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A família já não prepara as refeições, compra refeições. Ou então, se a família prepara as refeições em casa, a maioria, diria eu atrevidamente, as crianças não fazem parte desta dinâmica, porque estão em atividades extracurriculares, estão a estudar, não veem. O que estamos é a deixar de passar de geração em geração o saber cozinhar. Nós não estamos a passar para os mais pequenos aquilo que são as práticas gastronómicas.
Essas técnicas, não é? Saber fazer.
Não sabem fazer uma caldeirada, não sabem fazer uma frujuada.
Desossar uma carne ou um peixe.
Não sabem cozinhar porque não veem cozinhar. E isso eu acho que nós estamos um bocado absorvidos com as rotinas e com as corridas de rotina em rotina.
E esses saberes fazer básicos estão se a perder por causa disso.
Estão.
Por isto ou por aquilo, todos os dias, como diz o povo, engolimos sapos. A resposta torta que fica por dar, o excesso de trabalho, o estresse no trânsito, o telemóvel que não para de tocar, o tempo de estar sempre ligados, as noites mal dormidas, o "não faz mal", dito com um sorriso amarelo à sogra que aparece de surpresa. O que nós não sabíamos é que engolir sapos engorda. É este o título do novo livro de Conceição Calhau, investigadora e professora catedrática de Bioquímica Nutricional, que depois do sucesso "Deixemo-nos de Tretas: a Ilusão da Comida Saudável", lança agora este novo livro sobre o peso das emoções, da saúde e na balança. Vamos perceber que há outras coisas que engordam. Comer pouco e mal, dormir pouco, mal e a más horas. Alimentos saudáveis e a própria dieta vegetariana também podem engordar. E vamos desfazer alguns mitos como gordura e formosura. O que é natural é bom, o que é processado é mau e afinal, fast food não tem que ser junk food. Olá, Conceição, e bem haja por ter aceitado este meu convite. Bem-vinda à Rádio Observador mais uma vez, porque vieste cá depois daquele teu sucesso. Foi um grande sucesso este "Deixemo-nos de Tretas". Estavas à espera?
Não, não estava à espera.
Mas de facto, toda a gente comprou 15 mil vendidos. É extraordinário. Parece que tinha necessidade disso. Eu vejo que o problema das redes sociais e o que mal influenciam muitos influencers que não sabem disto e que dão conselhos sem perceber. As dietas da moda e aquelas coisas. Pensava que nem tanta gente ia à procura desta verdade. E foram.
Eu acho que essa, de facto, foi a grande surpresa para mim, porque entendi que não tinha muito a acrescentar a tanto que já se diz. Mas a motivação foi principalmente colocar os pontos nos Is numa fase em que as minhas filhas, também adolescentes, consumiam muitas das informações e contra informações das redes sociais.
Tu tens uma de 19 e outra de 16, não é?
Agora uma de 20 e uma de 16.
Meu Deus, incrível!
É verdade. E a verdade é que nessa fase percebo-me na primeira pessoa, que apesar de ser eu a ensiná-las e a dar o contexto alimentar.
E a dar o exemplo também.
E a dar o exemplo.
Muito importante.
Comecei a perceber que existiam umas alterações daquilo que de vez em quando aparecia no frigorífico e por isso achei que de facto era mesmo importante eu estar mais atenta.
Esclarecer.
E posicionar-me e ajudar naquilo que era colocar os pontos nos Is para muitos dos mitos. Mas de facto, João Paulo, em relação a este livro, fez um bom resumo.
Incrível.
E este livro surge com uma motivação diferente. Se o primeiro era mais a nutricionista.
A falar, exato.
Exatamente. Neste é mais a bioquímica.
E para a menopausa, como tu dizias também. Apanhou-te numa fase anterior. Este é posterior.
Este é exatamente por ter passado pela fase da menopausa que acho que me senti ainda mais motivada.
É quem é mais a bioquímica a falar, não é?
É, porque na realidade, aquilo que hoje muito nos preocupa, mais anos de vida, mas nem por isso com mais saúde.
Exatamente.
A questão da longevidade.
Ganhamos em 50 ou 100 anos, ganhamos 30 anos de esperança de vida. É extraordinário.
E é extraordinário se nós pensarmos que relativamente àquilo que são muitas vezes as discussões sobre as necessidades nutricionais de as RDAs ou as doses diárias recomendadas para vitaminas, quantas vezes até nós olhamos para o rótulo e interpretamos dessa forma. Esses valores foram calculados na Segunda Grande Guerra Mundial.
Estamos atualizados.
Estamos a falar nos anos 40 e a verdade é que houve uma atualização recente pela EFSA, pela entidade reguladora da parte alimentar da Europa, mas a atualização não fez uma grande alteração desses valores. E esses valores, se pensarmos também que a esperança média de vida nos anos 50, que são os dados que se conseguem recolher, eram 50 anos.
50 anos é impressionante. Agora 80 e poucos.
Ganhamos muitos anos depois. E de facto os nossos desafios de vida são outros. O nosso ritmo de vida é outro. O ambiente está diferente. Ou seja, quando falamos nas alterações do clima, temos que perceber que a produção dos alimentos em natureza, seja de uma produção vegetal, seja animal, também necessariamente é diferente. Não sabemos se melhor, se pior, mas é diferente.
Claro que sim.
E, portanto, nós temos outras exigências, porque os nossos gastos são por mais tempo. Portanto, as necessidades nutricionais.
São também diferentes, porque numa geração mudou muito.
Exatamente. Populacionais vamos reter naquelas. Mas de facto, do ponto de vista da personalização, da precisão, são outras. E, portanto, temos que rever as coisas à luz da evidência de hoje. E deve ser crítico.
Até no livro a questão da vitamina C, por exemplo. Havia doses diárias recomendadas de X. Hoje está superdesatualizado. É impossível estar naqueles níveis.
No caso da vitamina C, até dou o exemplo daquilo que foi a evolução da espécie humana, que foi importante perdermos a capacidade de fazer síntese de vitamina C.
Ok.
A vitamina C é na realidade por outros animais, é produzida a partir da glicose. Nós perdemos essa capacidade porque também nos dá a garantia de acumular gordura, ou seja, a priorização da sobrevivência da espécie é sempre a reserva e acumulação de gordura. E a vitamina C tem um papel importante.
É sobre isso que fala este livro.
Para produzir uma porta de entrada. Um transportador que leva a gordura para dentro da cozinha, que é onde ela é usada, que é a mitocôndria.
Que é aquelas centrais de energia das células.
Exatamente. E portanto, a vitamina C não deve existir em abundância, de maneira a que eu possa priorizar a acumulação de gordura. E a vitamina C, para além do mais, é utilizada para muitas outras funções, desde o estresse oxidativo. Hoje em dia temos muito mais estresse oxidativo dentro das células. Vivemos mais anos, mais lixo se acumula.
Exatamente.
E depois também é importante para a síntese de neurotransmissores, para a síntese de colagénio. Enfim, há muitas funções e portanto, todas estas necessidades Devem ser revistas, mas do ponto de vista clínico. Aliás, tudo que é um posicionamento para um tema que também é da atualidade, dos suplementos alimentares, é um tema clínico. Não é da autoprescrição, é um tema de prescrição clínica, porque tem que ser contextualizado.
Tu fazes questão de dizer isso várias vezes no teu livro. Procurar os profissionais de saúde certos e não ir por modas e por influencers.
Exatamente. E mais até do que profissionais de saúde. É o clínico que vai ter o contexto e a história clínica e vai ter objetivos clínicos. E portanto, acho que é um tema demasiado sério para a banalização, a vulgarização.
É muito curioso. Por que eu gosto de falar contigo? Porque tu és licenciada em Ciências da Nutrição e era a coisa que tu querias. Querias fazer investigação e doutoras-te depois em bioquímica e metabolismo. Mas era o que tu querias. Tu tinhas média 19 ou quase 20, tu podias ter ido para medicina, mas não, "eu quero aquela área". Estamos a falar há 20 e tal anos, nem sequer era muito falada na altura. Mas uma das coisas mais curiosas do teu percurso é que, por exemplo, estiveste na Washington Medical School em St. Louis. Viveste uns tempos nos Estados Unidos e não ficaste obesa. Isso é extraordinário.
Sim, mas aquilo lá de facto é curioso. Também estamos a falar em anos 90.
Sim.
Mas ainda assim.
Mas lembro-me também de ter passado por lá e Conceição, os pequenos-almoços deles tinham todas as cores e mostravam todos os molhos e todas as panquecas.
Eu acho que até o cheiro engordava.
Exatamente.
Porque o cheiro dos sítios-
A porcaria, a junk food que eles comiam ao pequeno-almoço.
Eu recordo-me, a imagem que eu tenho melhor dessa parte. Claro que nós ainda assim temos sempre opções de escolha. Eu ia ao supermercado, fazia refeições, mas recordo-me perfeitamente que o professor convida-me para fazer um jantar em casa deles. Convidou vários investigadores para irem a casa dele num fim de semana e pediu para eu cozinhar o que era mais típico português e que eu gostasse, e eu fiz caldeirada de peixe. E eu esmerei-me nos ingredientes, até salsa, todo o molho. E depois a seguir, para espanto meu, vejo-os contentes a fazer o prato da caldeirada e pôr maionese em cima. E eu fiquei só pior que estragada com aquilo. No meu prato não colocaram, mas aquilo era só assassinar a caldeirada.
O sabor, as calorias, tudo. E é engraçado, uma coisa que eu também, por causa do teu livro, lembrei-me agora. Na Indonésia, tive lá a sorte de ter lá estado há um ou dois anos. Todos os produtos que se vendiam nas lojas têm sempre obrigatoriamente um rótulo negro a dizer: "Atenção, alerta de excesso de nutrientes para evitar a obesidade, tem níveis elevados de açúcar, de sal, de gordura". Tinham obrigatoriamente no meio de todas as embalagens que tu conheces, todos os produtos. É engraçado, eles alertaram-se para dizer às pessoas que isto pode ser perigoso.
Pois, isso é um consentimento informado. É a pessoa estar completamente-
Chocolates, iogurtes, tu não tens noção.
Como existe no tabaco. Eu também acho que não era para mim um escândalo nós passarmos a ter uma comunicação assim. Embora eu acho que é muito importante em relação à alimentação, até porque há uma parte emocional em relação à comida e às refeições e à fome emocional.
Claro que sim. Falaste disso também.
Tudo que é negativo, e nós sabemos, tudo que é proibido é apetecido.
Exatamente.
E depois em relação a estas matérias, nós temos sempre muito as mensagens negativas. "Não deve comer" ou "está a comer excesso de sal, excesso de açúcar".
É uma coisa que te distingue. Tu és muito pela positiva. Vamos dar as alternativas. Olhe, o que é que nós temos aqui?
O que é que não come? Aliás, quando as pessoas me dão o exemplo do dia alimentar deles e aquilo é uma monotonia, e eu digo: "Agora vamos ter que retirar isso e voltar a pôr outras coisas". E regra, as pessoas dizem: "Mas então eu vou comer o quê?" Olhe, vai comer uma quantidade e outros alimentos, pelos vistos, não sabe que existem.
Exato.
Portanto, come sempre a mesma coisa, não é adequado.
O desafio de 60 alimentos vegetais diferentes por semana. É colorido, é saboroso e resulta. E de facto diz isso, as pessoas ou comem brócolos ou uma salada. Tu dizes, as pessoas têm mania que um bife de frango com arroz branco e uma folha de alface é a comida mais saudável. Quer dizer, não é! As pessoas têm que variar. E a variedade é muito importante.
E teimam em dizer que uma cozida à portuguesa ou como a feijoada é um prato pesado. Teimam em dizer isso.
Para estar pesado, como tu dizes, é o sal e os enchidos.
Exatamente.
Mas de resto tudo aquilo faz bem.
Exatamente. Se eu tenho o grão, tenho a batata, tenho o couve, tenho o bacalhau, ou tenho a carne.
Tens as leguminosas, tens os hortícolas, as proteínas.
Isso sim, é alimentação adequada. Claro que tem que adequar na quantidade, mas se eu tiver uma vida com exercício físico, se eu tiver ser exigente na qualidade do como. E comer à hora certa, a saciedade estará de certeza muito bem trabalhada.
Sempre digo isso, comer a horas. Comer mal, pouco e a más horas. Isso é como o sono. Também dormir nas horas certas ou comer nas horas certas também. Por exemplo, eu sou muito desregulado na comida e isso é péssimo. Claro, assume a fatura. Mas é a pessoa impor um bocadinho essas regras. Tu dizes outras coisas, comer fruta isolada a meio do dia pode não ser bom. As pessoas têm a ideia que isso é bom. São mitos. Pode dar um pico de glicemia, pode não ser bom.
Pode dar mais fome.
A coisa que tu dizes do fast-food não tem que ser junk food. Comidas rápidas que se fazem bem ou tudo que é processado é mau. Não é verdade, quando a gente faz um ovo estrelado, estamos a processar.
Exatamente, em casa processa-se os alimentos.
Há estes mitos.
Mas de facto essa de que a comida não tem que ser rápida. O fast-food não tem que ser junk food. Nós temos na Medical School, a Summer Medical School, que aliás agora está a decorrer, que é um campo de férias, mas um campo de férias imersivo em que os miúdos vão também para a cozinha. Nós temos um kitchen lab. E os miúdos têm imensas atividades. Obviamente, não é só na área da alimentação. Mas este é curioso porque os miúdos preparam refeições rápidas, obviamente adequadas e que obviamente gostam. Isso é um desafio para eles. Muitos deles também começam a semana sem comer sopa, mas depois saem já habituados a comer, porque também começaram a fazer a sopa e passou a ser uma realidade muito mais presente.
Isto devia haver nas escolas, Conceição. Estas noções. Desde pequenos. Cozinhar coisas.
Isso devia fazer parte daquela disciplina chamada cidadania. Entre outras coisas, saber fazer contas de gerir o dinheiro.
Ou para encher impostos.
Exatamente.
Mas isso é muito importante. Ter a dieta mediterrânica, tu dizes 80% é boa, sim. Em 2015 fez-se este estudo, mais de 80% da população portuguesa não pratica esta dieta. Deixámos de comer feijão, leguminosas, hortícolas.
Dizem sempre que é pesado. E a verdade é que esta questão da sopa também é uma realidade que eu muitas vezes até acho piada quando as pessoas me dizem. Agora nesta fase do ano, então sopa? Sopa só no inverno.
Exato. Dizem que é calor agora.
Então não comem pratos quentes durante o verão? A sopa não comem, como não?
Só tem que ser gazpacho e vichyssoise.
Portanto, é incrível porque a sopa já está a começar a ser deixada de lado.
E tem muitos legumes. Eu gosto de experimentar e usar legumes variados.
E da sociedade, porque é líquido, no início da refeição.
É verdade.
Mas a verdade é que nós estamos a perder muito esse hábito. E em relação a levar as crianças a preparar refeições, também significa que é termos a consciência de uma coisa que eu acho que nós não estamos a ter consciência. Que é a família já não prepara as refeições, compra refeições, ou então se a família prepara as refeições em casa, a maioria, diria eu atrevidamente, as crianças não fazem parte desta dinâmica porque estão em atividades extracurriculares, estão a estudar, não veem. O que estamos é a deixar de passar de geração em geração, o saber cozinhar. Nós não estamos a passar para os mais pequenos aquilo que são as práticas gastronômicas.
O saber fazer.
Não sabem fazer uma caldeirada, não sabem fazer uma feijoada.
Desossar uma carne ou um peixe.
Não sabem cozinhar porque não veem cozinhar. E isso eu acho que nós estamos um bocadinho absorvidos com as rotinas e com as corridas de rotina em rotina.
E esses saberes fazer básicos estão se a perder por causa disso.
Estão. Portanto, a dieta mediterrânica, das duas uma: ou a compramos ou já ninguém vai saber fazer a dieta mediterrânica. Preparação culinária mediterrânica.
É muito importante essa coisa que tu dizes também das mensagens positivas, que tu deixas sempre e é muito bom. Estas coisas de, por exemplo, agora estou a pensar, do melhor alimento é aquele que não tem rótulo Ou não comer nada que não pudesse estar na despensa da avó. Isto era o que dizia o Michael Pollan.
Exato, jornalista americano.
No primeiro livro tu mencionas isto. Não comer nada que não pudesse estar na despensa da avó. Ou o melhor alimento é aquilo que não tem rótulo. Isto é até certo ponto. Aquela coisa de antigamente que os ingredientes eram bons, não é bem assim.
Sim, e obviamente nós temos alimentos com rótulos tais processados que são uma oportunidade. A indústria alimentar tem tido um grande desenvolvimento também para dar resposta a necessidades, a desafios, a segurança alimentar, a dar resposta a deficiências e a carências que temos. Portanto, obviamente que há produtos com rótulos que são muitíssimo interessantes. Quando eu digo isso, obviamente estou a enfatizar que na maioria das vezes os que não têm rótulos, que são os produtos frescos, e estou-me a referir àqueles que em Portugal são consumidos em baixa quantidade. Nós temos grande parte da população a não consumir as 400 gramas de hortícolas por dia. Mais de metade da população portuguesa não faz esse consumo. Estamos a falar em metade do prato, ou em hortícolas ao almoço e ao jantar.
Como tu dizem I ou T.
Não é folha de alface. E portanto, os frescos são exatamente esses. Quando nós temos em Portugal um problema do consumo excessivo de sal, temos o problema da hipertensão, temos o problema das doenças cardiovasculares ou dos AVCs. E depois estamos só a falar de sal. Se calhar convinha também explicar que ao comer mais alimentos desta área dos frescos e dos hortícolas, estamos a comer também fontes de potássio. E aquilo que mais afeta a pressão arterial é a razão sódio e potássio. Portanto, não é só nos preocuparmos com baixar o consumo de sal, mas também potenciar o consumo daquilo que são os fornecedores de potássio. Aliás, nós fizemos em 2019 um projeto chamado Menos Sal Portugal, que provavelmente talvez muita gente ainda se lembrará, em que fizemos exatamente um estudo de intervenção com voluntários em que nós monitorizávamos as compras. A ida ao supermercado tinha nutricionistas a dar apoio na lista, a explicar o que era a rotulagem em termos de sal, em termos de produtos frescos para aumentar o consumo de potássio. E depois tínhamos o apoio na consulta. E a verdade é que nós, ao fim de 12 semanas de intervenção, tivemos uma alteração da pressão arterial bastante expressiva e as pessoas perceberam o que é que tinham que fazer, porque as pessoas não sabem e portanto não mudam comportamentos quando não os compreendem.
Também no teu livro diz isso, a importância do testemunho, do exemplo.
Dar o exemplo é fundamental.
Não só falar num congresso, é dar o exemplo. Tu dizes em termos de recomendação, a tua prioridade é zero açúcar. Dantes, um iogurte de morango tinha 5 gramas de açúcar, 5% de açúcar. Aqueles 5 gramas por 100 gramas. Atualmente, o mesmo produto leva 12 a 15% de açúcar ou 4% a 5% de adoçante. Mesmo ao longo do tempo, numa geração.
Na minha infância, nos anos 70, 80, um iogurte de morango não tinha essa quantidade de doce. Hoje em dia é muito doce.
É para fidelizar, obrigar as pessoas.
A exigência do consumidor está maior. E portanto, quando tiram o açúcar, têm que pôr adoçante. É que a exigência do consumidor é muito maior.
Despertar ou o que for assim.
Portanto, na realidade, a indústria, a oferta é feita pela procura. Aliás, quando veio a legislação para as bebidas, para o açúcar nas bebidas, estava-se mesmo a ver que aquilo que ia acontecer era substituir por adoçantes. Ainda bem que a indústria foi reduzindo parcialmente e devagar.
Com o Francisco Goyana da Silva há uns anos. E depois fizeram outra que essa já não foi aprovada, mas a primeira ainda foi. As mesmas grandes marcas de bebidas, colas e coisas, tiveram que reduzir o seu teor.
Mas foi muito importante, porque obviamente tem que ser por lei.
Eu estava sempre a dizer isso. Nós temos de viver mais anos, mas eu queria dizer mais anos com qualidade de vida, com saúde. Mais anos, mas todos nos hospitais, cheios de doenças.
Sem dúvida. Aliás, o Francisco Goyana da Silva é nosso agora professor de política.
De políticas de saúde.
Lá na faculdade, na Nova Medical School.
Quando lançou essa, eu estava louco de alegria. Quando essa foi aprovada, a primeira lei, já faz uns anos, estava com o Araújo ainda no Secretariado da Saúde. E muito contente, porque isto é um grande avanço, as pessoas não têm noção. E depois ainda fizeram aquela segunda.
Sim, tentaram também fazer passar. Aliás, o Fernando Araújo, enquanto secretário de Estado adjunto da Saúde, fez muito.
Teve uma ação ótima nisso.
E provavelmente não teremos outros políticos iguais.
Exatamente, é complicado ter essa força. Como é que é a Ana e a Catarina em tua casa? Elas estão expostas aos influencers, aos TikToks, àquela coisa toda. Tu és tolerante com elas?
Não, eu tolerante tenho que ser. Aliás, acho que aos filhos, embora é sempre uma aprendizagem ser mãe. Mas aos filhos é simples, nós só temos a dar duas coisas: é disciplina e amor. E portanto, a comida nunca foi um tema. Claro que passou a ser um tema, mas nunca foi um tema, porque era eu que era a responsável pelas escolhas e portanto, era aquele o ambiente delas. Mas a verdade é que com todas estas influências, a verdade é que volta e meia já tenho que repor um bocadinho. Mas elas, por regra, e é curioso que quando ouço as minhas filhas falarem um pouco nas minhas costas, elas dizem mesmo: "A mãe faz tudo aquilo que diz". E portanto, isso já é um bom exemplo.
Sim, coerência.
E portanto, elas percebem a importância para se ter saúde naquilo que são os hábitos alimentares. E portanto, acho que a esse nível elas estão bem educadas.
Conceição Calhau, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Conceição Calhau. Ela é catedrática de bioquímica nutricional, que nos traz o seu segundo livro, "Engolir Sapos Engorda". Em que o peso das emoções na saúde e na balança, é o subtítulo. Ela alerta-nos para a importância das emoções quando se fala de comportamento alimentar e também do lado aditivo da comida. Uma coisa que tu falas, quando falas da tua vida um bocadinho, Conceição. O fato de seres mais ou menos magra desde sempre. Grande ginasta, fiz ginástica rítmica e tudo. Gosta muito, és uma pessoa muito ativa, faz os seus quilómetros todos os dias. Tinha passado também pelo ballet. Tu sofreste algum bullying nesse aspecto, não foi? Nesse aspecto da ruindade. Porque o povo diz isso, as pessoas magras é que são ruins. Tinha um amigo meu enfermeiro que hoje me disse: "Lá no Alentejo a gente dizia que és tão ruim que nem as doenças te agarram". Não sabia que havia esse costume, as pessoas muito magras é que são ruins, diz o povo.
Nada pega.
Nada pega. Era um bocado por isso?
