Talvez o algoritmo do Instagram esteja protegendo você das marcas. Pelo menos esse é o argumento de Adam Mosseri.
O chefe do Instagram afirmou que um feed em ordem cronológica acabaria dominado pelo conteúdo de empresas, deixando creators e, principalmente, amigos e familiares cada vez mais escondidos.
A declaração aparece dois dias depois de o governo australiano anunciar o plano “My Feed, My Way”, que pretende obrigar as redes sociais a perguntar aos usuários se preferem continuar recebendo recomendações algorítmicas ou ver, em ordem cronológica, apenas as contas que escolheram seguir.
A proposta não desliga o algoritmo de ninguém à força. Quer colocar a escolha na frente do usuário. Mosseri acha que a maioria vai preferir continuar como está.
Quem publica mais ganha
Segundo o executivo, apenas uma “minoria bastante vocal” deseja a volta do feed cronológico.
O problema, na visão dele, é matemático. Num sistema em que os posts aparecem simplesmente pela hora de publicação, a maneira mais eficiente de conquistar espaço é publicar mais vezes. E aí existe uma hierarquia previsível: empresas conseguem publicar mais que creators; creators publicam mais que seus amigos.
A consequência, segundo Mosseri, seria um feed cheio de conteúdo de marcas, com amigos e creators afogados pelo volume. O interesse pela plataforma cairia, as pessoas passariam menos tempo no aplicativo e, no fim, haveria menos alcance para todo mundo.
É uma defesa curiosa para uma rede social financiada por publicidade. O argumento não trata dos anúncios pagos, claro, mas dos posts orgânicos das marcas que o próprio usuário decidiu acompanhar.
Na versão de Mosseri, uma das funções do algoritmo é justamente impedir que quem fala mais alto ocupe toda a sala.
A caixa-preta que sabe o que você quer
O Instagram abandonou o feed puramente cronológico em 2016, uma decisão que passou anos tentando explicar e ajustar. Em 2018, o B9 já acompanhava uma tentativa da plataforma de devolver algum peso às publicações mais recentes. Desde então, a recomendação algorítmica só ganhou importância.
Quando o Instagram chegou a 3 bilhões de usuários em 2025, Mosseri apontou Reels, mensagens e recomendações como os principais motores de crescimento e anunciou ferramentas para que cada pessoa pudesse adicionar ou retirar assuntos e “treinar” um pouco melhor aquilo que recebe.
Esse continua sendo o caminho preferido da plataforma: dar controles sobre o algoritmo sem abrir mão dele.
Mosseri reconhece que existe motivo para a desconfiança. Disse que o ranking ainda parece uma “caixa-preta” e admitiu uma limitação especialmente interessante: o Instagram tende a supervalorizar aquilo que consegue medir e subestimar comportamentos mais difíceis de quantificar.
A empresa lançou justamente na Austrália a série Algo Confessions, na qual celebridades e creators explicam como as recomendações são construídas e como usuários podem ajustar seus interesses.
Transparência em formato de campanha, porque até explicar o mecanismo precisa alimentar o mecanismo.
A briga é também pelo padrão
A discussão australiana mexe num ponto mais delicado que simplesmente oferecer mais uma configuração escondida num menu. O governo quer que as plataformas apresentem a escolha ativamente e perguntem qual modelo cada pessoa prefere usar.
Para o Instagram, isso importa porque o algoritmo não serve apenas para organizar uma quantidade impossível de posts. É ele também que decide quais conteúdos têm chance de ganhar escala, mantém pessoas navegando e abastece boa parte da descoberta que transformou o aplicativo de feed de amigos em plataforma de entretenimento.
Mosseri pode estar certo que um feed puramente cronológico é pior para a maioria. A proposta australiana tenta devolver ao usuário o direito de descobrir isso por conta própria.