Sustentabilidade do modelo de desenvolvimento na era da automação cognitiva

A automação cognitiva não decide, por si, o nosso destino. Sobrepõe-se aos desequilíbrios estruturais que já tínhamos e amplifica-os consoante a nossa resposta, escreve Carlos Costa.

Há um equívoco que atravessa quase todo o debate público sobre o futuro do trabalho e a transição digital. Perguntamo-nos, obsessivamente, quantos empregos a inteligência artificial vai destruir e se o destino das economias avançadas é dissolverem-se numa vasta economia de serviços. São perguntas mal formuladas. A questão decisiva não é quantos serviços produziremos, nem sequer quantos postos de trabalho mudarão de natureza. É saber que territórios e que empresas passarão a controlar as atividades transacionáveis — incluindo os serviços que a tecnologia tornou comerciáveis à distância — e como se distribuirão os rendimentos que delas resultam.

Faço esta distinção porque dela depende todo o resto. A sustentabilidade do modelo de desenvolvimento de uma economia aberta assenta na sua capacidade de gerar, de forma competitiva, bens e serviços transacionáveis. É essa capacidade que permite pagar o que se importa, remunerar o trabalho de forma crescente e financiar os serviços que consumimos internamente. A automação cognitiva — a designação que prefiro para esta vaga de inteligência artificial, porque descreve com rigor o que ela faz — não altera esta lei fundamental de proporcionalidade macroeconómica. Altera, sim, e profundamente, os determinantes da competitividade e, sobretudo, a geografia onde a produção transacionável se localiza e onde o seu valor é apropriado.

A minha tese é simples de enunciar e exigente de cumprir. A inteligência artificial tende, numa primeira fase, a concentrar os ganhos nos territórios e nas organizações que já dispõem de capital, dados, competências, infraestrutura e redes de conhecimento. Não é um vento que sopra igualmente sobre todos os barcos. É uma maré que ergue sobretudo quem já tem porto de abrigo, e que pode deixar encalhados os que dele carecem. Para uma pequena economia aberta como a portuguesa, esta não é uma questão académica. É uma questão de sobrevivência do próprio modelo de desenvolvimento.

Uso a expressão «automação cognitiva» de propósito, porque as palavras moldam o que conseguimos pensar. Durante duzentos anos, a máquina aumentou ou substituiu a força física do homem; o que hoje se passa é de outra ordem — a máquina passou a aumentar ou a substituir tarefas de cognição, de previsão, de coordenação e de linguagem, que julgávamos reservadas ao intelecto humano. É esta a novidade, e é ela que explica por que razão profissões inteiras, antes protegidas pela sua natureza intelectual, se sentem agora expostas. Mas — e este “mas” é o coração de tudo o que se segue — a automação de uma tarefa cognitiva não é a automação de um trabalho, e muito menos a automação de uma economia.

Entre a tarefa que a máquina executa e o valor que um país consegue reter há um longo caminho, feito de capital, de competências, de organização, de balanços e de instituições. É esse caminho, e não a máquina, o verdadeiro objeto deste ensaio.

As contas externas são o juiz último

Comecemos pelo princípio, que é também o fim de qualquer ilusão. Uma economia importa energia, equipamentos, tecnologia, bens intermédios e conhecimento incorporado. A expansão duradoura do rendimento e do consumo interno exige, por isso, uma capacidade correspondente de pagamento ao exterior. Quando a procura interna de bens e serviços transacionáveis cresce sistematicamente mais depressa do que a nossa capacidade de os produzir ou de gerar receitas externas equivalentes, o desequilíbrio não é um acidente conjuntural: é uma falha estrutural que se paga em défices persistentes, acumulação de dívida externa e, mais cedo ou mais tarde, ajustamentos recessivos.

Convém desfazer, desde já, um mal-entendido. A sustentabilidade das contas externas não obriga a que as exportações financiem integralmente as importações em cada ano. Os rendimentos obtidos no estrangeiro, as transferências, o turismo, os fluxos de capital e o próprio endividamento também contam, e podem diferir no tempo o ajustamento. Mas nenhum destes canais substitui, indefinidamente, uma capacidade estrutural de gerar receitas externas. O financiamento externo é um empréstimo sobre o futuro, não um rendimento. E há uma diferença qualitativa que importa não esquecer: o investimento direto estrangeiro partilha risco e pode trazer tecnologia e acesso a mercados, ao passo que a dívida acresce encargos de serviço obrigatório que corroem, ano após ano, a margem de manobra externa.

