Mercado vê como certo corte do Copom e busca pistas sobre futuro no IPCA | CNN Brasil

O mercado dá como certa uma queda dos preços em agosto, favorecendo o cenário para um novo corte de juros pelo Copom (Comitê de Política Monetária) no dia 16 de setembro.

Antes da "superquarta" - quando os bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos anunciam suas decisões de política monetária -, teremos hoje uma "supersexta" da inflação. Tanto aqui, quanto lá serão divulgados os respectivos Índices de Preços ao Consumidor, os últimos indicadores antes do anúncio das taxas de juros.

Os analistas brasileiros carregam a expectativa de que o IPCA de agosto trará uma continuidade da deflação registrada pela prévia da inflação do mês. As apostas variam de queda de 0,2% (metade do anotado pelo IPCA-15) até mais de 0,3%.

Energia elétrica (puxados para baixo pelo Bônus de Itaipu), transporte (com passagens aéreas, viagens de aplicativo e etanol entre os destaques), alimentos e até vestuário e artigos de residência são citados pelos agentes do mercado como os possíveis "amigos" da queda dos preços.

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Porém, o quadro cheio é "algo bem pontual mesmo", enfatiza Gustavo Cruz, CIO da Sincra.

Isso porque agosto é sempre um mês de sazonalidade favorável a preços mais baixos, explica Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Investimentos. Entre os fatores de alívio temporário já observados ao longo dos anos aparecem a conta de luz mais barata, melhor oferta de alimentos e liquidações no varejo.

Núcleo de inflação

Kawauti compara o trabalho dos economistas com o de um arqueólogo num sítio de escavação: é preciso tirar a sujeira por cima com uma escova e observar com delicadeza o que está por baixo.

Nesse caso, os olhos se voltam para os núcleos de inflação - que ignoram itens mais voláteis como alimentos e energia - e os preços de serviços.

"A inflação de serviços, se continuar trazendo a desaceleração, é muito positivo. É o que o Copom precisa para começar a baixar juros com mais confiança. Na minha cabeça, o Banco Central vai continuar pisando em ovos, pois ele vive uma dualidade com pressão do mercado de trabalho, do cenário fiscal e do El Niño que vai começar a pesar agora", observa a economista-chefe da Lifetime.

"Mas os juros estão muito altos. Se vier o IPCA com uma deflação como o mercado está esperando e serviços caminhando para 5,5% no acumulado em 12 meses, o Copom pode levar a taxa de juros a 13,25% no final do ano", pondera.

Por outro lado, apesar de reconhecer que a inflação subjacente deve permanecer abaixo do teto-alvo do BC, o JP Morgan indica, em relatório de terça-feira (8), que o indicador deve seguir elevado e acima dos níveis consistentes com a meta.

Expectativas do mercado

A mediana do mercado colhida pelo boletim Focus do BC mostra que os agentes econômicos apostam, até o momento, em um último corte de 0,25 ponto percentual neste ano na reunião de setembro. Desse modo, a Selic encerraria 2026 no patamar de 13,75% ao ano.

Mas, isso até o momento. Kawauti acredita que se os dados de inflação vierem alinhados com as expectativas ou ainda mais benignos, o mercado deve correr para revisar suas posições - antes mesmo de ler o comunicado do Copom.

Os economistas ressaltam que a desaceleração da economia observada nos últimos números do PIB (Produto Interno Bruto) pavimentam um caminho ainda mais liso para o BC seguir rumo ao corte de juros.

"Esperamos que o ritmo de crescimento se desacelere ainda mais durante o terceiro trimestre, ficando claramente abaixo da tendência, à medida que a atividade enfrenta dificuldades devido às condições financeiras domésticas restritivas, à alta inflação, aos elevados níveis de endividamento das famílias e do serviço da dívida, ao aumento da inadimplência e dos calotes de famílias e empresas e à deterioração da confiança do consumidor e das empresas, tudo isso em um ambiente externo desafiador e volátil", escreveram os analistas do Goldman Sachs em relatório do dia 4 de setembro.

Contudo, o banco ressalta que as expectativas de inflação seguem desancoradas - com "particular preocupação" para o biênio 2027/28 - e as projeções de inflação do Banco Central sigam acima da meta em todo o horizonte de política monetária relevante - o período futuro para o qual o BC considera os efeitos dos juros ao tomar suas decisões.

Em junho, a autoridade monetária projetava as variáveis de inflação entre 3,7% e 3,9% no horizonte relevante. Em agosto, passou a precificá-las de 3,1% a 3,5%.

A referência atual é 2028, quando o mercado vê a inflação em 3,8%, ainda acima da meta de 3% perseguida pelo BC.

Mas olhando para fatores além da inflação, o Sachs avalia que cortes de juros ao longo do último trimestre não podem ser descartados se o câmbio seguir estável e o Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, manter sua taxa de juros inalterada.

É aí que mora a incerteza.

Como a decisão de juros dos EUA afeta o Brasil?

Nesta sexta-feira (11), a BLS (Secretária de Estatísticas do Trabalho dos EUA) divulga o CPI (Índice de Preços ao Consumidor) referente ao mês de agosto.

É o último dado de inflação antes de o Fed se reunir para sua decisão de juros em 16 de setembro, e vem após o principal indicador acompanhado pelo BC norte-americano, o PCE (Despesas de Consumo Pessoal), acumular alta de 3,7% nos 12 meses até julho.

Engrossando ainda mais o caldo, os preços ao produtor nos Estados Unidos da véspera aumentaram, acumulando nos 12 meses até agosto alta de 5,4%, em meio a uma recuperação no custo dos produtos de energia. O dado levou os operadores a elevarem as apostas por uma alta de juros do Fed.

Para o dado desta "supersexta" da inflação, a expectativa também é por preços pressionados. E como isso afeta o Brasil?

"A inflação norte-americana influencia diretamente as condições financeiras globais e, consequentemente, o comportamento do câmbio e dos fluxos de capital para economias emergentes como o Brasil. Dependendo do resultado, o mercado pode revisar suas expectativas para a trajetória dos juros americanos, produzindo impactos sobre o dólar e sobre os ativos brasileiros", responde Thaís Zara, economista-chefe da 4intelligence.

Ainda assim, a casa avalia que ainda existe espaço para que o Copom siga calibrando sua política monetária, realizando mais um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião.