Diga-lhe uma data e ele consegue recordar o que fez nesse dia: jovem consegue “viajar” pelo próprio passado

Para a maioria das pessoas, tentar reconstruir aquilo que aconteceu numa terça-feira escolhida ao acaso há vários anos seria praticamente impossível. Talvez se lembrem de um aniversário, de umas férias ou de um acontecimento particularmente marcante. Mas dificilmente saberiam dizer onde estavam, o que fizeram ou que notícia dominava esse dia.

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Para um adolescente de 16 anos conhecido apenas pelas iniciais KCL, o passado funciona de maneira muito diferente.

Deem-lhe uma data e ele consegue, muitas vezes, regressar mentalmente àquele dia, recuperar acontecimentos pessoais e associá-los ao que se passava no mundo.

Os investigadores descrevem esta capacidade como uma espécie de “viagem mental no tempo”.

Segundo o ‘Daily Mail’, o adolescente apresenta uma forma extremamente rara de memória conhecida como memória autobiográfica altamente superior, ou HSAM, na sigla inglesa. Os cientistas acreditam que existam menos de uma centena de pessoas identificadas em todo o mundo com esta capacidade.

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E o caso de KCL é ainda mais extraordinário pela idade em que as suas memórias parecem começar.

As primeiras recordações remontam aos três meses

De acordo com os investigadores, KCL relata as primeiras memórias aos três meses.

Por volta dos três anos, já teria desenvolvido aquilo que os cientistas descrevem como uma “experiência autobiográfica consciente e contínua”.

Ou seja, em vez das recordações fragmentadas que caracterizam normalmente os primeiros anos de vida, o adolescente descreve uma continuidade muito mais extensa da própria história pessoal.

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Os investigadores consideram que a capacidade de KCL para recordar acontecimentos autobiográficos o coloca acima de 99% da população.

Mas decidiram submetê-lo a testes mais objetivos.

E foi aí que os números começaram a revelar a dimensão da diferença.

Escolheram datas ao acaso

Num dos testes, KCL e um grupo de adultos receberam 15 acontecimentos públicos e tiveram de indicar a data exata e o respetivo dia da semana.

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Um dos exemplos era a conquista da medalha de ouro olímpica na escalada de velocidade pela polaca Aleksandra Mirosław.

Depois, o exercício foi invertido.

Os participantes receberam 15 datas aleatórias e tiveram de identificar um acontecimento público importante ocorrido em cada uma delas.

Num terceiro teste, foram apresentadas dez datas escolhidas ao acaso. Desta vez, era necessário indicar o dia da semana, recordar uma notícia daquele período e recuperar uma memória pessoal específica desse mesmo dia.

Nos testes relativos a acontecimentos públicos, KCL respondeu corretamente em 51% dos casos.

O grupo de comparação ficou nos 20%.

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Mas foi quando os investigadores entraram na vida pessoal do adolescente que a diferença se tornou muito maior.

83% de precisão para memórias pessoais

Perante datas aleatórias, KCL conseguiu recuperar acontecimentos da própria vida com uma precisão de 83%.

A média do grupo de comparação foi de apenas 28,75%.

Seria tentador concluir que o cérebro do adolescente possui uma capacidade geral de memória muito superior à normal.

Mas foi precisamente aí que os investigadores encontraram uma das partes mais intrigantes do caso.

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Fora da memória autobiográfica, KCL não parece particularmente extraordinário.

Não utiliza técnicas especiais para memorizar informação. Os pais não relataram anomalias no desenvolvimento físico ou psicológico. A atenção, memória de trabalho e funções executivas apresentaram-se dentro de parâmetros considerados relativamente normais.

Os investigadores escrevem no estudo, publicado na revista científica Cortex, que as pessoas com HSAM não parecem ser “super-heróis cognitivos”.

Na aprendizagem de informação quotidiana ou na memorização de números, por exemplo, podem ser bastante semelhantes ao resto da população.

Então o que acontece no cérebro de alguém que parece ter acesso a quase toda a própria vida?

Um cheiro pode fazê-lo regressar imediatamente ao passado

A diferença poderá não estar tanto na forma como as memórias são armazenadas, mas na facilidade com que são recuperadas.

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KCL contou aos investigadores que estímulos aparentemente insignificantes podem desencadear recordações.

Um cheiro.

Um pequeno excerto de uma música.

Uma determinada frase.

E, subitamente, uma memória pessoal aparece.

O adolescente afirma passar várias horas por dia mergulhado em recordações do passado, muitas das quais surgem sem que tente conscientemente procurá-las.

Os cientistas quiseram testar esse fenómeno.

Colocaram KCL diante de um computador, onde tinha apenas de acompanhar determinados padrões apresentados no ecrã. Periodicamente, interrompiam a tarefa e perguntavam-lhe em que estava a pensar naquele preciso momento.

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O resultado revelou níveis “acentuadamente elevados” de memórias autobiográficas involuntárias.

Mesmo enquanto executava uma tarefa banal, o passado continuava a aparecer.

A memória extraordinária pode não ser totalmente voluntária

Esta característica já tinha sido observada noutras pessoas com HSAM.

Em 2006, cientistas descreveram o caso de uma mulher que era constantemente atingida por memórias do passado que surgiam de forma “ininterrupta, incontrolável e automática”.

É uma pista importante.

Aquilo que parece, visto de fora, uma capacidade extraordinária de procurar uma memória pode funcionar parcialmente ao contrário: as memórias é que encontram a pessoa.

Krystian Barzykowski, da Universidade Grenoble Alpes e principal autor do estudo, considera que KCL apresenta uma sensibilidade particularmente elevada às sensações que normalmente funcionam como pistas para recuperar memórias.

Seria como se esses sinais estivessem amplificados.

Um estímulo que na maioria das pessoas não produziria qualquer efeito consciente pode, no adolescente, abrir imediatamente uma porta para determinado momento do passado.

Foi o próprio adolescente que procurou os cientistas

Há ainda um detalhe invulgar na história. Os investigadores não encontraram KCL durante uma procura por pessoas com memória excecional.

Foi ele que os encontrou. Em janeiro de 2025, Barzykowski recebeu um email de um adolescente que tinha percebido que a sua memória não funcionava como a das outras pessoas.

KCL queria saber se aquilo que conseguia fazer justificava uma investigação científica. Depois de um primeiro encontro, o investigador percebeu rapidamente que sim.

Os testes que se seguiram acabariam por documentar uma capacidade que permite ao adolescente regressar mentalmente a acontecimentos ocorridos desde uma idade invulgarmente precoce.

Mas talvez a descoberta mais interessante seja que o seu cérebro não parece simplesmente “guardar mais” do que os outros. Pode ser muito melhor a encontrar as portas de entrada.

Para a maioria de nós, grande parte da vida acaba progressivamente escondida atrás de uma memória que já não sabemos como alcançar.

Para KCL, basta por vezes uma música, um cheiro, uma frase — ou simplesmente uma data no calendário — para a porta voltar a abrir-se.