Shein prepara-se para entrar na bolsa após guerras, taxas e rivalidade da Temu

Está quase a ser expedida a principal encomenda que a Shein fez a si mesma: a entrada em bolsa. O destino do IPO – Initial Public Offering é que não é bem o que a empresa chinesa esperava, porque os “aviões” (reguladores) britânicos e norte-americanos trocaram-lhe as voltas e fizeram com que aterrasse em Hong Kong.

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A retalhista online planeia lançar a sua oferta pública inicial esta quarta-feira e estrear-se na praça de Hong Kong no próximo dia 28 de agosto, segundo informações avançadas pela Reuters e Bloomberg. A chegada da Shein ao centro financeiro asiático é o culminar de um processo que demorou a ‘desalfandegar’ e, tal como a sua estratégia à base de múltiplos cupões de desconto, também envolve um (elevado) desconto na avaliação.

A empresa de Sky (Chris) Xu, fundada em 2012 na China e com sede em Singapura, tem como objetivo obter uma avaliação entre 26 mil milhões e 27 mil milhões de dólares (entre 22,4 mil milhões e 23,3 mil milhões de euros) neste IPO e procura angariar cerca de dois mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros). Trata-se de uma queda expressiva, de quase 75%, em relação ao valor que ostentava há quatro anos.

A entrada da Shein (lê-se She-in) em bolsa é indissociável da pandemia de Covid-19, quando a empresa começa a crescer exponencialmente nos mercados europeus devido à expansão do e-commerce durante os vários confinamentos. A ideia de encomendar peças de roupa, sapatos e acessórios baratos sem sair de casa entusiasmou os consumidores da Europa, mas também os norte-americanos e australianos, que fizeram subir o negócio de fast fashion da empresa. Apesar de não publicar as demonstrações financeiras, a CB Insights estimou que as vendas tivessem chegado aos 63,5 mil milhões de yuans (cerca de 8,1 mil milhões de euros) só em 2020.

É a partir daí que os rumores de potencial candidata a IPO começaram. Em 2022, a Shein é avaliada em 100 mil milhões de dólares (aproximadamente 86,3 mil milhões de euros) e o debate sobre estar pronta para o toque do sino intensifica-se. Nos anos seguintes, sucederam-se avanços e recuos no processo por variadas razões, entre as quais regulatórias – o marketplace chinês enfrenta travões nas bolsas de Londres e de Nova Iorque – e geopolíticas, uma vez que se vê ‘obrigada’ a adiar os planos, inicialmente, devido à volatilidade causada pela a invasão russa da Ucrânia e, mais tarde, pelo anúncio das tarifas de Donald Trump e o início da guerra no Médio Oriente.

João Queiroz, responsável de trading do Banco Carregosa, recorda que “a Shein carrega um historial sucessivo de adiamentos e exposição legal e tarifária material”. “A história e estatística ensinam-nos que, em média, pelo menos um terço dos IPO anunciados acaba por resvalar para o exercício seguinte — sobretudo quando convivem com sobressaltos geopolíticos, como o que tivemos no final de fevereiro com a escalada militar entre os Estados Unidos, Israel e Irão. O calendário publicitado é ambicioso, todavia a cautela sugere moderar expectativas”, refere o analista ao ECO.

A popularidade, que caminhou lado a lado (e continua) com a da rede social Tik Tok, trouxe também acérrimas críticas, nomeadamente de produção com materiais perigosos e pouco sustentáveis, utilização de mão-de-obra escrava e trabalho infantil e más condições de trabalho nas fábricas. Depressa nasceram movimentos online anti-Shein e grupos de pressão política, como o “Shut Down Shein” até que a discussão chegou mesmo ao Congresso norte-americano. Perante revés mediáticos, concorrência crescente da Temu – detida pela PDD Holdings (antiga Pinduoduo) – e tarifas de Bruxelas e da Casa Branca, o negócio deteriorou-se.

No primeiro trimestre deste ano, a Shein teve um prejuízo de 99 milhões de dólares (85,5 milhões de euros), em comparação com um lucro de 395 milhões de dólares (341 milhões de euros) registados no mesmo período de 2025, segundo o prospeto preliminar para o IPO publicado no final de julho. Houve ainda uma desaceleração nas receitas entre janeiro e março, sendo que esse trimestre ainda não abrange a entrada em vigor da taxa da União Europeia para compras abaixo dos 150 euros, que arrancou a 1 de julho de 2026 – e está a ter impactos nos utilizadores. Uma pesquisa e simulação de encomenda na app permite perceber que, nalguns casos, o valor dos itens da Shein mais que duplicou.

O património líquido de Sky Xu, cofundador e CEO da Shein, está estimado em seis mil milhões de dólares este ano, o que representa uma queda face ao pico de 11,2 mil milhões em 2024, segundo a revista Forbes.

Os próximos dias darão novas pistas sobre o negócio da “moda rápida”, que a Bloomberg Intelligence estima que melhore. Os analistas Catherine Lim e Jason Zhu acreditam que as contas vão normalizar e avaliaram a Shein entre 22 mil milhões e 25 mil milhões, antecipando uma subida nos lucros na ordem dos 20% ao ano até 2029. “A avaliação da Shein deve considerar uma perspetiva de crescimento e lucros normalizados a partir de 2027, em vez de uma base de referência deprimida para 2026”, escreveram, no compasso de espera pelo IPO que tem por detrás os bancos Goldman Sachs, Morgan Stanley e JPMorgan Chase.

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