Nuno Crato: "A formação de professores peca por muitos problemas" - 24 Notícias

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Há um ano, numa entrevista ao 24notícias, o ex-ministro da Educação Nuno Crato afirmava que "os nossos jovens de 15 anos sabem tanto hoje como os jovens de 13 anos de há sete ou oito anos."

O Programme for International Student Assessment (PISA), ou Programa Internacional de Avaliação de Alunos veio confirmar as piores suspeitas e os resultados caíram a todos os níveis: ciências, leitura e matemática.

"Esta tendência é particularmente preocupante porque as competências de leitura sustentam a aprendizagem em todo o currículo e são essenciais para encontrar, avaliar, interpretar e reflectir sobre informação num mundo cada vez mais digital", sublinha no relatório Andreas Schleicher, diretor de Educação e Competências e conselheiro especial para as Políticas Educativas do secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Portugal regride duas décadas e volta ao piores resultados de sempre: desde 2015 cai 36 pontos na leitura, 32 na matemática e 19 em ciências. Para Nuno Crato só há um caminho a seguir e volta a explicar ao 24notícias qual é.

Os resultados do PISA saíram. Para onde devíamos estar a olhar?

Devíamos olhar para a evolução global. E a evolução global mostra-nos claramente dois momentos: um de subida e um de descida. Que não estão necessariamente associados a partidos: no momento de subida tivermos tanto o PS como o PSD no poder, concentrados naquilo que são os temas fundamentais. No período de descida tivemos o Partido Socialista, mas também uma coligação de geringonça com outros partidos. Portanto, não tem a ver com partidos.

Tem a ver com quê, então?

Tem a ver com política públicas. E a política pública até 2015 foi uma, de 2016 para cá foi outra. Devíamos olhar para esses grandes dados, que não podem deixar de nos chocar. Por muito que digamos que peca por esta ou aquela representação, que existe esta ou aquela influência. A grande tendência é claramente esta e deve fazer-nos pensar que alguma coisa fizemos bem até 2015 e alguma coisa fizemos mal desde 2016 até agora.

O que fizemos bem e estamos a fazer mal?

Na minha opinião são sobretudo três coisas: o currículo — era definido, era claro, era progressivo e era ambicioso até 2015; a avaliação — existiu progressivamente mais avaliação e em vários anos de escolaridade; o apoio cognitivo aos jovens com mais dificuldades — que só começou a ser posto em prática a partir de 2012, mas foi eficaz e que a partir de 2016 foi substituído por um apoio socioafetivo, que não é a mesma coisa e não funcionou.

Para dar um exemplo, melhorámos imenso em leitura até 2015 e agora voltámos a piorar. Porque ante tínhamos metas curriculares que iam ao ponto de referir qual o objetivo de velocidade e de fluência de leitura dos jovens. E esse objetivos foram retirados dos novos programas, das novas aprendizagens essenciais, que deviam ser revogadas rapidamente.

Estas são as três coisas que funcionaram no primeiro período de tempo e que não funcionaram — porque não existiram — no segundo período de tempo.

Onde é que a escola portuguesa está a falhar?

No foco, na atenção aos resultados, na exigência.

Uma das coisas que o PISA revela é que desceram os resultados dos alunos mais ricos e dos mais pobres. Todos precisam de explicações extra horário escolar, a diferença é que enquanto uns podem pagar, os outros não. Aparentemente, a escola não está a servir para ensinar. Devia haver um 'PISA' para professores?

Não sei. Mas devíamos dar mais atenção à formação de professores. A formação de professores peca por muitos problemas, só isso dava uma entrevista inteira.

Se o tempo na escola não está a ser convertido em aprendizagem...

De certeza que há professores que têm mais qualidade que outros. Esse é outro estudo que valeria a pena fazer. Não sei se seria possível fazer isso internacionalmente, mas há algumas coisas internacionais nesse sentido, como o Teaching and Learning International Survey (TALIS), também da OCDE, focado nas condições de trabalho e nos ambientes escolares dos professores e directores e que dá algumas indicações nesse sentido.

Deviam ser as escolas a contratar os seus professores?