A tradição económica deu-nos, há décadas, um instrumento simples e poderoso para pensar isto no enquadramento do modelo de Salter-Swan e da restrição do balanço de pagamentos. A intuição de Thirlwall é que, no longo prazo, o crescimento compatível com o equilíbrio externo depende da relação entre a dinâmica das nossas exportações e a nossa propensão a importar. O que significa que a composição conta tanto como o volume: importa o que exportamos, e não apenas quanto exportamos.

Uma economia especializada em produtos e serviços de elevada procura mundial e forte conteúdo de conhecimento pode crescer sem esbarrar tão cedo no muro externo. Uma economia presa a segmentos de baixo valor bate nesse muro mais depressa — e é forçada a comprimir a procura interna até ao nível que as suas exportações conseguem sustentar.

As contas externas são o juiz último. Podemos discutir salários, impostos, despesa pública e política monetária, mas todas essas discussões estão subordinadas a uma pergunta anterior: temos, ou não, uma base transacionável competitiva e suficientemente densa para sustentar o rendimento a que aspiramos?

Acrescento um aviso, porque a leitura destes números engana os incautos. Uma balança corrente temporariamente equilibrada não é, em si, um atestado de saúde. Pode resultar de uma recessão que comprimiu as importações, e nesse caso o equilíbrio é o sintoma da doença, não da cura. O que importa é a capacidade estrutural de gerar receitas externas em condições de crescimento — isto é, mantendo a procura interna a expandir-se. É essa a prova dos nove da competitividade de uma economia, e é a única que verdadeiramente conta.

O mito da economia só de serviços

Insiste-se, com frequência, que o futuro pertence aos serviços e que a indústria é um resíduo do passado. Esta ideia contém um erro elementar e uma verdade mal aproveitada. O erro é confundir «serviços» com «não transacionáveis». Muitos serviços — software, engenharia, consultoria, design, serviços financeiros, ensino digital, produtos culturais — são hoje plena ou parcialmente comerciáveis, geram divisas e incorporam elevado valor. Tratar todo o sector terciário como se fosse dirigido apenas ao mercado interno é uma das confusões mais custosas do debate económico português.

A fronteira entre o que é transacionável e o que não é não coincide com a divisão entre bens e serviços, e é uma fronteira móvel. Convém distinguir quatro famílias. Há os serviços genuinamente locais — a restauração, os cuidados presenciais, a construção, o comércio de proximidade —, cuja dimensão é limitada pela procura interna. Há os serviços transacionáveis convencionais — o turismo, os transportes, a banca, o ensino internacional —, que geram divisas há muito, ainda que com produtividade desigual. Há os serviços digitalmente transacionáveis, que se tornaram exportáveis à distância e constituem um vector de valor acrescentado crescente. E há os serviços incorporados nos bens industriais — manutenção, plataformas, análise de dados, soluções pós-venda —, que exprimem a servitização da indústria.

A verdade mal aproveitada é esta: a automação cognitiva desloca precisamente essa fronteira, aumentando a transacionabilidade das duas últimas famílias. Ao codificar e automatizar tarefas antes dependentes da proximidade física, torna comerciáveis funções que ontem eram locais. A composição das nossas exportações pode assim alterar-se sem que isso signifique desindustrialização no sentido forte. Mas há uma condição, e é severa: essa deslocação favorece quem detém dados, competências e capacidade de integração. Se os serviços de mais elevado valor se concentrarem, à escala global, num punhado de territórios, o alargamento da fronteira beneficia sobretudo as economias já dotadas — e não aquelas que dele mais precisariam.

Daí a minha reserva quanto à tese de que basta “avançar para os serviços”. Nenhuma economia pode prescindir de uma base de geração de receitas externas e de capacidades produtivas próprias. A economia não vive de vendermos serviços uns aos outros: vive do que conseguimos vender ao mundo e do que evitamos importar por sermos capazes de o produzir cá, com qualidade.

