Das ameaças das claques aos processos milionários, Jorge Jesus sobreviveu ao ódio do futebol graças ao mesmo núcleo de amigos e familiares que agora o ampara no ataque ao Mundial 2030.
- Retrato é uma rubrica do ECO na qual, durante o mês de agosto, é publicado diariamente o perfil de uma personalidade que se distinguiu no último ano, em Portugal
Na Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa, Jorge Jesus não precisa de escolher a mesa. No Solar dos Presuntos, Pedro Cardoso sabe o que lhe há de pôr à frente: cabeça de garoupa cozida ou peixe grelhado, pudim flan para sobremesa e, sobretudo, pouca conversa sobre futebol quando o resultado correu mal.
Jesus frequenta a casa há mais de três décadas. Quando vivia fora de Portugal, a primeira paragem depois de aterrar era muitas vezes o restaurante de Evaristo Cardoso (cozinheiro da Seleção Nacional durante mais de duas décadas) e Maria da Graça Cardoso. Ali sentaram-se Eusébio, Rui Costa, Jorge Mendes, Frederico Varandas — fotografado ao lado de Jesus num jantar antes de um jogo europeu do Sporting — e tantas outras vedetas do desporto e da sociedade portuguesa.
Para o novo selecionador nacional, o Solar funciona como um ponto de encontro com uma vida que não depende de contratos, resultados ou conferências de imprensa. Essa lealdade a rostos antigos atravessa também a sua equipa de trabalho, ainda que nem sempre de forma permanente.
Miguel Quaresma, que conheceu ainda nas camadas jovens e levou consigo para o Benfica, o Sporting e depois para o Al Hilal, deixou de ser seu adjunto em dezembro de 2018, quando regressou a Portugal juntamente com Raul José, meses antes de Jesus abandonar o clube saudita.
A separação não apagou os anos de trabalho conjunto, mas mostra que nem todas as parcerias de Jesus resistem indefinidamente, ao contrário do que a imagem pública de “núcleo duro” sugere. E na estreia como selecionador nacional, o técnico voltou a rodear-se de gente da sua confiança, com nomes como João de Deus a integrar uma comissão técnica escolhida a dedo.
Longe da fúria dos bancos e dos títulos, Jorge Jesus encontra na família a sua bússola moral e nos amigos de sempre o refúgio seguro. Foi por honrar os pais e proteger os seus que moldou as decisões mais marcantes da vida.
LUSA/EPA/SEDAT SUNA
Mas antes da Seleção e de qualquer título, houve o Amora Futebol Clube. Jesus tinha 35 anos e ainda calçava as botas no Almancilense quando, em 1989, num jogo disputado em Almancil com o clube da margem sul, que terminou empatado a três golos, Mário Rui, presidente do Amora e talhante de profissão, após o jogo, convidou-o para treinar o Amora, na altura a disputar a 3.ª divisão.
Como o clube não tinha capacidade financeira para oferecer um contrato cativante ao mister, Mário Rui propôs arranjar os materiais de construção para Jesus construir uma piscina na sua casa na Marisol, que tanto queria. Décadas mais tarde, o próprio recordaria em entrevista que deve a carreira de treinador “a uma pessoa que já não está cá”, numa referência direta a Mário Rui.
No Amora, entre 1989 e 1993, conquistou o campeonato da 3.ª Divisão e elevou a equipa até à Divisão de Honra, jogando já então com uma linha de três centrais, um sistema tático que, anos mais tarde, se tornou uma tendência pelos campos europeus.
Ao longo dos anos, Jesus bebeu inspiração teórica em Manuel Sérgio, filósofo e pai da motricidade humana (também mentor de José Mourinho), passando a encarar o futebol como uma ciência global.
Foi ali, num clube modesto e sem pressão mediática, que Jesus testou pela primeira vez os métodos de treino que levaria depois para clubes maiores, e que atletas seus nos diferentes clubes por onde passou descrevem como intensos e de grande detalhe, ao ponto de intimidar jogadores mais experientes.
