Transatlantic Talks: “Hoje são algumas escolas americanas que nos vêm bater à porta”

José Manuel Mendonça, coordenador da estrutura de missão que supervisiona as parcerias estratégicas de Portugal com universidades norte-americanas e Pedro Oliveira, Dean da Nova SBE, em entrevista ao podcast “TransAtlantic Talks”.Hugo Amaral/ECO

As primeiras parcerias entre as universidades portuguesas e americanas cumprem, entre este ano e o próximo, duas décadas de existência. Pedro Oliveira, dean da Nova SBE, que com a Católica organiza o The Lisbon MBA, e José Manuel Mendonça, que coordena a estrutura de missão que supervisiona as parcerias estratégicas de Portugal com o MIT Carnegie Mellon e UT Austin, defendem no podcast Transatlantic Talks que estas iniciativas tiveram um papel transformador. “Hoje são algumas escolas americanas que nos vêm bater à porta”.

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As parcerias com o MIT e Carnegie Mellon foram assinadas em 2006, seguindo-se a UT Austin no ano seguinte. José Manuel Mendonça recorda que as universidades “foram convidadas a vir a Portugal e na altura foi decidido engenharia. Nanotecnologias, computação avançada, média digital, smart manufacturing. Olhando para trás, foi importantíssimo porque se começou a trabalhar 20 anos antes em áreas que hoje em dia são importantes“.

O coordenador da estrutura de missão realça também o impulso dado ao registo de patentes. “Todas as universidades portuguesas, públicas e também a Católica, e alguns politécnicos, passaram a ter gabinetes de transferência de tecnologia, a tratar de patentes, de licenciamento. E isso foi aprendido com os americanos”, diz ao Transatlantic Talks, um podcast do ECO da Amcham Portugal, que celebra este ano o 75º aniversário.

Não foi só artigos científicos, não foi só doutoramentos, (…) foram centenas de startups lançadas e mesmo o impacto sobre os setores estabelecidos e maduros da indústria portuguesa.

José Manuel Mendonça assinala ainda os programas de empreendedorismo realizados com as três universidades. “Não foi só artigos científicos, não foi só doutoramentos, (…) foram centenas de startups lançadas e mesmo o impacto sobre os setores estabelecidos e maduros da indústria portuguesa”. “A Feedzai não existiria se não fossem os programas de parceria americana”, exemplifica.

Universidades mais internacionais

“O principal benefício é o nível de internacionalização que foi conseguido nestes anos todos”, destaca Pedro Oliveira, dean da Nova SBE, que em conjunto com a Católica Business School e a MIT Sloan School of Management, lançou em 2007 o The Lisbon MBA. “Quando se tem parcerias com escolas como o MIT, é mais fácil atrair, por exemplo, talento internacional para serem professores”, refere.

Nas áreas de economia e gestão, acho que o que criámos para Portugal é absolutamente único. Portugal hoje é um destino para estudar.

“Hoje somos uma escola muito internacional; 72% dos nossos alunos [nos mestrados] são internacionais, 70% dos nossos professores são estrangeiros“, ilustra Pedro Oliveira. “Nas áreas de economia e gestão, acho que o que criámos para Portugal é absolutamente único. Portugal hoje é um destino para estudar”, considera o dean da Nova SBE, que coloca o país no mesmo grupo de outros destinos de referência como os Estados Unidos, o Reino Unido, França e a Holanda. O programa de mestrado da Nova SBE teve este ano mais de 9.000 candidaturas para 1.800 vagas.

Ainda que a larga maioria dos estudantes venha do Velho Continente, Pedro Oliveira assinala que “o crescimento maior é precisamente fora da Europa, incluindo os Estados Unidos, curiosamente também o Canadá, o Brasil, obviamente a China e a Índia, mas os Estados Unidos à cabeça”.

Do ceticismo ao “vêm bater à porta”

Pedro Oliveira recorda que a primeira reação das universidades americanas ao estabelecimento de parcerias não foi entusiástica. “Lembro-me particularmente das conversas no MIT, em que, obviamente, o ministro, o secretário de Estado, nós próprios vendíamos a ideia de uma parceria e eles olhavam para nós com respeito, mas assim com um certo ceticismo“, conta. “‘Porque é que eu havia de querer colaborar com Portugal?’ Era isso que lhes passava pela cabeça”.

Quase duas décadas depois, é tudo diferente. “Hoje o que acontece é que são algumas escolas americanas que nos vêm bater à porta porque querem fazer projetos connosco, querem colaborações“, afirma o dean da Nova SBE.

A ameaça da administração Trump de travar a atribuição de vistos a alunos internacionais levou a Harvard Business School a ponderar trazer o seu MBA para a Europa e o Canadá. Segundo avançou o Financial Times (acesso pago) no final de agosto, já depois da gravação deste podcast, a Nova SBE foi uma das escolas consideradas, a par da suíça IMD, da London Business School e da University of Toronto. Esta possibilidade deixou, no entanto, de ser explorada.

Agora olham para nós de uma forma diferente. Olham para as parcerias como algo que é importante também para eles.

“Agora olham para nós de uma forma diferente. Olham para as parcerias como algo que é importante também para eles”, reforça José Manuel Mendonça. O coordenador da estrutura de missão considera que contribuíram para alterar o ecossistema das universidades, aumentar a credibilidade internacional e o reconhecimento a nível europeu. “Reforçou a nossa capacidade de ir buscar financiamento aos programas europeus. Portugal passou de contribuinte líquido nos projetos europeus para ir buscar mais dinheiro do que coloca já há muitos anos”, realçou.

“Os investimentos que houve de muitas empresas em Portugal também são facilitados pelo facto de hoje haver talento em Portugal que é reconhecido como internacional, de altíssima qualidade. Acho que as parcerias tiveram aí um papel muito importante. Falei do Lisbon MBA, mas nós, entretanto, fizemos uma parceria com Harvard, fizemos uma parceria com Stanford, estendemos a parceria com Carnegie Mellon, já além daquilo que são as parcerias institucionais que foram promovidas pelo governo”, refere Pedro Oliveira.

Dar o salto na produtividadeHugo Amaral/ECO

No final de 2024, as três parcerias entre Portugal e universidades norte-americanas — MIT, Carnegie Mellon e UT Austin — foram renovadas até 2030, com um orçamento de 90 milhões de euros. Olhando para o futuro, José Manuel Mendonça gostaria que tivessem um contributo decisivo para reduzir a diferença de produtividade face aos Estados Unidos.

Pedro Oliveira deixa o mesmo desejo. “O país atrai talento como nunca o fez na sua história. E a produtividade não descola. Temos que trazer este impacto para as estatísticas da produtividade“. A inteligência artificial é “uma grande oportunidade” para o fazer, até porque obriga “a repensar todos os processos”. Uma área em que a Nova SBE está a apostar em parceria com… Harvard.

Nós criámos um instituto que neste momento se chama em Harvard AI Institute e na Nova também se vai chamar AI Institute; agora ainda se chama Digital Data Design Institute”, revela. “Os nossos colegas de Harvard que estão a trabalhar connosco no AI Institute fizeram um grande programa que se tornou uma referência global em Singapura, com universidades locais a colaborar, que hoje é considerado uma das razões pelas quais Singapura é uma referência”, explica. “Nós estamos a querer fazer em Portugal aquilo que Harvard fez em Singapura, claro que com muitas adaptações, porque sabemos que é sempre muito difícil replicar modelos, mas podemos sempre aprender com quem faz melhor”, conclui.

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