El Niño contribui para aumento de 55% na insegurança alimentar em Moçambique

Uma análise técnica de organizações moçambicanas e internacionais estima que a insegurança alimentar em Moçambique aumentou 55% até março, para 1,84 milhões de pessoas, devido ao conflito no norte, ao El Niño e esgotamento das reservas alimentares.

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A previsão resulta de uma análise da Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC), coordenada pelo Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional (SETSAN), divulgada hoje, que aponta para um agravamento face aos atuais 1,19 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda.

No período projetado, entre outubro de 2026 e março de 2027, tradicionalmente a época de escassez alimentar em Moçambique, cerca de 254 mil pessoas deverão encontrar-se em situação de Emergência alimentar (Fase 4), face às atuais 81 mil, enquanto 1,58 milhões estarão em situação de Crise (Fase 3), segundo o relatório.

“Espera-se que o número de pessoas que necessitarão de intervenção urgente aumente para cerca de 1,84 milhões, das quais 254.000 estão na Fase 4 (Emergência)”, refere-se no documento.

Segundo a análise, esta deterioração poderá resultar “do esgotamento das reservas alimentares, impacto dos conflitos armados na zona norte do País, bem como dos efeitos esperados do Fenómeno El Niño nas zonas sul e centro” de Moçambique.

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“Prevê-se uma deterioração da insegurança alimentar aguda nos distritos analisados”, acrescenta-se.

A análise abrangeu 46 distritos considerados entre os mais afetados por choques registados entre outubro de 2025 e junho de 2026, incluindo cheias, inundações, efeitos do ciclone Gezani e impactos do conflito armado em Cabo Delgado. Os analistas alertam que a insegurança alimentar deverá agravar-se sobretudo em distritos afetados pelo conflito em Cabo Delgado e partes de Nampula, bem como em zonas áridas e semiáridas do centro e sul do país vulneráveis ao fenómeno climático El Niño.

Na análise refere-se ainda que existe uma probabilidade de 89% de ocorrência do El Niño até janeiro de 2027, cenário associado a precipitação abaixo da média nas regiões sul e centro, temperaturas acima do normal e riscos acrescidos para a produção agrícola.

Além dos fatores climáticos e de segurança, no documento aponta-se para o impacto do aumento dos preços dos combustíveis, da inflação e dos custos de transporte sobre o acesso das famílias aos alimentos. Em maio, os preços do milho no sul do país encontravam-se entre 25% e 60% acima da média dos últimos cinco anos, enquanto os do arroz estavam entre 20% e 40% acima da média histórica.

Destaca-se igualmente que a inflação anual aumentou de 4,4% em abril para 7,5% em junho de 2026, a taxa mais elevada desde maio de 2023.

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Na componente nutricional, no relatório estima-se que cerca de 103.617 crianças entre os 6 e os 59 meses de idade e 11.131 mulheres grávidas ou lactantes venham a sofrer de desnutrição aguda nos próximos 12 meses, necessitando de tratamento.

Segundo dados citados no relatório, mais de 27 mil pessoas foram deslocadas entre abril e junho de 2026 devido a ataques de grupos armados em Cabo Delgado, particularmente nos distritos de Ancuabe, Montepuez e Chiúre, situação que continua a dificultar o acesso aos mercados, aos meios de subsistência e à assistência humanitária.