Entre o fatalismo e o deslumbramento

Convém, a meio caminho, nomear os dois erros simétricos que envenenam este debate e desarmam a decisão pública. De um lado, o fatalismo, que vê na inteligência artificial apenas destruição — de empregos, de profissões, de modos de vida — e conclui, resignado, que nada há a fazer senão resistir ou lamentar. Do outro, o deslumbramento, que vê nela apenas salvação — a promessa de um salto de produtividade que resolverá, por si, os nossos problemas — e conclui, eufórico, que basta adotar para prosperar.

Ambos os erros são perigosos, e por razões opostas. O fatalismo paralisa: se o resultado está inscrito na tecnologia, para que servem as políticas? O deslumbramento dispersa: leva a comprar ferramentas sem construir capacidade, a confundir adoção com absorção, a gastar em software o que deveria ser investido em competências, dados e reorganização. Um imobiliza-nos; o outro faz-nos correr na direção errada. Nenhum nos serve.

A verdade, como quase sempre em economia, é mais prosaica e menos consoladora do que qualquer das duas narrativas. A tecnologia entrega aquilo que as instituições e as capacidades que a recebem permitem que ela entregue — nem mais, nem menos. O trabalho sério da política económica consiste, precisamente, em resistir às duas tentações e em concentrar-se nos determinantes pouco espetaculares de que depende o resultado: o capital, as competências, as instituições, o financiamento.

Competitividade, Coesão Social e Flexissegurança

Quando se fala de competitividade, o reflexo imediato é falar de salários. Numa união monetária, sem o instrumento da desvalorização cambial, qualquer subida do Custo Unitário do Trabalho (CUT) acima dos nossos parceiros traduz-se, de imediato, em perda de margens ou de quota de mercado. Isto é verdade, e não deve ser escamoteado. Mas daí a fazer da compressão salarial uma estratégia de desenvolvimento vai uma distância enorme — e perigosa.

A chamada desvalorização interna, quando é a única resposta, é um processo recessivo, arrastado e socialmente oneroso. Reduz o rendimento, desincentiva a qualificação e não cria uma única capacidade tecnológica nova. Pode restaurar, temporariamente, a competitividade-preço; não constrói competitividade duradoura. E a competitividade duradoura depende de fatores que o salário, por si, não capta: a produtividade, a qualidade, a inovação, a escala, a logística, o custo da energia, a reputação, as marcas e a posição nas cadeias de valor.

É precisamente neste ponto que a salvaguarda da coesão social se ergue não apenas como um imperativo ético e constitucional, mas como uma condição macroeconómica de estabilidade e resiliência. A transição para uma economia intensiva em automação cognitiva e conhecimento não pode ser realizada à custa da rutura do tecido social ou da precarização da força de trabalho. Para evitar a espiral recessiva da desvalorização interna, a gestão da mudança estrutural exige a adoção de um modelo autêntico de flexissegurança, articulando a flexibilidade na reorganização produtiva com uma proteção social ativa e a requalificação contínua do capital humano.

Contudo, impõe-se um rigoroso alerta macroeconómico: a sustentabilidade financeira e política da própria flexissegurança depende, em última análise, da dimensão dos ganhos de produtividade gerados no sector produtivo. Uma rede de proteção e requalificação social não subsiste no vazio financeiro; necessita do suporte do valor acrescentado criado na economia. Por sua vez, esses ganhos de produtividade são tanto mais fáceis e rápidos de alcançar quanto mais acelerada e profunda for a metamorfose do tecido produtivo — ou seja, quanto mais célere for a capacidade de a economia reconfigurar as suas empresas, abandonar atividades obsoletas e reafectar capital e trabalho para unidades tecnologicamente avançadas no sector transacionável.

Sem uma aceleração da metamorfose empresarial que faça disparar a Produtividade Total dos Factores (PTF), o modelo de flexissegurança transforma-se num encargo insustentável para o Estado, falhando o seu propósito de salvaguardar a coesão social. A subida na escala de valor é a única forma eficaz de reduzir a vulnerabilidade ao custo do trabalho. Uma economia condenada a competir apenas por preço estará sempre à mercê do próximo concorrente com salários mais baixos.