Hoje em dia nós dizemos bullying. Naquela altura, ser magro não era tão diferente como é hoje.
Também há diferença entre ser magro e ser anoréxico, por exemplo, como aquelas modelos.
Era atleta, portanto anoréxica não tinha nada. A realidade dos anos 80 é muito diferente da realidade de hoje. Por exemplo, a minha filha mais velha, sim, lembro-me dela estar muito preocupada de ser magra por comparação com o resto.
Ela também é assim magrinha?
Muito magra. Ela é normoponderal, mas a verdade é que por comparação é capaz de sofrer um bocadinho. Hoje em dia já não, mas sofrer um bocadinho esse estigma. Agora, eu na altura acho que levei sempre tudo de uma forma muito leve. Olho para trás e sim, tive todos os nomes, desde oliva palito.
Tu não és esponja, não és das personalidades esponja, como tu dizes.
Não, isso não sou.
Deito-me aí para fora e vou correr.
Sim, vou dar a volta.
É mais a tua realidade.
Agora, na realidade-
Oliva palito é ótimo.
Eu tive muito mais pressão na vida adulta, principalmente porque o meu peso nunca variou e muitas vezes queriam me pôr uma doença da tiroide a todo o custo. Também queriam me pôr bicha solitária, que muitas vezes eu dizia: "A minha já deve estar acompanhada", porque viam-me a comer e nunca aumentava de peso. Agora, eu sempre tive rotinas. As pessoas veem que eu como bem, mas eu não tenho excessos e não sou obcecada com isso. Tenho a sorte, não sei se é sorte, se é o treino do organismo em que eu não sinto nenhum apelo a não ser de comer bem.
De comer doces, não, por exemplo, não vai.
Não. Aliás, com a menopausa, pode vir o dia em que realmente acorde com uma voracidade de açúcar ou que de repente fico mais volumosa.
Como as grávidas.
Mas a verdade é que eu ganhei aversão ao açúcar.
Que engraçado. Sorte.
Exato, eu acho que é de sorte.
Mas as pessoas não te dizem: "Não sabes o que perdes?". Não te chateiam com isso?
Não, agora sim. Agora piora o bullying. Agora sim é bullying.
"É o nata da manteigaria, meu Deus, é a coisa melhor que há".
Não, aliás, eu já ouvi quando eu digo: "Não como bolos". Como ainda disse há muito pouco tempo a alguém que eu disse: "Eu não como bolos". E a pessoa diz: "Mas não sabe o que são os prazeres da vida". E eu fico a achar que de fato prazer para mim na vida são outras coisas, não é propriamente um bolo. Mas invariavelmente nos jantares sociais há imensa pressão. Ou então agora dizem a piada: "Deixa-te de tretas e come pra frente".
Exato, claro.
Ou "estás de dieta?". Quando eu digo que à sobremesa quero uma peça de fruta. Mas isso também me leva a outra reflexão, que é essa pressão social em que nós estamos hoje a discutir a saúde, a discutir a importância da alimentação, a discutir a importância de ter saúde na longevidade, a discutir a importância das doenças de hoje que tanto pesam no custo e na eficácia do país. A dizer que as pessoas têm que comer melhor, mas depois não me deixam em paz. Quer dizer, já não é só a oferta que não é melhor, quando não dão exemplo. Ainda há muito pouco tempo, enviaram-me uma fotografia da Direção Geral de Saúde de uma sala onde estavam a servir uma refeição e aquilo tinha muito pouco de saudável e tinha a fotografia do cartaz da dieta mediterrânica na parede. Mas depois o croquete, o rissol, a coxinha de frango.
E a chamuça.
E a chamuça. Quer dizer, isto chama-se incoerência. Agora, pior do que isso, ou seja, se eu vou a um almoço desses, depois tenho dificuldade em saber o que isto tem de adequado para mim. Portanto, posso me sentir excluída. Mas ainda pior, que eu já ganhei mecanismos para esses momentos, é eu de fato estar na minha vida pessoal, que nada tem a ver com a profissão.
E as pessoas meterem-se como tu dizes.
E não me deixam em paz. E portanto, estão sempre a criticar tudo aquilo que eu como.
Não se vai dizer tanto a alimentação saudável, mas adequada.
E aí o saudável já tem alguma outra cara.
É muito giro tu dizeres isso. E no primeiro livro tu desmontavas o "é natural, é bio, é light". Desmontas um bocadinho esses mitos, é verdade. Hoje estamos a falar exatamente de outra coisa. Estamos a falar com a bioquímica. Portanto, é nesta questão do "Engolir de Sábio". O peso das emoções na saúde e na balança. É muito curioso, porque o que nos está a engordar e não fazemos ideia. Já está em segunda edição, se não me engano, o que também é muito bom sinal Ainda era com o Rui Couceiro como editor. Já tens há alguns anos isto preparado para sair. Sugeriste o título, foi a primeira coisa que te veio, "Engordar e Emagrecer". É uma ideia muito boa. E ele: "Então explica lá isso melhor".
Exatamente.
Levaste um tempo ainda a preparar isto. Tem este prefácio muito bom da Isaura Neto, psicoterapeuta e psiquiatra. Este livro já é escrito pela bioquímica e portanto é muito curioso, porque de facto as emoções são reações químicas. Também tivemos aqui o Nuno Malida a falar também da parte da química toda das emoções.
Exatamente.
Que é muito curioso. O estresse faz aumentar o peso. E eu adorei esta coisa que tu dizes, essas pequenas coisas do estresse do dia a dia que a gente tem, de termos que estar sempre ligados, o chefe manda fazer trabalho a mais e não vão pagar por isso. A questão do trânsito, este estresse, a sogra, o que for. E tu dizes: o nosso corpo-- isto é uma coisa que faz lembrar o nosso cérebro reptiliano. Isto é uma coisa que vem de sempre. O nosso corpo prepara-se para a luta na selva, digamos assim.
