Barulho, barulhinho e barulhão na Paulista - 07/08/2026 - Mauro Calliari - Folha

A Paulista Aberta é um marco na cidade, desde o início, em 2015. As pessoas adoram ir passear na avenida aos domingos, ver gente, tomar um sorvete, conversar e sentir a vibração da cidade. O uso do espaço público, porém, nunca vem sem conflitos.

No caso da Paulista, o barulho é um deles. No início eram os músicos e artistas de rua, hoje há fanfarras, baterias, aulas de dança, shows e até DJs de rádios que anunciam promoções num volume altíssimo. Em decibéis, o barulho aos domingos chega a ser maior do que o trânsito durante a semana, segundo Relatório Técnico de Monitoramento Acústico, feito pela empresa OTOH em 2026.

Na semana passada, a prefeitura divulgou uma portaria que pretendia resolver o problema, proibindo geradores, baterias externas e ligações elétricas feitas a imóveis para alimentar equipamentos de som.

O resultado, porém, não agradou a ninguém. Apesar das audiências de conciliação, músicos dizem não ter sido consultados. Moradores e comerciantes dizem que a proibição de equipamentos não faz sentido sem estabelecer limites claros de volume. Muitas caixas de som já têm baterias internas e escapariam da proibição, assim como percussão e sopros que também emitem ruido muito acima do recomendado. Sem métricas e sem método de fiscalização, a portaria é um convite para que tudo continue igual no próximo domingo.

Coincidentemente, na mesma semana, a prefeitura divulgou uma pesquisa conduzida pelo Datafolha, que dá mais margem para interpretações ambíguas. A pesquisa dá conta que 92% dos frequentadores aceitariam megashows gratuitos na avenida Paulista. O dado colide com o fato de que 15% desses mesmos frequentadores já se incomodam muito com o volume das caixas de som e 62% defendem controle sobre o barulho. Não há informação na pesquisa sobre a poluição sonora sentida pelos moradores e comerciantes do entorno.

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A divulgação serve à intenção da prefeitura de acolher cada vez mais os grandes eventos e shows, que já acontecem em estádios e no autódromo. A Paulista seria uma nova frente, já que hoje pode hospedar apenas três grandes eventos: Réveillon, Parada LGBT+ e a corrida de São Silvestre.

A São Paulo de hoje traz novos conflitos que exigem novas maneiras de resolução. A gestão pública não será mais avaliada apenas pelas obras que faz, mas pela gestão dos conflitos, a camada mais soft de uma cidade diversa e vigorosa.

A mediação de conflitos exige que a prefeitura trabalhe com dados, abra fóruns contínuos para discussão, acate conselhos plurais, envolva a Câmara dos Vereadores, chegue a consensos e monitore resultados, não apenas quando há orientação do Ministério Público. No caso da Paulista Aberta, ela está devendo em todas essas frentes. O mapa sonoro não foi feito, não há equipamentos suficientes para fiscalizar a emissão de ruídos, e o próprio conselho gestor que deveria se reunir para discutir tudo isso está parado.

O barulho em São Paulo é uma quimera. Há pouco tempo, parecia que ninguém ligava para as obras, os escapamentos abertos, os shows em estádios abertos, os aviões, os pancadões e as buzinas. Isso mudou. Já sabemos que barulho é uma questão de saúde pública, que gera desde insônia até doenças neurológicas. O Psiu bateu recorde com mais de 50 mil reclamações no ano passado.

A ocupação do espaço público é a cola que São Paulo precisa para fazer frente à rudeza cotidiana. Dá para preservar isso ao mesmo tempo em que se preservam os níveis de incômodo e de urbanidade?

Claro que sim, algumas regras de civilidade não vão colocar isso em risco, ao contrário, vão angariar mais pessoas, mas a intermediação cabe à prefeitura. Ela precisa de mais transparência, paciência, instrumentos e vontade para garantir que as pessoas interessadas se sentem juntas e validar decisões que atendam ao interesse difuso dos paulistanos.

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