Rogério usa câmaras centenárias para fotografar provas desportivas. O resultado é surpreendente

Numa prova desportiva, vê-se de tudo. Há quem leve snacks energéticos, relógios para controlar os tempos ou sapatilhas preparadas para bater recordes. Rogério Machado, de 46 anos, aparece muitas vezes com uma câmara analógica. Algumas são tão antigas que parecem ter saído de um museu — uma delas remonta a 1911 — e há modelos que pesam 3,5 quilos. É com elas que, ocasionalmente, fotografa amigos e familiares em provas desportivas.

“Quando não corro, vou tirando fotos”, conta à NiT. A fotografia faz parte da sua vida há muito tempo, embora não seja a sua profissão. O web designer, que vive em Algés, começou por fotografar com máquinas digitais, como a maioria das pessoas.

Durante anos, registou momentos do dia a dia e da família até decidir experimentar o mundo analógico. A experiência correu bem e acabou por transformar-se numa paixão que mantém até hoje.

“Optei pelas analógicas porque estava saturado de tirar fotos digitais”, explica. A mudança não aconteceu apenas por causa do resultado final das imagens, mas também pela forma como o processo obriga a fotografar. “Com uma câmara digital, se fosse tirar fotos a uma corrida, se calhar tirava mil fotos sem problemas e depois tinha de apagar o que não estava bom. Com as analógicas há mais limitação”, diz. “É preciso prever antes das coisas acontecerem e só temos uma oportunidade.” É este desafio que o cativa.

Atualmente, Rogério tem sete câmaras analógicas. Entre elas estão máquinas de 35 milímetros, modelos de médio formato e uma Pentax, além de exemplares centenários. A mais antiga da coleção é de 1911 e muitos dos modelos que possui foram adquiridos através de leilões no estrangeiro, incluindo em países como França e Países Baixos, ou em plataformas de leilões online.

“Gosto muito do desafio de saber o que se consegue realmente fazer com uma câmara analógica”, admite. É precisamente essa imprevisibilidade que o leva a utilizá-las em provas desportivas. Ao contrário do que acontece com uma máquina digital, não pode disparar continuamente até encontrar a imagem perfeita. Tem de escolher o local, antecipar o movimento dos atletas e esperar pelo instante certo.

“Não consigo tirar 200 fotos seguidas. Tenho de me pôr num sítio que faça sentido para registar aquele momento”, explica. “Há uma mudança na forma de pensar e tem mais piada.” O processo inclui ainda uma dose inevitável de suspense: só depois de o rolo ser revelado é que Rogério sabe exatamente o resultado das fotografias. Ainda assim, garante que raramente fica desiludido com o que vê.

A coleção inclui máquinas que não são propriamente fáceis de transportar. Uma delas pesa cerca de 3,5 quilos e, noutro caso, um único rolo permite fazer apenas cinco fotografias. “É preciso pensar mais e não fotografar de forma aleatória”, realça.

Para Rogério, a diferença também está no aspeto final das imagens. Apesar de reconhecer que a tecnologia digital consegue hoje reproduzir muitos dos efeitos associados à fotografia analógica, acredita que o resultado nunca é exatamente igual. 

O web designer não está presente em todas as corridas nem fotografa profissionalmente os participantes. Vai sobretudo quando conhece alguém que está a competir. Se tem amigos ou familiares inscritos e considera que a prova vale a pena, leva uma das câmaras e tenta captar alguns momentos.

“Não faço isto regularmente. Faço isto em provas em que tenho amigos ou familiares a correr”, explica. O hobby também tem custos. Entre a compra do rolo, a revelação e a digitalização das imagens, cada fotografia acaba por ficar por cerca de 4€ a 5€. É mais uma razão para que cada clique seja pensado antes de acontecer.

A presença das câmaras antigas também não passa despercebida aos atletas. Durante as provas, é habitual que lhe perguntem que tipo de resultados consegue obter com aqueles equipamentos. A curiosidade é tanta que, em algumas ocasiões, até fotógrafos oficiais acabam por fotografá-lo enquanto está a trabalhar.

“Já aconteceu em provas ter fotógrafos oficiais a fotografarem-me a mim porque estou com aquela máquina”, conta. “Há sempre muita curiosidade.” Parte da estranheza vem também do próprio tamanho dos equipamentos. “É quase como andar com um caixote atrás”, brinca.

Outra pergunta que ouve frequentemente é se fotografa exclusivamente a preto e branco. A resposta é simples: não. “Isso não tem a ver com a máquina, mas com a película que se coloca lá”, esclarece. Se utilizar um rolo a cores, o resultado são fotografias coloridas e com boa definição. A escolha do filme é, por isso, mais uma das decisões que fazem parte do processo.

Rogério não tem uma página dedicada às fotografias, nem transforma o hobby num negócio. As imagens, digitais ou analógicas, são partilhadas sobretudo com os amigos. 

Carregue na galeria para ver algumas das fotografias que já captou.