E para a fuga.
Para a fuga. E portanto, produz como é que é?
É o cortisol que sobe, mas depois vai haver uma subida do açúcar para dar resposta a uma necessidade.
Para aumentar a energia da pessoa, para se defender.
Exatamente.
É uma questão de sobrevivência.
O estresse é uma reação fisiológica do organismo para a luta e para a fuga.
É a base deste livro. E depois não acontece nada, não há luta.
São aquelas que eu chamo, e aliás, eu via muitas vezes isso nas consultas, em que em regra sim, eram as mulheres.
As mães.
As mulheres que tinham excesso de peso ou obesidade, tinham doenças autoimunes, tinham hipertensão, tinham diabetes, tinham já uma coleção do organismo a gritar. E elas continuavam em silêncio, mas em silêncio em que na consulta o que mais diziam era: "Eu não consigo fazer exercício físico porque tenho que cuidar da minha mãe. Eu não consigo fazer exercício porque o meu marido está a fazer o mestrado. Eu não consigo ter melhor alimentação porque tenho que ir buscar os filhos". Quer dizer, aquilo era tudo uma prioridade, menos elas. E depois via-se muito, eu não sou da área da saúde mental, mas também sabemos que em Portugal temos muita obesidade, mas também temos muitos problemas de saúde mental, muitos números assustadores disso e do sono. E portanto, nós temos sempre estas notícias a acontecerem, mas temos é que as ligar. Está tudo ligado umas coisas às outras. Portanto, as pessoas estão a perceber.
Não são áreas separadas.
Não, as pessoas andam ansiosas, andam deprimidas.
Falamos da obesidade. A obesidade é uma toxicomania, é uma dependência.
É só o corpo a manifestar que está em serviços mínimos, está em reserva porque não sabe o que é que vai acontecer no dia a seguir. Portanto, estão em estado de alerta. E aqueles organismos estavam claramente em estado de alerta há muito tempo. E portanto, são aquelas pessoas que na consulta, eu, em regra, diria que 90% das vezes, para não dizer 100% das vezes, pedia para fazerem psicoterapia, para irem a uma consulta, porque não sou eu que vou estar até porque a estar a dizer: "Bom, mas a sua compulsão do chocolate à noite não vai poder". Isso era para aumentar a culpa. E a culpa só é uma coisa que nos faz mal. E portanto, comer com culpa, eu às vezes até digo a brincar quando alguém numa festa diz: "Ah, vou comer não sei o quê", a pedir-me quase que autorização.
Exato.
Eu digo: "Coma, mas sem culpa". Eu digo aquilo a brincar, mas estou a dizer a sério. Porque quando comemos, devemos comer sem culpa. Porque quando estamos a ativar esses mecanismos, estamos a dar outra prioridade e outra mensagem ao organismo. E portanto, eu só iria aumentar a culpa destas mulheres que não estão a conseguir fazer exercício físico, que não estão a conseguir melhorar a alimentação e portanto, sairiam da consulta com uma série de recados, quase de reprovação, só sairiam pior. E portanto, a primeira coisa que eu lhes digo, aliás, muitas vezes diziam: "Ah, mas me inscrevi no ginásio e estou a tentar ir". Eu normalmente dizia assim: "Então o melhor é desinscrever-se, porque vai poupar dinheiro, não vai ter todos os dias que se culpar porque não conseguiu ir. E vai devagarinho começar a aumentar a sua atividade física para se sentir depois mais capaz de um compromisso maior".
Dar uma volta ao jardim do seu prédio.
Exatamente. Mas a culpa é uma coisa que faz muito mal à saúde.
Como o medo, trava-nos.
Aliás, também um pouco para dar resposta a esta questão da obesidade, que muitas vezes ainda ouvimos, infelizmente, que é fecha a boca e mexa-se, culpabilizando as pessoas de terem esta doença. É uma doença que para a prevenção é muito importante fazer atividade física, ter uma alimentação adequada, mas quando temos a doença, nós temos que usar muitas outras estratégias e nunca essa, porque essa é só um absurdo, até do ponto de vista bioquímico. Eu consigo transformar aquilo que está em excesso em gordura, eu não vou conseguir transformar a gordura em dissipar calor quando quero. Quer dizer, nem é com a fome, nem é fechando a boca, nem é um jejum.
Mastiga as emoções, que é menos calórico. Mastiga as emoções em vez de comer.
Exatamente, agora sim, e dar uma volta. Agora sim, a questão de sabermos gerir, por isso é que muitas vezes quando falamos dos números da saúde, dizemos que é zero, e zero tabaco, zero álcool, que também podemos dizer, o número cinco, que é o cinco porções de hortofrutícolas por dia. Depois 10 e é 10 minutos de meditação. Claro que a nossa sociedade ocidental não tem esta tradição. Vai tendo, mas na verdade isto significa a importância que tem gerir o estresse. É termos 10 minutos conosco próprios, com uma paz interior.
Mas isso pode ser quando se está a conduzir, por exemplo? Não é preciso parar num parque.
Eu acho que é muito importante esta gestão do eu. Que aliás, há sempre uma gestão de tudo, menos do eu. E o eu não pode ser influenciado pelo resto, que o resto nós não conseguimos mudar.
Exato.
Mas esta questão de alertar para o número 10, como os 10 minutos de meditação, e que pode ser no fundo o alerta que nós devemos retirar para a importância de gestão de estresse, é fundamental para a saúde. Depois é o 30, que é o índice de massa corporal abaixo de 30 e os 150 minutos de exercício físico vigoroso por semana. São os números mágicos de saúde.
Incrível. É curioso dizeres isso, porque estamos aqui nesta questão do estresse, por tudo que nos acontece, produz-se esta glicemia, este açúcar. Depois, afinal, não acontece nada, nós guardamos, calamos cá dentro, o que é péssimo, e então isso transforma-se em gordura.
É um mecanismo de sobrevivência da espécie.
