Requerentes de asilo no Reino Unido: Shaken, not stirred

No site da International Network for Education in Emergencies (INEE) pode ler-se que um requerente de asilo é uma pessoa que procura proteção internacional, é alguém cujo requerimento ainda não obteve aprovação final do país no qual esse mesmo requerimento é submetido. Trata-se de um indivíduo que foge da guerra, violência, perseguição por raça, religião ou nacionalidade, opiniões políticas ou grupo social. Em Portugal, por exemplo, segundo dados da AIMA, houve 1.765 pedidos nesse sentido em 2025, repartindo-se por nacionais da Colômbia, China e Angola, citando apenas os mais numerosos. Contudo, é no Reino Unido que a situação se tornou interessante: o governo trabalhista em funções, em data recente, publicou uma cartilha de boas maneiras para quem procura aquele estatuto em terras de Sua Majestade. É um documento pedagógico e profilático oficial do Home Office criado com especial cuidado para não ofender e não hostilizar quem decide procurar no país um novo lar e novas oportunidades.

O Understanding behaviours and expectations in the UK: a guide for asylum seekers, produzido em formato de folheto, em tons pasteis, para retirar qualquer interpretação de agressividade por parte dos destinatários, apresenta imagens com legenda acerca de procedimentos e conceitos unânimes nas ilhas britânicas. Numa linguagem e grafismo acessíveis, preocupa-se em informar acerca de expetativas e comportamentos relacionados com a igualdade de gênero. Nomeadamente, sob o carimbo Asylum, consequences of behavior, incide sobre duas propostas, uma visando o consentimento nas relações sexuais, a outra sobre a igualdade e liberdade femininas. Ou seja, estas liberdades e garantias, conquistas sólidas no Ocidente, são percecionadas pelos criadores deste desdobrável como não inexistentes ou, no mínimo, duvidosas, nos países de origem dos requerentes. Exemplificando, ficando-me pelos títulos, ambos os sexos têm claramente de dizer livremente ‘yes’ antes do ato sexual poder ter lugar, e que homens e mulheres usufruem dos mesmos direitos e tratamento. Violação e livre-arbítrio são então os dois eixos da nota de aviso.

O politicamente correto toma conta da iniciativa. O que é referido é menos informativo do que o que é presumido pelo novo executivo de Andy Burnham. Contrariando o discurso oficial da propaganda da esquerda europeia, assume-se que a condenação das violações e da violência entre sexos não é um dado adquirido universal (em alguns países muçulmanos e do Indostão, por exemplo), como se transformou numa perceção e preocupação das mulheres britânicas: a subserviência tradicional e religiosa (e política) da mulher em muitos locais e culturas é transportada pelos homens recém-chegados para as ruas das suas novas cidades, não se fazendo separação entre raças e etnias por parte dos predadores.

Agitada, não mexida, parece ser a visão trabalhista para as questões relacionadas com a migração. Em vez de oficializar abertamente por via diplomática e política que qualquer indivíduo que defenda a coisificação da mulher não deve procurar o Reino Unido, e, acima de tudo, que será impedido por todos os meios de obter asilo no país, os trabalhistas preferem as meias-tintas, ficando-se por um aviso à tripulação. Este panfleto está ao nível do aviso não fumar ou o peão deve atravessar na passadeira. E, com certeza, será percecionado como tal. Provavelmente, os destinatários da proeza gráfica ficarão com a sensação de que se, eventualmente, cumprirem as indicações, receberão, no mínimo, uma palmadinha nas costas – very well, very well – por parte dos anfitriões.

O folheto, em letras pequenas, lá anuncia os números de telefone para as vítimas de violação. Mesmo por cima pode ler-se a declaração: se tiver sexo sem consentimento, ‘poderá’ ir preso. Isto irá ‘afetar’ o seu pedido de asilo.

Assim corre a hipocrisia da esquerda, continente e ilhas. Apesar da candura, este prospeto tivesse sido formulado por um governo de direita, seria rotulado de fascista, xenófobo e racista.