O elo mais fraco: financiamento e dimensão empresarial

A única via sustentável para escapar à compressão contínua dos rendimentos é o investimento produtivo e a modernização tecnológica, que elevam a produtividade e permitem sustentar salários mais altos. Mas a capacidade de investir depende da qualidade e da dimensão das empresas — e é aqui que reside o elo mais fraco do nosso modelo.

O tecido produtivo português padece de uma debilidade estrutural conhecida: a reduzida dimensão média das empresas, o chamado nanismo empresarial. A pequena dimensão dificulta o financiamento dos custos fixos de investigação e desenvolvimento, de certificação, de proteção de propriedade intelectual e de redes de distribuição internacionais. Penaliza a internacionalização e a capacidade de gestão. E penaliza de forma aguda a absorção da inteligência artificial, cujos recursos fundacionais — dados em volume e qualidade, capacidade computacional, competências especializadas — têm forte componente de custo fixo e favorecem quem já tem escala.

A esta debilidade soma-se a estrutura do financiamento e dos balanços empresariais. Numa economia em que o mercado de capitais é incipiente e o financiamento empresarial assenta desproporcionadamente no crédito bancário — que exige garantias reais e colateral físico —, os investimentos em ativos intangíveis, incertos e difíceis de dar em garantia, ficam sistematicamente subfinanciados. No ciclo de vida empresarial, enquanto os investimentos de expansão de empresas maduras se apoiam no autofinanciamento (retenção de lucros), os investimentos iniciais de rutura tecnológica e ganho de escala exigem abundante capital próprio e financiamento de longo prazo. A escassez de capitais próprios atrofia as empresas à nascença.

Recordo, sem complacência, uma lição da nossa história recente. Durante os anos de integração monetária, o capital tornou-se barato: as taxas de juro convergiram e abriu-se um crédito abundante na periferia da Zona Euro. No entanto, o crédito e o Investimento Direto Estrangeiro foram desproporcionadamente canalizados para o imobiliário, a construção civil e os serviços abrigados da concorrência, inflacionando a procura interna e gerando dívida externa. Quando a crise sobreveio, o crédito às empresas exportadoras foi dos primeiros a contrair-se. Vivi de perto esse período e não o recordo com nostalgia, mas com a determinação de que não se repita. A lição é que não basta ter poupança ou aceder a financiamento: é preciso um modelo que transforme essa poupança em capital paciente, capaz de suportar o risco e a longa maturação dos investimentos que criam produtividade.

O que a automação cognitiva realmente muda

Importa ser rigoroso sobre o que a inteligência artificial faz. Ela é, antes de mais, uma tecnologia de previsão: reduz o custo de prever e, ao fazê-lo, reorganiza as decisões que dependem de previsão em quase todas as atividades. E é uma tecnologia de uso geral, o que significa que a sua incidência não se dá ao nível de sectores inteiros, mas ao nível das tarefas.

Esta precisão é libertadora, porque nos afasta do fatalismo. A automação cognitiva substitui trabalho em certas tarefas — sobretudo cognitivas e de coordenação — e, simultaneamente, cria a necessidade de novas tarefas: de integração, de conceção, de engenharia, de gestão de dados, de supervisão. O efeito líquido sobre o emprego resulta desta combinação entre um efeito de deslocamento e um efeito de recomposição. Não há qualquer fundamento sério para a proposição linear de que tecnologia é igual a destruição líquida de emprego. Houve, ao longo de dois séculos, quem repetisse esse prognóstico; a história desmentiu-o vezes sem conta.

O que muda, para a produção de bens e serviços transacionáveis, é duplo. Por um lado, a IA reduz a intensidade de trabalho pouco qualificado por unidade de produto, enfraquecendo o velho modelo de deslocalização assente em baixos salários. Por outro, desloca a vantagem competitiva para os dados, as competências especializadas, a capacidade de integrar sistemas e a propriedade intelectual. A pergunta relevante deixa de ser se uma tarefa pode ser automatizada — muitas podem — e passa a ser onde, e por quem, serão organizadas as tarefas complementares de maior valor.

A nova geografia da produção: eixos e raios (Hub-and-Spoke)

Se a incidência da IA se dá ao nível das tarefas e desloca a vantagem para dados, competências e propriedade intelectual, então a questão central torna-se geográfica. Os recursos fundacionais da inteligência artificial — a capacidade computacional avançada, os grandes volumes de dados estruturados, a propriedade intelectual e os ecossistemas de inovação — apresentam forte concentração espacial e retornos crescentes. São, por natureza, objeto de aglomeração.