E por isso aumenta a adiposidade. Por isso é que a gente diz que "inglês sabe se engorda". No fundo, a ideia é essa.
Exatamente, é isso. E também, obviamente, é eu não ter outras salas onde acumular nada, que é não ter massa muscular. O não ter atividade física ou não fazer exercício físico, nós não podemos esquecer que a função faz o órgão. E se não uso o músculo, ele perde-se. Se ele se perde, eu deixei de ter aberta uma sala onde poderia direcionar a minha energia. A sala está fechada, eu então tenho que guardar.
É a questão do metro.
Exatamente, as linhas de metro estão fechadas.
Não há maneira de ir, temos que andar às voltas. É muito mais difícil chegar lá, porque não temos aquilo sempre em utilização nas várias linhas, o que é muito importante. Portanto, o peso não aumenta só com a ingestão de comida, mas por esta interação entre o metabolismo, as emoções, o estilo de vida, a forma como o corpo gere e armazena a energia. O António Vieira Costa tinha razão, o corpo é que paga.
Exatamente, quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que te paga.
É muito interessante porque é esta ideia que tu dás. As pessoas vão dar uma volta. E de facto há as personalidades esponja, como tu dizes. A comida e o açúcar tu dizes que precisam ser entendidas como uma toxicodependência de dopamina. Não são só a comida e o sedentarismo que aumentam os quilos na balança. Comer pouco e mal também pode engordar.
Sem dúvida nenhuma, porque o corpo entra em serviços mínimos, ou seja, começamos a baixar a taxa de metabolismo. Quando as pessoas dizem: "Eu como a mesma coisa e agora aumento mais de peso, engordo mais". A taxa de metabolismo. Eu também costumo muitas vezes dar o exemplo, o carro que gastava 12 litros aos 100, agora está a gastar três. Na verdade, tornou-se mais poupadinho. Come e em vez de ter 10 salas para distribuir a comida, só tem uma. E portanto, essa questão de passar fome, de ter comportamentos erráticos. Normalmente, na consulta é uma das perguntas que se faz quando a questão é a gestão de peso, é quantas dietas já fez. Porque quem chega naïve, é uma coisa, quem chega com 10, 30.
Exato. A dieta do gelo e a dieta carnívora.
Já viciou o jogo e já é um organismo que está surdo e mudo para que não há mais estragos. Hoje há comida, amanhã não há comida. Hoje há comida assim, amanhã a comida já é outra coisa.
O jejum intermitente. Há muitos enganos com isto também, não é?
Sim, porque o jejum intermitente, que surge com o Prêmio Nobel da Medicina em 2017, a verdade é que veio dizer uma coisa extremamente importante. Nós somos animais de dia, obviamente já sabemos, mas veio explicar que as células também têm relógios, que também respondem à luz do dia. E a entrada de comida quando a luz está apagada, significa que se vai acender a luz e vai estar tudo em esforço. Nós precisamos da pausa alimentar noturna para poder fazer a limpeza, para fazer o reset.
Sim, muita gente diz que salta o pequeno-almoço.
Obviamente, quando se fala na importância de fazer uma pausa alimentar noturna de 10 a 12 horas, não é propriamente eu jantar às 10 da noite e depois almoçar ao meio-dia. Isso é tentar enganar o organismo. O organismo não se deixa enganar. Muitas vezes, sim, há perda de peso, mas à custa da perda de massa muscular.
Tu diz sempre é durante o dia que a pessoa deve comer e não ter a maior refeição, como muitas vezes fazemos, ao jantar. Aí já devia ser uma coisa mais suave e uma ceiazinha antes de deitar, à 01:00 ou à meia-noite.
Com certeza, até porque a fome emocional está muito mais agudizada nessas situações. A pessoa chega desconsolada, com uma voracidade noturna, porque não comeu durante o dia, saltou o pequeno-almoço, come uma salada e depois tudo aquilo que come à noite vai ser convertido em colesterol e em gordura.
Exatamente. Tu dizes também: "Só de olhar engorda". Isto, como tu dizes, não engorda no sentido calórico, mas favorece a reserva de gordura.
É a parte emocional. Ou seja, quando alguém olha para um bolo, por exemplo, a bola de Berlim, e fica ali a salivar. Se está a salivar, está-se a preparar para a bola de Berlim entrar. O aparelho digestivo foi preparado para o cérebro também. O cérebro acontece exatamente a mesma coisa. Está a dar a instrução de que isto vai entrar, o que significa que da próxima vez vai mesmo priorizar a acumulação de gordura, porque está esta informação. Se olha para a bola Berlim e é completamente indiferente, a pessoa está curada. Essa que é normalmente eu na consulta quando dizem assim: "Portei-me lindamente, vi passar a bola de Berlim na praia e não comi". Ora, isto já significa que ainda está com uma ligação emocional à bola Berlim. Senão a bola Berlim teria passado e nem tinha dado conta, nem era um tema.
É engraçado, porque este livro fiquei com a ideia que isto nasce imenso da tua experiência clínica.
Sim.
Vem muito das consultas.
Sim, e a vontade de querer ajudar.
A gente identifica-se, porque há muitos casos aqui que nos revemos.
E de querer ajudar a saúde no feminino. A saúde no feminino também me toca bastante, principalmente porque as mulheres são quase que só uma linha tracejada. É a menarca, a primeira vez que é menstruada, depois os ciclos menstruais, depois as gravidezes, depois a menopausa. A nossa saúde é contínua, é uma linha contínua, não é tracejada. E que temos que caminhar para uma prova de esforço, temos que nos preparar. A menopausa é quase como se nos estivessem a atirar do avião, já sabemos que vamos cair, temos que ter paraquedas.
Mas essa diminuição, por exemplo, das hormonas, começa antes.
Eu aqui também explico que toda essa alteração não é do 100 pro zero.
Exato.
E portanto, de facto, cada vez mais a ciência tem mostrado a necessidade de atenuar as trajetórias. Isso é muito importante. Agora, obviamente, que aquilo que acontece ao metabolismo vai tendo estas nuances, mas eu tenho é que me preparar mais, tenho que me esforçar mais, tenho que fazer mais exercício físico, tenho que, se calhar, ser mais cuidadosa com a alimentação.
Sobretudo, não perder a massa muscular, tu falas muito nisso. É uma coisa que vai acontecer com a idade. Portanto, façam exercício, não deixem perder, porque a massa muscular é que nos aguenta com mais saúde na longevidade.
Exatamente. É o melhor marcador de longevidade. Se me perguntarem qual é que é a preocupação, é a atividade física e até podíamos esperar que fosse a alimentação. Que se eu tiver uma vida com atividade física e com exercício, de certeza que a saciedade está muitíssimo mais equilibrada. Vou ter sono porque me cansei fisicamente A autoestima melhora e vou ter mais cuidado com a alimentação. É preferível começar por aí.
A questão das mulheres também é muito importante e nunca tinha pensado nisso. Quatro em cada cinco pessoas com doenças autoimunes são mulheres, que aparece isso. Às vezes a idade até é mais tardia do que o normal. Mas tu dizes que tudo nos acontece. Por exemplo, na gestação, acontece-nos também porque para não rejeitar um corpo que não somos nós, o corpo é preparado para isso.
Sim, a mulher imunologicamente é diferente. Também não sabemos muito bem, mas sabemos que a ciência nos mostra que as mulheres estão sempre mais inflamadas, portanto se calhar são aquelas que estão habituadas a estar em estado de alerta e mais receosas. A verdade é que se houver mais inflamação, o sistema imunitário está diferente ou tem uma suscetibilidade diferente e portanto as doenças autoimunes são cada vez mais prevalentes. Também tem muito a ver com o intestino. A questão de ser muito mais frequente nós termos má digestão, termos aquelas queixas intestinais. Temos mais de três milhões de portugueses com dificuldades digestivas e com o intestino irritável.
Exatamente. Síndrome do intestino irritável.
Isso também significa que não andamos a cuidar destes micro-organismos que temos dentro de nós e isto é tudo reflexo disso.
E há outras coisas que vais montando. Os alimentos saudáveis também engordam. Uma dieta vegetariana só por si também pode engordar. Não quer dizer necessariamente que a pessoa emagreça porque é vegetariana, por exemplo.
Isso do vegetariano é logo em si mesmo um tema, porque a verdade é que eu posso ter um prato com batata frita e croquetes de arroz ou croquete de feijão e umas natas de soja e aquilo tem muito pouco de adequado. Não é o facto de ser um prato sem elementos de origem animal que me diz ou que me dá a garantia de ser saudável, da mesma forma que o facto de ser omnívoro também não me dá a garantia de ser saudável. Eu tenho que ver exatamente quais são os comportamentos alimentares, as rotinas, o estilo de vida e saber se aquilo é o mais adequado para aquela pessoa.
É a medicina dos quatro P's: predizer, preventiva, personalizada e participada.
Exatamente.
Dá para tirar algumas dicas extraordinárias. Nós não temos mais tempo, mas queria falar deste desafio dos 60 alimentos vegetais diferentes por semana, que é extraordinário, que tu lanças. A questão da importância de comer leguminosas e hortícolas. Variar. Há este estigma de que é comida de pobre, os legumes.
As leguminosas, o feijão e o grão.
É comida de pobre, é muito pesada. E portanto fomos perder aquela capacidade enzimática para processar também. É muito importante variar os vegetais, os verdes que pomos nos pratos.
Sim, mas a questão de perdermos a capacidade enzimática tem a ver com as bactérias que nós temos no intestino.
O bicho, a microbiota.
O bicho que vai se alimentando dessa fibra. Se eu deixo de dar de comer aos animais de estimação, eles não estão lá. Eu quando começo a manifestar queixas de quando como feijão já não sou tolerante, é porque eu fui perdendo esses animais de estimação. E eu tenho é que reequilibrar o intestino para depois poder voltar a comer esses alimentos.
Não alimentamos bem os animais que temos dentro de nós. Estamos a falar da microbiota. Nós temos 10 vezes mais células de origem microbiana do que humana.
É verdade.
Um a dois quilos do nosso peso são de bicharada, 4% da nossa massa. E nunca existiu um ser humano estéril. Também temos esse estigma.
A vida intrauterina.
É um bicho mau. Tudo o que é bicho é mau. Não é verdade.
Isso do bicho mau, nós temos muito esse reflexo do século passado. A medicina evoluiu muito do século passado para este século, e por isso também conquistamos mais anos com o aparecimento das vacinas e dos antibióticos. De facto, as doenças que mais matavam eram as infecciosas, vêm os antibióticos, vêm as vacinas e vem muito ainda uma ideia no virar do século, que todo o bicho é mau. Todo o agente infeccioso. Na realidade, o agente infeccioso será mau, mas a verdade é que fomos negligenciando este ecossistema que nos permitiu evoluir enquanto espécie humana e que nos esquecemos dele, não o tratamos bem. E agora está o intestino a gritar, já dá sinal de que há qualquer coisa que não está bem.
Muito bem, Conceição Calhau, quero agradecer muito a tua passagem aqui mais uma vez pelo "Convidado VIP". Vais voltar, continua a escrever, tu escreves bem.
Estou impressionada, porque fez muito bem o trabalho de casa.
É o meu papel aqui também, mas é com muito gosto, porque isto de facto é muito importante, os seus espectáculos tiveram tanto sucesso como teve o das Treta. "Engolir sapos engorda", então já sabe, uma edição da Contraponto, da Conceição Calhau, catedrática de bioquímica nutricional na Nova Medical School. Muito obrigado, Conceição.
Muito obrigada.
Estamos à espera da próxima ação para tu voltares com o novo livro. Muito obrigado. Bem-hajas.