Essa intensidade não nasceu apenas do instinto. Ao longo dos anos, Jesus bebeu inspiração teórica em Manuel Sérgio, filósofo e pai da motricidade humana (também mentor de José Mourinho), passando a encarar o futebol como uma ciência global.
O método afiado na margem sul ganhou tração no norte. No modesto Felgueiras, que conduziu da II Divisão B à divisão principal, Jesus teve sob as suas ordens um jovem irreverente emprestado pelo FC Porto: Sérgio Conceição. Entre raspanetes táticos e exigência física extrema, o treinador moldou a fibra competitiva daquele que, anos mais tarde, se tornaria num dos seus maiores rivais nos bancos.
A fórmula repetiu-se uma década depois no Restelo. Ao comando de um Belenenses com recursos limitados, afinou o célebre meio-campo em losango, chegou à final da Taça de Portugal de 2007 e apurou o clube para a Europa. Foi também aí que lançou e lapidou Rúben Amorim, transformando-o numa das suas peças de xadrez mais fiéis e deixando a sua impressão digital nos dois técnicos portugueses mais marcantes da geração seguinte.
E foi precisamente essa mistura de intuição de rua e exigência tática que o levou a atingir o estatuto de divindade no Brasil em 2019, quando conquistou o Brasileirão e a Taça Libertadores pelo Flamengo, provando que a sua liderança era exportável para os balneários mais complexos do mundo.
A promessa feita ao pai e a influência da mãe
A disposição para trocar conforto por convicção não é nova. Em 2015, depois de seis épocas na Luz, três campeonatos e duas finais europeias, Jesus deixou o Benfica para assinar pelo Sporting. Os adeptos encarnados nunca engoliram a mudança.
Luís Filipe Vieira proibiu-o inclusive de se despedir de jogadores e funcionários no estádio e o clube da Luz chegou a pedir-lhe 14 milhões de euros em tribunal por quebra de confidencialidade, chegando a enumerar num processo de 54 páginas (que acabou por cair ao fim de três anos) que “não há memória de uma traição desta dimensão”.
A explicação que Jesus deu na altura resumiu-se à família: o pai, Virgolino, antigo jogador do Sporting da década de 1940, pediu-lhe um dia que treinasse o clube da sua juventude. O filho decidiu honrá-lo, arriscando o capital de idolatria que tinha na Luz.
A mudança foi de tal forma polémica e intensa que, perante as ameaças e a hostilidade do grupo de adeptos encarnados dos “No Name Boys” ao mister, o núcleo duro de amigos de Jesus organizou um cruzeiro de férias para o afastar do país durante um período, numa prova de que, nos momentos de aperto, é a rede pessoal que o segura.
A fatura chegou três anos depois, em maio de 2018, quando cerca de quatro dezenas de adeptos organizados invadiram a Academia de Alcochete e agrediram o treinador e vários jogadores. Jesus acabou por sair do clube pouco depois, sem o título de campeão e após a derrota na final da Taça de Portugal, no Jamor, contra o Desportivo das Aves, e sem nunca reconquistar por completo a confiança de uma claque que continuava a achá-lo insuficiente.
Com mais de 1 milhão de euros perdido na queda do Banco Privado Português e 119 mil euros pagos ao fisco por causa do Vitória de Setúbal, Jesus também provou o sabor amargo do risco financeiro.
Ainda assim, não cortou relações com todo o universo leonino. Continuou a cultivar amizades desse lado, como se recusasse deixar que a violência de uns lhe apagasse a lealdade a outros, um comportamento raro num futebol português habituado a trincheiras e a linhas bem demarcadas entre clubes rivais.
A família dita-lhe os passos mais profundos. A morte da mãe, Maria Elisa, em 2007, deixou-o de luto fechado. Jesus confessou ter andado “oito ou nove anos” a vestir exclusivamente roupa preta. “A minha mãe era uma santa”, confessou em 2017 no programa “Alta Definição”, recordando ainda o sofrimento da mãe durante a doença.
O pai que lhe passou o amor ao Sporting e a disciplina do trabalho manual, a mãe cuja memória chegou a vestir literalmente, dia após dia, durante quase uma década. São essas duas figuras que Jesus mais invoca quando fala de si próprio fora do futebol.