Emerge, assim, uma estrutura global que descreveria como de eixos e raios (hub-and-spoke). Um número restrito de territórios (os hubs) concentra os centros de computação, os modelos de fundação e a propriedade intelectual, retendo as rendas de maior valor. Os restantes (os spokes periféricos) ficam circunscritos a funções operacionais dependentes da infraestrutura dos primeiros. A geografia dos factores de produção e recursos essenciais reforça a assimetria: a produção de semicondutores avançados, os centros de dados e a energia que os alimenta concentram-se em poucas jurisdições, o que introduz uma dimensão estratégica e geopolítica ineludível.

Nenhuma reflexão séria sobre esta geografia pode ignorar a dimensão europeia. Os recursos fundacionais da IA não se encontram hoje na Europa na escala desejável. Esta dependência é estratégica. A resposta europeia passa por aprofundar o mercado único, avançar decididamente para uma verdadeira união dos mercados de capitais, assegurar energia competitiva e coordenar políticas industriais. As pequenas economias abertas são as que mais ganham com a partilha de escala europeia. O nosso lugar é construir capacidades em nichos onde possamos reter valor, ancorados numa Europa forte e coordenada.

A escada da apropriação e o filtro institucional

Proponho que abandonemos a oposição simplista entre quem adota e quem não adota inteligência artificial, e que a substituamos por uma escada de formas de apropriação com quatro degraus:

  1. Utilização Genérica: A empresa recorre a ferramentas externas para tarefas administrativas, de marketing ou de apoio à decisão. Os ganhos são limitados e facilmente imitáveis.
  2. Integração Operacional: A IA incorpora-se nos processos produtivos — logística, controlo de qualidade, manutenção preditiva —, gerando reduções de custo e ganhos de eficiência reais.
  3. Desenvolvimento Próprio: A empresa constrói modelos, dados ou soluções proprietárias adaptadas à sua atividade, o que lhe confere diferenciação e a possibilidade de rendas tecnológicas.
  4. Orquestração de Ecossistema: A empresa organiza plataformas, normas, dados, fornecedores e complementadores, capturando o máximo de valor e adquirindo poder de mercado.

A pergunta de fundo é quantas empresas conseguem subir dos dois primeiros degraus para os dois últimos. E essa subida depende da distinção entre adotar e absorver. Adotar é comprar a ferramenta; absorver é investir nos ativos intangíveis complementares — reorganização de processos, capital humano qualificado e arquitetura de dados — que permitem alterar a produtividade real (a designada Curva J da Produtividade).

A nível macroeconómico, a apropriação da IA é filtrada pelo enquadramento político e pelo ambiente de negócios. Factores institucionais e distorções regulatórias podem criar uma barreira intransponível, gerando a denominada lacuna de transmissão de produtividade (productivity transmission gap).

Especial relevância assume o papel da justiça económica e da contestabilidade dos mercados. A transição para uma economia intensiva em IA exige um processo acelerado de destruição criativa schumpeteriana: o capital e o trabalho libertados pela automação em tarefas obsoletas têm de ser rápida e fluentemente reafectados em direção às empresas e sectores mais produtivos. Quando a justiça económica é morosa e os processos de insolvência se arrastam, as empresas inviáveis e descapitalizadas (empresas zombies) continuam a operar artificialmente no mercado, absorvendo crédito bancário escasso, distorcendo a concorrência leal e retendo mão de obra qualificada. Este bloqueio institucional impede que as organizações inovadoras obtenham a escala e os recursos necessários para investir na absorção da IA.

Educação, Formação e o Contrato Social

Se a inteligência artificial polariza os ganhos, a educação, a formação profissional e o contrato social são os principais mecanismos de que dispomos para os difundir e assegurar a coesão social.

A automação cognitiva não dispensa o trabalho qualificado: exige-o, e exige-o de um tipo novo. Quanto mais poderosa é a ferramenta, maior é a exigência de discernimento para a usar, de conhecimento de domínio para avaliar os seus resultados e de sentido crítico para lhe resistir quando falha. A formação profissional adquire, neste quadro, uma centralidade decisiva. As competências intermédias — técnicos capazes de operar, manter e melhorar sistemas complexos — são exatamente as que permitem subir na escada da apropriação.

