do então governador do Estado, George Pataki, e do então presidente da Câmara, Rudolph Giuliani, foi criada a Lower Manhattan Development Company, beneficiando de um financiamento federal inicial de 10 mil milhões de dólares (o investimento de privados terá sido até superior). Foram abertos concursos públicos para a construção de um memorial e para toda a zona envolvente. A prioridade anunciada e concretizada foi devolver a vida à área e tentar transformar uma zona corporativa numa com mais habitação e mais equipamentos culturais.

Com o passar dos anos, os resultados foram-se tornando evidentes. 25 anos depois, e socorrendo-nos mais uma vez do relatório da responsabilidade de Thomas DiNapoli, Comptroller do Estado de Nova Iorque, a zona ganhou uma vida nova e diferente, ainda que o centro emocional continue a ser o local onde estavam as Torres Gémeas, e onde vive agora um memorial completo.

Lower Manhattan mais do que triplicou o número de fogos habitacionais, para perto de 40 mil. Os seis hotéis existentes em 2001 deram agora lugar a mais de 40, respondendo também ao fluxo turístico que começou a frequentar mais a área. O número de trabalhadores diários na zona, curiosamente, voltou a perto do valor original, de perto de 230 mil pessoas, depois de grandes flutuações. A população residente mais do que duplicou, para perto de 70 mil pessoas.

Acompanhando a reconfiguração física, o peso do sistema financeiro (em sentido lato) na percentagem de empregos ocupados caiu de 48,5% para 33,6%. Em contraponto, ganharam peso os setores de serviços, a tecnologia ou o turismo.

Um ponto curioso é que, se os escritórios perderam o domínio do espaço, isso não fez com que os que se mantêm sejam mais procurados. A taxa de escritórios vagos na Lower Manhattan passou de escassos 7% em 2001 para os atuais 22%. Esta tendência deve-se mais aos efeitos da pandemia e da reorganização dos espaços de trabalho e da forma de trabalhar do que necessariamente aos ataques ou à posterior requalificação dos espaços.

Um quarto de século passou mas, tanto na composição dominante das bolsas como na nova cara de Lower Manhattan, as características dos EUA estão bem patentes em ambos os movimentos. Perante perdas ou ataques, há sempre capacidade de investimento e a ousadia de criar algo novo ou apostar no futuro.