Eu acho que sim, mas essa é outra discussão. Para tratar desse assunto com profundidade precisávamos de mais tempo.

É um defensor dos manuais escolares. Temos vindo a assistir à sua degradação?

Os manuais escolares seguem um currículo. E durante muito tempo tinham um processo de avaliação, que depois foi suspenso e esperemos que agora se retome. O problema é que se os manuais escolares seguem um mau currículo é muito difícil serem bons.

Mas aí está mais uma coisa bipartidária, como dizem os americanos, o processo de certificação foi instituído pela ministra Maria de Lurdes Rodrigues, seguido pela ministra Isabel Alçada e depois seguido por mim. Todos estivemos de acordo. Só que a certa altura, no período seguinte, os ministro suspenderam praticamente todas as certificações de manuais escolares, o que é negativo. A certificação é algo indispensável, mas baseada num bom currículo — certificar um mau currículo de pouco ou nada serve.

Há uma diferença grande entre aquilo que são as avaliações internas dos alunos e aquilo que são as avaliações internacionais. Dito pelos e dentro as notas são óptimas e elevadas, enquanto vistos lá por fora ficamos mal classificados. O que é que isto quer dizer?

Quer dizer que as avaliações nacionais não têm fiabilidade. Há muito tempo que isso se vê e devia ser corrigido, é uma das coisas fundamentais a corrigir na educação em Portugal.

Os resultados do PISA baixaram em Portugal e também em grande parte dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O que justifica esta descida colectiva?

Porque o ocidente, na sua maioria, adoptou um sistema de ensino que é pouco exigente, que tem métodos de ensino pouco eficazes. Se o faz, é natural que tudo esteja a baixar. Porque copiou a Finlândia, que há 30 anos era o melhor e que alguns responsáveis políticos da OCDE davam como grande exemplo, mesmo quando já estava a baixar os resultados — porque também mudou o seu sistema.

Sempre fui contra esse exemplo. Portugal esteve sempre a subir, mas nunca nos deram como exemplo. Bastou que começasse a baixar para nos apontarem. Mas isto são coisas que eu digo e ninguém vai perceber.

Quem são para si os melhores exemplos, Singapura?

Singapura, claro. Mas neste momento temos outro grande exemplo, que é a Inglaterra, que subiu imenso. Neste momento, a Inglaterra e a Estónia são os únicos dois países entre os dez melhores.

E o que caracteriza esses dois sistemas de ensino?

Currículo mais exigente, avaliação e métodos de ensino eficazes.

O caso de Inglaterra é notável, porque teve bons ministros, tanto trabalhistas como conservadores — Adonis [2005-2008] e Nick Gibb [2010-2023], o grande artífice desta subida. E teve também maus ministros, que seguiram as orientações laxistas, facilitistas, do ensino pela descoberta, combate à memorização, combate ao estudo, ensino centrado no aluno, que foram políticas muito prejudiciais.

Olhamos para Inglaterra e vemos que teve estas duas tensões e, face a esta política educativa que se sobrepôs, vemos que os resultados são muito positivos.

Sobre as boas práticas que devíamos adoptar, porque não o fazemos?

Porque há muitas resistências políticas, há muitas resistências sindicais, há muitas resistências ideológicas, há muitas resistências nas escolas superiores de educação. Há muitas resistências em várias áreas.

Há uma grande diferença entre os resultados das avaliações nacionais e as avaliações internacionais. Como se justifica?

Essa diferença quer dizer que as avaliações nacionais não têm fiabilidade, é o que isso quer dizer.

Os pais dos alunos deviam reagir a estes resultados? O que podem fazer?

O que os pais podem fazer é exigir mais rigor dos professores, exigir mais rigor do Ministério da Educação. Tal como a sociedade em geral. Através de reuniões, cartas às entidades responsáveis, idas à escola — em vez de ser para protestar porque. aluno teve nota baixa, protestar por o aluno não saber e não ter sido ensinado.

O que devia fazer o ministro da Educação, Fernando Alexandre?

Revogar as aprendizagens essenciais, reinstituir metas curriculares, reinstituir exames de avaliação fiáveis.

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