Há uma verdade económica incontornável: os salários só sobem de forma sustentável quando sobe a produtividade do sector transacionável exposto. O perigo da automação cognitiva é o de criar uma sociedade a duas velocidades: ilhas de altíssima produtividade rodeadas por um mar de atividades de baixa produtividade e salários estagnados. O contrato social que defendo exige que os ganhos de produtividade sejam partilhados, elevando transversalmente as competências, capitalizando as empresas para que possam pagar melhor, protegendo a concorrência e mantendo instituições de negociação equilibradas. A coesão social é uma condição da própria sustentabilidade do modelo: uma sociedade fraturada não absorve tecnologia — resiste-lhe.

A Agenda de Reformas Estruturais

Do diagnóstico decorre a terapêutica. A sustentabilidade do modelo de desenvolvimento português na era da automação cognitiva exige a implementação de um programa de reformas estruturais coerentes e sustentadas no tempo:

  1. Desbloqueio da Justiça Económica e Limpeza dos Balanços: Reduzir drasticamente os prazos dos processos de insolvência e reestruturação empresarial, libertando o capital e o trabalho retidos em empresas inviáveis (empresas zombies) para que possam ser absorvidos por unidades produtivas dinâmicas e inovadoras.
  2. Capitalização Empresarial e Mercado de Capitais: Fomentar instrumentos de financiamento por capitais próprios e capital de risco, reduzindo a dependência do crédito bancário de curto prazo e estimulando fusões e aquisições entre PME que combatam o nanismo empresarial e criem escala exportadora.
  3. Orientação Severa dos Fundos Europeus ao Transacionável: Condicionar estritamente os apoios estatais e os fundos comunitários à verificação ex post de ganhos reais de Produtividade Total dos Factores, aumento das exportações de bens e serviços digitalmente comerciáveis e criação de emprego científico e técnico altamente qualificado.
  4. Reforço do Capital Humano e Retenção do Talento: Valorizar a formação profissional e o ensino técnico, articular o sistema científico com as empresas e reduzir a tributação marginal de IRS sobre o trabalho especializado para estancar a fuga de cérebros qualificados.
  5. Eliminação de Rendas de Contexto e Desburocratização: Eliminar as rendas excessivas e as barreiras burocráticas no sector não transacionável doméstico (energia, transportes, licenciamento municipal e ambiental), reduzindo os custos de contexto do sector exportador e integrando as políticas de habitação e mobilidade na estratégia industrial.

Conclusão: A Escolha

A automação cognitiva não decide, por si, o nosso destino. Sobrepõe-se aos desequilíbrios estruturais que já tínhamos e amplifica-os — num sentido ou no outro, consoante a nossa resposta. Se mantivermos um ambiente de reduzida concorrência, fricções burocráticas, morosidade judicial e subcapitalização empresarial, os ganhos da inteligência artificial confinar-se-ão a um segmento reduzido de grandes empresas e filiais multinacionais, enquanto a maioria do tecido produtivo enfrentará a obsolescência e o lockout tecnológico.

Mas há a outra via. Se reforçarmos a eficiência da afectação de recursos e a capacidade de absorção do tecido produtivo — capitalizando as empresas, acelerando a metamorfose empresarial, desbloqueando a justiça e elevando as competências —, a automação cognitiva converter-se-á no maior catalisador de produtividade, salários reais crescentes, coesão social e sustentabilidade macroeconómica de longo prazo.

A pergunta decisiva não é quantos serviços produziremos, mas se seremos, ou não, um país que controla uma parte do valor transacionável na nova geografia global da produção — e que distribui esse valor de forma a manter a coesão de que a própria economia depende. Dessa resposta depende 8 a sustentabilidade do nosso modelo de desenvolvimento. Vale a pena ter a lucidez, o método e a persistência de agir em conformidade com ela.

Nota: Este ensaio constitui um subproduto e síntese concetual do estudo alargado a publicar sob o título “ECONOMIC DEVELOPMENT, EDUCATION AND VOCATIONAL TRAINING IN THE AGE OF ARTIFICIAL INTELLIGENCE”.