Esse apego à família mantém-se nos festejos mais recentes. Ao celebrar 72 anos, a 24 de julho, escolheu um restaurante discreto na Parede, reunindo família e amigos de sempre em vez de qualquer palco de exposição. “Foi uma alegria comer um bom peixe e ter a minha família à mesa”, escreveu nas redes sociais.
Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, entregou a Jorge Jesus o leme da Seleção das Quinas num momento de viragem. Habituado ao ritmo de clube, o novo selecionador enfrenta o teste de gerir talentos com pouco tempo de treino, reconciliar o balneário e transformar a exigência tática no combustível necessário para atacar a conquista do Campeonato do Mundo de 2030 em solo nacional.
MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
Feridas que não se fecham no balneário
O rigor que Jesus exige aos jogadores não o impediu de enfrentar dissabores financeiros. Em 2011, foi notificado pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal para prestar declarações sobre relações entre o Vitória de Setúbal, clube que então treinava, e o extinto Banco Português de Negócios (BPN). Pouco depois liquidou uma dívida fiscal de 119 mil euros, embora tenha defendido publicamente que o encargo deveria ter sido pago pelo clube, e não por si.
Mas o dinheiro fugiu-lhe das mãos de forma ainda mais dolorosa com o colapso do Banco Privado Português (BPP), em 2010. Tinha mais de 1 milhão de euros aplicados na instituição.
Ao longo dos anos recuperou montantes por diferentes vias, incluindo mecanismos de garantia e indemnização, mas continuava a figurar entre os credores comuns da massa insolvente. Em julho deste ano, tinha um crédito reconhecido de cerca de 321 mil euros e direito previsto a cerca de 27 mil euros numa nova distribuição.
Jorge Jesus começou a carreira de treinador porque um talhante confiou nele, trocou a Luz por Alvalade devido a uma promessa, vestiu de luto quase uma década e abdicou de fortunas árabes para tentar ganhar o Mundial 2030 em casa.
A carreira de Jesus acumula também atritos que raramente evita e que desmontam a narrativa fácil do treinador só de vitórias. Em 2013, ainda no Benfica, acusou publicamente a arbitragem de favorecer os rivais diretos do clube, valendo-lhe uma “guerra aberta” com Bruno de Carvalho, então presidente do Sporting.
Já como selecionador nacional, reabriu feridas antigas. A relação com Bernardo Silva, orientado ainda adolescente no Benfica, ficou marcada por um episódio de 2013 em que o jovem terá sido colocado fora da sua posição habitual, gerando um mal-estar que o próprio treinador precisou de desfazer publicamente onze anos depois, garantindo que “não há problema nenhum” e que já falou diretamente com o jogador.
Com Neymar, a situação segue por resolver da mesma forma pouco pacífica. Na conferência de apresentação como selecionador, Jesus voltou a comentar uma desavença antiga com o brasileiro sem deixar de o colocar entre os melhores jogadores do mundo, equilíbrio típico da forma como maneja crítica e elogio quase na mesma frase.
Agora, Jesus entra num território desconhecido. Ao assumir a Seleção de Portugal, troca o controlo diário de um clube por um grupo que se reúne poucas vezes ao ano. Na sua apresentação, prometeu uma equipa a jogar “o dobro” e sinalizou total sintonia com o capitão Cristiano Ronaldo, lembrando que o substituiu por 16 vezes no Al Nassr, notando que isso não gerou qualquer atrito entre os dois.
O retrato de Jorge Jesus foge às prateleiras dos troféus. Começou a carreira de treinador porque um talhante confiou nele, trocou a Luz por Alvalade devido a uma promessa, vestiu de luto quase uma década e abdicou de fortunas árabes para tentar ganhar o Mundial 2030 em casa.
Em cada viragem, manteve o círculo do Solar dos Presuntos intacto. É esse fio invisível que explica como um dos homens mais polarizadores do país continua a encontrar refúgio nos mesmos lugares e nas mesmas pessoas, pronto para encerrar a carreira à sua maneira.